Emissões de gases de efeito estufa: a Universidade e a mobilidade urbana

Por Alexandre de Oliveira e Aguiar, pós-doutorando, e Sérgio Almeida Pacca, professor da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da USP

 03/07/2025 - Publicado há 10 meses
Alexandre de Oliveira e Aguiar – Foto: Arquivo pessoal
Sérgio Almeida Pacca – Foto: Arquivo pessoal

 

USP Sustentável

As mudanças climáticas têm sido um tema relevante, com presença nos ambientes políticos nacional e internacional, com impacto também nas mídias sociais e, consequentemente, na opinião pública.

Já existe consenso sobre as consequências reais e potenciais da intensificação do efeito estufa no planeta. Embora haja incertezas quanto à temporalidade da intensificação dos efeitos, as mudanças em regime de chuvas, aumento da frequência de eventos climáticos extremos e outros fenômenos são visíveis no presente.

As universidades desempenham um papel central na geração de conhecimento para mitigação das mudanças climáticas. Seu papel não se limita a produzir e divulgar informações científicas, e formar pessoas, mas há um aspecto importante que são as suas próprias emissões. A descarbonização em instituições de ensino superior está inserida nos contextos em que se discute os campi sustentáveis.

Universidades ao redor do mundo têm adotado metas de emissão zero e têm implementado programas de inventário de emissões para monitorar seus impactos ambientais. Uma das ferramentas mais utilizadas, se não a mais utilizada, é o inventário de emissões de gases de efeito estufa. Trata-se de uma lista das fontes de emissão de gases de efeito estufa e da quantificação do seu potencial de aquecimento global. A implementação de inventários em instituições de ensino superior (IES) permite não apenas quantificar emissões, mas também embasar decisões e projetos de redução de impacto ambiental.

A quantificação dos gases de efeito estufa em organizações, como universidades, é feita por meio dos inventários de gases de efeito estufa. Esses inventários devem incluir tanto as emissões diretas quanto as indiretas das operações da organização. Essas emissões são classificadas, nas normas internacionais, em “escopos”:

• Escopo 1: Emissões diretas, provenientes das atividades sob controle da organização, incluindo combustão de fontes estacionárias e móveis, processos industriais, atividades agrícolas, mudança de uso do solo, emissões fugitivas e o tratamento próprio de efluentes e resíduos.
• Escopo 2: Emissões indiretas de energia adquirida. No Brasil, refere-se quase exclusivamente à compra de eletricidade, embora em outros países seja mais comum a aquisição de outras formas de energia, como vapor e ar comprimido.
• Escopo 3: Outras emissões indiretas, como transporte de funcionários e estudantes, viagens a trabalho, compra de bens e serviços e gestão de resíduos e efluentes realizados por terceiros.

Para as universidades, as emissões indiretas relativas à mobilidade urbana de docentes, funcionários não docentes e alunos é frequentemente das mais relevantes. Vaisi et al. (2021) analisaram uma amostra de 15 estudos e em aproximadamente 1/3 deles a mobilidade era a principal categoria de fontes de emissão de gases de efeito estufa. Pérez-Neira et al. (2020) concluíram que aproximadamente a metade das emissões era causada pelos deslocamentos mais longos, de mais de seis quilômetros.

Uma das formas comuns de se estimar as emissões de gases de efeito estufa de uma atividade é quantificar a atividade por alguma medida e multiplicar essa medida por um “fator de emissão”. Por exemplo, o consumo de eletricidade, em kWh, é multiplicado por um fator de emissão para se calcular quantas toneladas de CO2 equivalentes esse consumo representa. O mesmo acontece com o consumo de óleo diesel, ou seja, multiplica-se o consumo em litros por um fator de emissão. No caso da mobilidade, há alguns desafios.

O primeiro deles é como quantificar a atividade. Seria possível, por exemplo, saber quanto combustível de veículos particulares foi consumido em cada viagem por cada pessoa que vai à universidade em carro particular? Evidentemente, as pessoas não fazem essa medida diariamente. Mesmo a distância efetiva percorrida pouco provavelmente é medida cotidianamente. Outros fatores, como a prática de “carona” e o uso de táxi ou carros de aplicativos, também dificultam saber o tipo de combustível utilizado.

