Esculturas que denunciam a invisibilização de pessoas com deficiência viajarão pela capital em nova fase itinerante

As obras, táteis e acessíveis para pessoas de baixa visão, circularão por espaços públicos da cidade, congressos e inaugurações

 17/07/2025 - Publicado há 10 meses
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Contra um fundo verde cheio de árvores, sobre a grama, se erguem quatro esculturas metálicas vermelhas quase imperceptíveis contra o fundo caótico. Da esquerda para a direita, formam os contornos de uma pessoa surda gesticulando, uma pessoa autista com o característico crachá, uma pessoa com mobilidade reduzida sentada em uma cadeira de rodas, e uma pessoa cega se guiando por uma bengala. Essa última é a mais visível, dada sua inclinação em relação ao ângulo da câmera.
As quatro esculturas da instalação COMtornos expostas na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, ao lado do estacionamento do prédio da História e Geografia – Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

As esculturas da instalação COMtornos, criadas pela artista Karen Montija, viajarão a cidade de São Paulo em uma nova fase itinerante. Reveladas pela primeira vez durante a quinta edição do Simpósio Internacional sobre Linguagem e Cognição (Lincog), em novembro do ano passado, na Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin, as peças metálicas estão desde fevereiro circulando pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP. A próxima parada é o Instituto de Psicologia (IP), agora em julho.

Ao sair da USP, a mostra percorrerá lugares como o Museu da Inclusão, na sede da Secretaria Estadual dos Direitos da Pessoa com Deficiência (SDPCD), o Centro de Treinamento Paralímpico e o Edifício Conde Matarazzo, onde fica a sede da prefeitura de São Paulo.

São quatro finas silhuetas vermelhas feitas de ferro, que representam, em tamanho real, indivíduos com diferentes deficiências – uma pessoa cega, uma pessoa surda, uma pessoa autista e uma pessoa com mobilidade reduzida.

“Se você olha de frente, se tiver bastante informação em volta, ela [a escultura] é quase imperceptível, mas se você caminha por ela, você consegue ver a espessura da fita de ferro que a gente fez”, diz Karen. As obras são também uma colaboração entre ela e o cenotécnico Allan Torquato, que transformou os desenhos da artista em objetos tridimensionais. “É justamente para tratar sobre a invisibilidade das pessoas com deficiência. Você precisa mudar o seu ponto de vista, você precisa se mover, você precisa se movimentar para conseguir perceber essa silhueta”, completa a artista.

Obras acessíveis

Uma mulher branca de cabelos castanhos lisos na altura dos ombros sorri para a câmera. Usa uma roupa vermelha com um echarpe branco com detalhes coloridos em volta do pescoço
Karen Montija – Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

Karen Montija é mestre pela Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP, onde pesquisou a acessibilidade para a experiência estética de obras artísticas. Em sua dissertação (que posteriormente resultou no livro Arte COM Acessibilidade), desenvolveu a Proposta de Acessibilidade e Experiência Estética (PAEE), propondo a criação de obras que, em uma dimensão sensível da arte, de pronto, sejam acessíveis a pessoas cegas. Na instalação COMtornos, por exemplo, o espectador é convidado a tocar e sentir as esculturas, a colocá-las em contato com seu corpo. “Você se movimenta. Você abaixa, você levanta, você vai no entorno da escultura, para poder ter a sua experiência quando você vai de encontro com aquela pessoa que está sendo ali representada”, explica a artista visual.

 

Na praça coberta da Biblioteca Brasiliana, cercado de muitas pessoas de roupas formais usando crachás de vento, um jovem estudante cego de cabelos lisos bem compridos toca uma fina escultura metálica vermelha representando o contorno de uma pessoa surda gesticulando, que se entrepõe entre o estudante e a câmera.
O estudante de Letras Marcelo Venturini, também formado em Ciências Sociais pela USP, interagindo com a escultura de Karen – Foto: Cecília Bastos/USP Imagens
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A mostra foi exposta pela primeira vez na praça coberta da Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin como parte da quinta edição do Simpósio Internacional sobre Linguagem e Cognição (Lincog), que ocorreu entre os dias 6 e 9 de novembro de 2024. O evento foi organizado pelo Instituto de Estudos Avançados (IEA) da USP, trazendo para a discussão pessoas com deficiência, principalmente pessoas cegas, com o objetivo de debater a acessibilidade e a integração no meio acadêmico. Na ocasião, Karen foi convidada a criar uma exposição acessível pelos coordenadores do evento, os professores Paulo Eduardo Capel, da Faculdade de Odontologia (FO) da USP, e Maria Célia Lima-Hernandes, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP.

Hoje, é o professor Capel quem organiza e coordena a itinerância da instalação. Segundo ele, a ideia é que, além dos lugares onde as esculturas já estão programadas para serem expostas, elas também circulem brevemente por congressos ou inaugurações. Já existem conversas, por exemplo, para que a mostra apareça durante o I Congresso Internacional sobre Deficiência da USP, que ocorrerá no prédio da História e Geografia da FFLCH entre os dias 21 e 24 de outubro deste ano.

 

Serviço:
Instalação COMtornos
Atualmente na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP: Rua do Lago, 717 – Butantã, São Paulo
Próxima parada no Instituto de Psicologia (IP) da USP: Av. Professor Mello Moraes, 1.721 – Butantã, São Paulo
Também passará por:
Museu da Inclusão: Av. Mário de Andrade, 564 – Portão 10 – Barra Funda, São Paulo-SP
Centro de Treinamento Paralímpico: Rod. dos Imigrantes, km 11,5 – Vila Guarani, São Paulo
Edifício Conde Matarazzo: Viaduto do Chá, 18 – Centro Histórico de São Paulo, São Paulo-SP


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