Plano estratégico da Opas reconhece impacto da violência no atendimento à saúde nas Américas

Marcelo Nery destaca que o novo plano da Opas/OMS para as Américas reconhece que povos indígenas e afrodescendentes enfrentam desigualdades históricas que limitam seu acesso a serviços de saúde

 23/06/2025 - Publicado há 9 meses
Imagem, da qual só se vê sombras em silhueta, de alguém apontando um revólver para outra pessoa que está no chão, com as mãos espalmadas implorando pela vida
A violência estrutural, ligada a desigualdades econômicas, raciais e territoriais, afeta migrantes e comunidades marginalizadas – Foto: Maxim Hopman na Unsplash
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O Plano Estratégico da Opas/OMS 2026-2031 destaca a violência interpessoal, de gênero, comunitária, institucional e criminal como um determinante social crítico da saúde nas Américas, com impactos diretos no bem-estar físico, mental e social. Contextos de conflitos, insegurança e crises políticas agravam esses problemas, prejudicando os sistemas de saúde e aprofundando desigualdades. Crianças e adolescentes sofrem com altas taxas de violência sexual, trabalho infantil e mortalidade evitável, perpetuando ciclos de pobreza. Além disso, a violência estrutural, ligada a desigualdades econômicas, raciais e territoriais, afeta migrantes e comunidades marginalizadas. O plano reforça que o fortalecimento dos sistemas de saúde na região depende do combate à violência, da redução das desigualdades e da inclusão de ações específicas para grupos vulneráveis. A abordagem marca uma evolução, indo além dos efeitos imediatos da violência para analisar suas raízes sociais e impactos duradouros.

Marcelo Nery, do Núcleo de Estudos da Violência (NEV) da USP e coordenador do Centro Colaborador da Opas/OMS, explica: “A gente precisa lembrar que a OMS trata prioritariamente de questões de saúde. Então, dentro desse aspecto, trazer para o diálogo temas como violência, mostrar que esse é um dos temas fundamentais e tem impacto em todas as outras questões. O NEV, então, assumiu esse papel para tratar dessa questão ou trazer para o debate essas questões dentro das reuniões da OMS que estão elaborando esse documento, que vai ser referência para o mundo inteiro, para todos os programas de saúde entre 2026 e 2031”.

Homem preto, praticamente calvo, barba e bigode, falando num microfone e vestindo terno e gravata escuros e camisa branca
Marcelo Batista Nery – Foto: IEA-USP

Enquanto outros centros colaboradores da Opas/OMS no Brasil também trabalham com temas ligados à violência, o NEV é o único que aborda o fenômeno a partir de conflitos sociais, criminalidade e violações de direitos humanos. A Organização Mundial da Saúde tradicionalmente trata a violência como questão de saúde pública, focando em seus impactos diretos. Já o NEV avança nessa perspectiva, contribuindo para uma análise mais ampla e estrutural do problema.

Indígenas e afrodescendentes

Nery destaca que o novo plano da OMS para as Américas reconhece que povos indígenas e afrodescendentes enfrentam desigualdades históricas que limitam seu acesso a serviços de saúde. O documento enfatiza a importância de adaptar os sistemas de saúde para garantir atendimento adequado a esses grupos, levando em conta suas especificidades. Além disso, a violência contra crianças e adolescentes é tratada como prioridade, com destaque para altas taxas de violência sexual, trabalho infantil e mortalidade evitável. A abordagem reforça a necessidade de ações direcionadas, considerando fatores históricos, econômicos e sociais para romper ciclos de violência e desigualdade.

“O NEV conseguiu, felizmente, colocar no documento um destaque específico a pessoas privadas de liberdade. Não podemos esquecer que estamos falando da América Latina e a população prisional na América Latina, de maneira geral, mas no Brasil, especificamente, não só pela sua importância qualitativa, mas também pelo seu tamanho, o número de pessoas encarceradas, não pode ser negligenciado pela OMS e a gente conseguiu fazer com que a OMS e a Opas compreendessem e colocassem isso no documento”, comenta o professor.

Para finalizar, Marcelo Nery explica que o plano estratégico da Opas/OMS 2026-2031 está em fase final de aprovação, após passar por revisões institucionais. O documento, que deve ser publicado em breve, estabelece indicadores prioritários para monitorar desafios regionais, com ênfase em violência, saúde mental e traumas. Com indicadores segmentados por temas e níveis de urgência, a proposta visa a não apenas diagnosticar, mas também a direcionar recursos e estratégias para melhorar a saúde pública na região, especialmente entre populações historicamente negligenciadas, como vítimas de violência, indígenas e crianças em situação de vulnerabilidade.


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