
Apesar de serem um dos formatos mais antigos de organização do conhecimento – remontando às anotações de Aristóteles na Grécia Antiga –, as enciclopédias enfrentam hoje um dilema entre a tradição impressa e as possibilidades (e riscos) do digital. Brasilina Passarelli, pesquisadora da USP especializada em Comunicação Digital, traça um paralelo histórico: “Elas surgiram para democratizar o acesso à educação, mas sempre foram caras. Uma enciclopédia britânica completa tem 40 volumes. Quem tinha isso em casa?”.
Com a internet, o modelo ganhou agilidade: “No digital, você atualiza verbetes em tempo real. Na versão impressa, uma edição levava dez anos para ser revisada”. Porém, a professora alerta para a armadilha da desintermediação: “A Wikipédia é colaborativa, mas sem curadoria especializada. É um bom ponto de partida, mas nunca a única fonte”.
IA e enciclopédias: personalização vs. preservação
A inteligência artificial promete revolucionar o formato. “Ela pode cruzar dados de múltiplas fontes para criar verbetes personalizados”, explica Brasilina. No entanto, a tecnologia traz desafios profundos. A curadoria automatizada mostra-se particularmente frágil, como alerta a pesquisadora: “A IA se alimenta de redes sociais, blogs e portais – se a base for enviesada, o resultado será lixo”, aplicando o princípio computacional garbage in, garbage out. Igualmente preocupante é a questão da preservação digital: “Quem garante que um verbete gerado hoje estará acessível daqui a 20 anos? Softwares ficam obsoletos, e conflitos geopolíticos podem apagar servidores inteiros”, questiona a professora, destacando a volatilidade do conhecimento digitalizado.

Ela também destaca o risco da “economia da atenção”: “Plataformas como YouTube mostram apenas 5% de seu acervo. O que não é viral some. Precisamos evitar que enciclopédias digitais sigam essa lógica”. A personalização via IA também preocupa: “Se um assinante da Britânica receber apenas conteúdos alinhados a seu perfil perderá a pluralidade. Enciclopédias sempre foram sobre explorar o desconhecido, não reforçar bolhas”. E complementa: “Isso já acontece nas redes sociais. Não podemos deixar que o conhecimento siga o mesmo caminho”.
Brasilina argumenta que nenhuma enciclopédia pode ser considerada totalmente imparcial. Destaca que mesmo a renomada Enciclopédia Britânica possui seus vieses editoriais, sendo a transparência o fator mais importante nessa equação. A especialista faz um contraste histórico entre as enciclopédias do século 18 – escritas por pensadores como Locke – e a Wikipédia contemporânea, que permite edições anônimas. Segundo sua análise, a questão não está em elitizar o conhecimento, mas em reconhecer que a participação de especialistas agrega camadas fundamentais de rigor acadêmico.
Ao abordar o tema da inteligência artificial, propõe uma abordagem equilibrada, ressaltando que esses sistemas não são verdadeiramente “artificiais”, pois são criados por seres humanos. Ela alerta para o perigo da falsa neutralidade algorítmica, exemplificando como um sistema poderia privilegiar automaticamente conteúdos em inglês em detrimento de produções em línguas minoritárias. Como solução, ela defende a implementação de mecanismos que obriguem os sistemas a explicarem seus critérios de seleção de fontes, similar ao que faz o Transparency Project no campo jornalístico.
A professora ilustra sua argumentação com casos concretos: a Enciclopédia Britânica, que teve sua última versão impressa em 2010, após 244 anos de história. Esse fim se deu por questões financeiras, mas a versão on-line mantém um rigoroso comitê de especialistas. Brasilina emprega uma analogia contundente para descrever essa situação, comparando uma enciclopédia sem curadoria especializada a “um hospital sem médicos”, onde a tecnologia pode auxiliar, mas nunca substituir completamente o conhecimento especializado.
O futuro: curadoria humana + tecnologia
De acordo com a especialista, o caminho exige ações estruturais. Ela defende a criação de políticas públicas robustas de preservação digital, argumentando que a perda de acervos enciclopédicos por falhas técnicas ou conflitos geopolíticos representaria um apagão cultural. ‘São esforços isolados. Devia ser obrigação dos Estados garantir a memória digital’.
Quanto ao formato físico, reforça: “Enciclopédias impressas continuam sendo um backup necessário. São a garantia contra apagões digitais”. Sobre os riscos da IA, é taxativa: sistemas algorítmicos podem invisibilizar conteúdos não populares. “A solução está em regulamentar a transparência dessas ferramentas sem abrir mão da curadoria especializada.”
*Sob supervisão de Paulo Capuzzo
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