Quando escrevi A “onda negra”: arte visual afro-brasileira, legitimação e circulação, artigo publicado no Jornal da USP, em 2018, uma das preocupações centrais era compreender a trajetória da arte visual afro-brasileira e os desafios enfrentados por artistas negros para legitimar e circular suas obras no sistema das artes nacional, historicamente excludente e eurocentrado.“Quem nunca passou por uma encruzilhada não sabe escolher caminho.”
Antônio Bispo dos Santos (Nego Bispo)
Os paralelos existentes entre a apropriação da arte africana por artistas europeus modernos (como Picasso e Matisse) e a invisibilização de autorias negras explicavam o motivo da estética africana influenciar movimentos como o cubismo e o fauvismo, enquanto os corpos negros eram retratados como “o outro”, exóticos ou folclóricos.
No modernismo brasileiro, artistas como Tarsila do Amaral e Di Cavalcanti, por exemplo, representaram o negro como símbolo do “povo brasileiro”, mas ainda sob uma ótica de alteridade. A exceção estava reservada a artistas como Mestre Didi e Rubem Valentim, que criaram a partir de suas próprias referências, sem exotismo, incorporando elementos de sua ancestralidade.
Mas, sobretudo, o texto denunciava a dificuldade de inserção de artistas negros em museus, galerias e circuitos de arte consagrados. A “onda negra” que, de fato, seria mais próxima à imagem do tsunami, representava uma força coletiva capaz de romper com essas barreiras e afirmar a autoria negra como protagonista na arte contemporânea.
Apesar de considerar A “onda negra” ainda uma reflexão atual, compreendo que no campo da pesquisa, nos últimos anos, ocorreu um adensamento do interesse por epistemologias que partem de saberes negros, indígenas e periféricos como formas legítimas de produção de conhecimento. Muitas vezes, são investigações que reivindicam a centralidade da experiência negra na produção artística, rompendo com a lógica eurocêntrica dominante.
Essas investigações revisam trajetórias como as de Heitor dos Prazeres, Mestre Didi, Maria Auxiliadora, Emanoel Araújo, Rubem Valentim e tantos outros. Interessam-se pelas práticas, como as de Rosana Paulino, Eustáquio Neves, Sônia Gomes etc. E, a cada dia, descobrem novos vocábulos, tais como os de Thiago Costa, Juliana Santos, Panmela Castro, entre tantos outros. Ou ainda, registram as ações de coletivos, tais como Afrografiteiras, Negras Autoras e Imargem. Assim, estudos que envolvem autorias negras criam a partir de observações, métodos e argumentos afrocentrados, isto é, constroem um pensamento que se alinha à noção de “epistemologia da encruzilhada” —, ou seja, são saberes que transitam entre mundos e resistem à homogeneização da arte e da cultura.
Aqui merece atenção o conceito de “epistemologia das encruzilhadas”, desenvolvido pelo filósofo e antropólogo brasileiro Luiz Rufino, em diálogo com o pensamento de Lélia Gonzalez e outras referências da filosofia africana e afrodiaspórica. Rufino propõe uma forma de conhecimento que nasce nas fronteiras, nos cruzamentos de saberes e nas resistências, especialmente a partir das experiências negras, indígenas e periféricas. Enquanto a filosofia ocidental muitas vezes busca verdades universais e abstratas, a epistemologia das encruzilhadas abraça a contradição, o múltiplo e o incompleto, inspirada nas culturas africanas e indígenas.
Sendo pesquisa e, simultaneamente, suporte para novos estudos, o Projeto Afro está imerso nessa lógica da encruzilhada – nessa possibilidade de escolha do caminho. Há cerca de cinco anos, o projeto, liderado por Deri Andrade, vem mapeando artistas e práticas que operam a partir de epistemologias negras, muitas vezes em tensão com o sistema de arte tradicional, dando maior visibilidade à investigação sobre autorias negras nas artes visuais no Brasil. Essa plataforma, além de refletir a presença de artistas negros nas artes visuais brasileiras, evidencia a luta por inclusão em um País com profundas influências africanas.
Nessa direção, o Projeto Afro contribui para que pessoas negras se vejam representadas em posições de destaque, seja na educação, na mídia, nas artes ou na política. Algo essencial para construir autoestima e quebrar estereótipos negativos enraizados na sociedade. Um dos pilares do projeto é a disseminação de conhecimento sobre a história da África e da diáspora africana, mostrando suas contribuições para a ciência, filosofia, arte e cultura. Isso desafia a narrativa eurocêntrica dominante e promove uma visão mais plural da história.
Como instrumental de pesquisa, nos últimos cinco anos, a plataforma registrou intensas mudanças na abordagem da produção afrodiaspórica, tais como a evidência de movimentos, como o afrossurrealismo, o afrofuturismo e o abstracionismo negro que trouxeram novas perspectivas para a arte contemporânea. Além disso, coletivos artísticos negros e exposições temáticas ampliaram a visibilidade das autorias negras.
Exposições como Diálogos Ausentes (2016, Itaú Cultural) e Histórias Afro-Atlânticas (2018, Masp e Instituto Tomie Ohtake) podem ser vistas como precursoras nessa abertura de espaço à arte afro-brasileira. Essas iniciativas abriram caminhos para propostas curatoriais mais recentes, como Dos Brasis – Arte e Pensamento Negro (2023, Sesc) e Encruzilhadas da Arte Afro-Brasileira (2023, Centro Cultural Banco do Brasil).
Ambas as exposições compartilharam a tarefa de reconhecer, valorizar e dar visibilidade a autorias negras. Apesar de suas abordagens curatoriais distintas, há diversos pontos de convergência entre elas. Alguns pontos comuns são: a centralidade da arte afro-brasileira; a curadoria com foco político e histórico; a diversidade de linguagens artísticas; a presença de artistas consagrados e emergentes; a referência a intelectuais negros; a proposta educativa; o reconhecimento da contribuição negra para a arte brasileira; e o questionamento do processo de apagamento.
Aqui, quando se pensa sobre os desdobramentos da pesquisa possibilitada pelo Projeto Afro ou, ainda, sobre produtos da investigação a respeito de autorias negras, a ligação mais direta está na organização da exposição Encruzilhadas da Arte Afro-Brasileira – uma ação que ultrapassou a esfera digital para tomar concretude no espaço expositivo e na confecção de um catálogo. E foi além: tornou-se mais que uma mostra artística; foi um ato político, um território de memória e um espaço de reinvenção.
Ao reunir obras de autorias negras, a exposição não apenas exibiu a criatividade, mas revelou as múltiplas dimensões de resistência, ancestralidade e futurismo presentes na produção afro-brasileira nos espaços por onde a itinerância passou (São Paulo, Belo Horizonte, Rio de Janeiro e Salvador).
De fato, a exposição rompeu com a ideia de uma arte “universal” (leia-se eurocêntrica), mostrando que a estética negra tem suas próprias geometrias, cores, narrativas e espiritualidades. Seja na pintura, na escultura, na fotografia ou na instalação, as obras trouxeram as marcas do candomblé, da capoeira, do quilombo, da favela e do cotidiano negro – espaços muitas vezes invisibilizados pela história da arte tradicional.
Assim como na epistemologia de Luiz Rufino ou sobre as escolhas do caminho de Nego Bispo, o Projeto Afro e, consequentemente, a exposição e os estudos que decorrem dele colocam o espectador no meio do cruzamento: entre tradição e contemporaneidade, entre dor e alegria, entre o sagrado e o político. Não há uma única narrativa, mas várias possibilidades de ser e criar – e essa tem sido a lição do campo da pesquisa que se interessa por autorias negras.
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