No caso das pessoas que usam transporte coletivo, como saber exatamente a distância percorrida? O uso de mais de um meio na mesma viagem é um desafio adicional. Aqui há um agravante: como quantificar as emissões dos transportes coletivos? É preciso saber os fatores de emissão para cada passageiro, por modal e por distância percorrida. Como levar em conta a lotação dos meios de transporte ao se escolher o fator de emissão?

Por fim, há a questão do trabalho e estudo remotos – com que frequência as pessoas vão à Universidade? E ao longo do ano, essa frequência varia. Como levantar esses dados?

Uma das possibilidades é fazer uma pesquisa origem-destino. Mas numa universidade tão diversa como a USP, que tem tantos campi com características diferenciadas de mobilidade, é possível fazer um formulário adaptado a esta realidade? E que seja simples o suficiente para que muitas pessoas se disponham a responder, mas completo o suficiente para ter todas as informações? Infelizmente, não são muitas as pesquisas anteriores que publicaram seus questionários.

Além disso, os hábitos da população podem mudar de um ano para o outro ou mesmo durante o ano, devido a mudanças, por exemplo, na grade de disciplinas de um semestre para outro, da carga horária ou do regime de trabalho presencial/remoto, trazendo a necessidade de repetição periódica da pesquisa.

As ações para a redução das emissões na mobilidade urbana são, de maneira geral, bem conhecidas. No caso do uso de frota, a USP já prioriza o uso de etanol em veículos Flex, motivo pelo qual suas emissões já são relativamente baixas nesta parcela. A USP tem ainda projetos em andamento para transformar ônibus que atendem o campus São Paulo em ônibus movidos a hidrogênio verde.

No caso da mobilidade casa-trabalho ou casa-escola (alunos), ainda é preciso conhecer melhor o perfil das emissões, que está em estudo. De qualquer modo, as medidas tradicionais se aplicam: incentivar o uso de transporte coletivo, carona e transporte ativo, e o uso do etanol como combustível apresentam significativo potencial de mitigação climática.

Há ainda o desafio de que em cada campus os hábitos são diferentes: por exemplo, no campus Butantã o metrô é boa alternativa, e na USP Leste há facilidade com o trem. Os campi do interior não têm essas facilidades, e ainda há diferenças entre eles. Por exemplo, a área 1 do campus São Carlos fica numa área central da cidade e facilita o transporte ativo – a pé ou bicicleta, enquanto em Lorena a área 1 fica fora da cidade, numa distância maior, dificultando o transporte ativo.

As universidades precisam assumir seu papel como agentes ativos na descarbonização da mobilidade. Este assunto reforça a importância de integrar ensino, pesquisa e gestão ambiental na solução do problema. É preciso, com base em fatos e dados, utilizar sua expertise na formação e o capital intelectual para influenciar pessoas, visando provocar a ação da comunidade, principalmente nos trajetos mais longos. Ação para adotar transporte ativo como a bicicleta e os trajetos que sejam a pé em boa parte do percurso. Ação para usar os transportes coletivos ao invés do individual. Ação para os esquemas de carona e para, no fim, usar etanol ao invés de gasolina nos veículos Flex, e veículos elétricos conforme forem ficando mais acessíveis e seu uso seja mais prático com a implantação de pontos de abastecimento pela cidade.

________________
(As opiniões expressas nos artigos publicados no Jornal da USP são de inteira responsabilidade de seus autores e não refletem opiniões do veículo nem posições institucionais da Universidade de São Paulo. Acesse aqui nossos parâmetros editoriais para artigos de opinião.)

Política de uso 
A reprodução de matérias e fotografias é livre mediante a citação do Jornal da USP e do autor. No caso dos arquivos de áudio, deverão constar dos créditos a Rádio USP e, em sendo explicitados, os autores. Para uso de arquivos de vídeo, esses créditos deverão mencionar a TV USP e, caso estejam explicitados, os autores. Fotos devem ser creditadas como USP Imagens e o nome do fotógrafo.