Um monumento à juventude negra na USP

Por Fredson Sado Oliveira Carneiro e Nuno Manuel Morgadinho dos Santos Coelho, professores da Faculdade de Direito de Ribeirão Preto da USP

 25/06/2025 - Publicado há 9 meses
Fredson Sado Oliveira Carneiro – Foto: Arquivo pessoal
Nuno Manuel Morgadinho dos Santos Coelho – Foto: Arquivo pessoal

 

A USP, por meio de uma iniciativa conjunta de estudantes do Núcleo de Estudos e Pesquisas Jurídico-Raciais Esperança Garcia (Nuepeg) da Faculdade de Direito de Ribeirão Preto, professores da unidade e a direção da Faculdade de Direito de Ribeirão Preto (FDRP), irá erguer o primeiro monumento em homenagem à juventude negra em seus campi. Diante de resistências que inviabilizaram o financiamento original, a comunidade acadêmica lançou uma campanha de financiamento coletivo para viabilizar a obra do renomado artista Jorge dos Anjos. A campanha também visa custear um novo programa de bolsas para estudantes negros em situação de vulnerabilidade social, reforçando o compromisso da Universidade com a inclusão e a reparação histórica.

A proposta de instalação do Monumento em Homenagem à Juventude Negra na USP surge como uma resposta ao histórico de apagamento da memória e contribuições da população negra no Brasil e na própria Universidade. Dados recentes, como os que apontam que apenas 5% dos monumentos em São Paulo homenageiam pessoas negras, evidenciam uma sub-representação que a iniciativa busca combater.

Essa obra não visa apenas preencher uma lacuna, mas também inscrever na paisagem um símbolo do compromisso de erigir uma sociedade sem racismo e promover um sentimento de pertencimento para a população negra, por muitos anos apartada das faculdades de direito pelo racismo institucional que marca a história do Brasil.

A escolha do artista Jorge dos Anjos, reconhecido por sua obra que dialoga com a ancestralidade africana e a luta por igualdade racial, é de fundamental importância. Como afirmava Beatriz Nascimento, “a história do Brasil é uma história escrita por mão brancas”, por isso, é imperativo “que os próprios negros escrevam a sua história”. Esse convite à reflexão e à ação política reforça a necessidade de reconhecermos e garantirmos espaço para representações afrocentradas feitas por mãos negras.

Ampliando a simbologia e o significado da iniciativa, a própria ideia de fixar o monumento no espaço universitário dialoga com o conceito de “assentamento”, um gesto de profundo significado nas religiões de matriz africana. No Candomblé, por exemplo, “assentar” relaciona-se a “plantar o axé” (a força vital), tornando um chão sagrado, vivo e conectado intrinsecamente à comunidade que ali deposita sua energia e seus anseios.

Apesar do amplo apoio da comunidade acadêmica, a construção do monumento enfrentou resistências que resultaram na perda dos recursos inicialmente previstos. Em resposta, a direção da FDRP em conjunto com alguns docentes e com o Nuepeg, grupo engajado de estudantes negros da faculdade, mobilizou-se para lançar uma campanha de financiamento coletivo.

Além de angariar fundos para a escultura, a campanha tem um objetivo adicional de impacto social direto: a criação de um programa de bolsas de estudo destinado a estudantes negros em situação de vulnerabilidade social que ingressam na FDRP-USP. Essa dupla finalidade visa não só à reparação simbólica por meio da arte, mas também à material, ao oferecer suporte para a permanência e sucesso desses estudantes na Universidade.

Compreendemos que ingressar num universo no qual não existem referências próximas à sua realidade pode levar ao adoecimento e à evasão. O monumento e as bolsas são ações concretas para mudar esse cenário. Apresenta-se, assim, um chamado à ação capaz de construir o futuro, honrando a ancestralidade e celebrando a juventude negra.

Essa iniciativa ressalta a trágica realidade do genocídio da juventude negra no Brasil, em que jovens negros são as maiores vítimas de violência letal. O monumento, nesse contexto, consiste em um ato humanista e civilizatório, uma escultura de uma memória do presente, que denuncia essas violências e projeta a esperança de novos futuros possíveis para a juventude negra.

A USP tem avançado em políticas de inclusão e letramento racial. A instalação do monumento na FDRP, unidade com histórico de debates sobre direitos e inclusão, é mais um passo coerente com essa trajetória.

A comunidade acadêmica e a sociedade em geral são convidadas a participar dessa construção. Um monumento pode lançar para o futuro as bases de um projeto em aberto de uma realidade que se almeja. Assim, conclamamos o apoio de todos e todas para que a juventude negra não apenas seja lembrada, mas que, principalmente, se mantenha viva e possa forjar uma nova história para o Brasil.

Embora a proposta do monumento na USP não possua uma conotação religiosa, a compreensão do princípio cultural do assentamento enriquece sua dimensão: trata-se de, simbolicamente, “assentar” a memória, a presença e a importância da juventude negra no território da Universidade. Seria demarcar um espaço de reconhecimento e força, criando um ponto de referência e pertencimento, no qual a comunidade acadêmica, especialmente seus membros negros, pode se sentir fortalecida e representada.

Interessados em apoiar a construção do Monumento à Juventude Negra na USP e o programa de bolsas podem contribuir através da campanha de financiamento coletivo.

Para mais informações sobre o projeto e outras formas de apoio, entre em contato com a Faculdade de Direito de Ribeirão Preto da USP

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