Crime organizado utiliza religião para legitimar o poder em prisões e periferias

Especialistas discutem como o discurso religioso tem sido usado pelas facções criminosas do País para obter apoio em áreas marginalizadas

 01/08/2025 - Publicado há 7 meses
A religião deixa de ser vista como algo para transformações pessoais e individuais e ganha um contexto de transformação política – Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil
Logo da Rádio USP

A religião, mais especificamente a evangélica, sempre foi vista como uma porta de saída do crime organizado. Porém, nos últimos anos, o que se vê é uma mudança de mentalidade. Com o surgimento dos chamados “traficrentes”, especialmente no Rio de Janeiro, o que se vê é uma espécie de intersecção entre esses dois universos. É sobre esse tema que os pesquisadores do Núcleo de Estudos da Violência da USP Camila Nunes Dias e Bruno Paes Manso conversam no USP Analisa desta quinta (31).

Bruno Paes Manso – Foto: NEV-USP

Discursos religiosos

Bruno Manso abordou o assunto no livro A Fé e o Fuzil, quando se deparou com a realidade do Complexo de Israel, complexo de favelas cariocas comandadas por um traficante que, segundo o autor, utiliza um discurso religioso para justificar seu poder e legitimar sua autoridade. 

“A religião deixa de ser vista como algo para transformações pessoais e individuais e ganha um contexto de transformação política. E o discurso religioso passa a ser usado para produzir obediência, para construir autoridade. Eu achei que era muito simbólico e significativo do próprio bolsonarismo, da própria chegada da religião na política dentro desse contexto de presidentes ungidos por Deus e que usam a religião como uma forma de legitimar sua própria autoridade”, explica.

Encontro de universos

Camila Nunes Dias – Foto: IEA

Para Camila, a religião ainda é uma porta de saída do tráfico e até mesmo um espaço seguro de sociabilidade para jovens da periferia. Porém, segundo ela, com o crescimento das igrejas evangélicas e também da influência do crime organizado nas prisões e periferias, esses dois universos acabaram se mesclando em muitos pontos. 

“E, obviamente, para o crime, a igreja é um negócio interessante para lavagem de dinheiro, para esconder a sua própria identidade, para fugir da vigilância policial. Então ela acabou também, em muitos casos, sendo instrumentalizada. E também é muito interessante que muitas vezes não há essa oposição moral, como a gente imagina. Eu cansei de entrevistar presos do PCC ou assaltantes de bancos que eram religiosos e diziam: ‘Eu rezo quando eu vou assaltar um banco para Deus me proteger’”, diz.

 

O USP Analisa é quinzenal e leva ao ar pela Rádio USP às quintas-feiras, às 16h40, um pequeno trecho do podcast de mesmo nome, que pode ser acessado na íntegra nas principais plataformas de podcast. 

O programa é uma produção conjunta do Instituto de Estudos Avançados Polo Ribeirão Preto (IEA-RP) da USP e da Rádio USP Ribeirão Preto. Para saber mais novidades sobre o USP Analisa e outras atividades do IEA-RP, inscreva-se em nosso canal no Telegram ou em nosso grupo no WhatsApp.


Jornal da USP no Ar 
Jornal da USP no Ar no ar veiculado pela Rede USP de Rádio, de segunda a sexta-feira: 1ª edição das 7h30 às 9h, com apresentação de Roxane Ré, e demais edições às 14h, 15h, 16h40 e às 18h. Em Ribeirão Preto, a edição regional vai ao ar das 12 às 12h30, com apresentação de Mel Vieira e Ferraz Junior. Você pode sintonizar a Rádio USP em São Paulo FM 93.7, em Ribeirão Preto FM 107.9, pela internet em www.jornal.usp.br ou pelo aplicativo do Jornal da USP no celular. 


Política de uso 
A reprodução de matérias e fotografias é livre mediante a citação do Jornal da USP e do autor. No caso dos arquivos de áudio, deverão constar dos créditos a Rádio USP e, em sendo explicitados, os autores. Para uso de arquivos de vídeo, esses créditos deverão mencionar a TV USP e, caso estejam explicitados, os autores. Fotos devem ser creditadas como USP Imagens e o nome do fotógrafo.