No texto Sobre o tempo: Huygens, Lorde Kelvin e Curies, apresentei o conceito como grandeza física passível de ser medida objetivamente pela observação de processos oscilatórios e terminei convidando a pensar sobre o tempo como modulador dos fenômenos biológicos e psicológicos e sua percepção, por parte dos seres vivos.
Lembrei-me de quando convivi com pesquisadores (as) do laboratório de cronobiologia do Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) da USP e do Núcleo de Neurociências e Comportamento (NEC) da USP. Participei como ouvinte de várias discussões sobre diversas visões científicas e filosóficas da ação temporal, o que aguçou a minha curiosidade.
Aprendi os conceitos de tempo físico, tempo fisiológico e tempo psicológico que para esses (as) pesquisadores (as) são objetos de estudos cuidadosos, com resultados relevantes para o dia a dia. Na época, meados dos anos 1990, tentei me aprofundar sobre o tema, mas tive dificuldade de entendimento de leituras que requeriam certos conhecimentos específicos.
Prossegui com o foco no estudo da transmissão e detecção de sinais eletrônicos de clock, objeto de minha pesquisa em engenharia sem, entretanto, tratar das questões de simultaneidade, afeitas às teorias de relatividade, restrita ou geral, que, para mim, são difíceis pois exigem conhecimentos mais profundos de física. Estudo, apenas, os problemas relacionados com a eletrônica do tempo, com uma abordagem da física clássica.
Pensar nos tempos biológico e psicológico é fascinante e, recentemente, deparei-me com a leitura de O rio da consciência, de Oliver Sacks, que me levou a essa reflexão. A obra de Sacks lembrou-me os (as) amigos (as) dos tempos de ICB e NEC. Embora o autor não seja frequente na academia mais ortodoxa, foi um psiquiatra com larga visão científica e um autor de escrita muito agradável.
Nesse livro, último escrito por ele, questões sobre evolução, memória e criatividade são tratadas de maneira instigante e clara. Entre elas, vou me ater ao capítulo por ele denominado “Velocidade”, que trata das possíveis ações do tempo sobre o mundo do conhecimento.
Falando sobre velocidades de operação e de tempos de exposição em máquinas fotográficas, filmadoras e projetores, comenta sobre possíveis visões de mundo mais rápidas ou mais vagarosas a que estaríamos expostos, acelerando ou tornando lentas as escalas temporais de gravação e projeção. Essas experiências costumam ser divertidas quando assistimos filmes obtidos em reuniões familiares rodando com rapidez ou lentidão.
Sacks ressalta que as velocidades variáveis com que podemos olhar para gravações obtidas por câmaras permitem visões dos mundos animal e vegetal muito ricas, viabilizando o entendimento de fenômenos naturais lentos ou rápidos, quando observados pelos padrões humanos.
Poucos profissionais das áreas de exatas não tiveram o gosto pela ficção científica iniciado na adolescência. Um nerd autêntico passou quase certamente pela Máquina do tempo de H. G. Wells, obra editada em 1895, tão bem lembrada e conectada por Sacks às ideias de sonhos, memórias e viagens mentais para passados e futuros.
Um exemplo é a viagem para o ano 802 701d.c. encontrando Elóis e Morlocks como caricaturas de futuras classes sociais, com a separação e isolamento que, ao olharmos para nossa sociedade atual, parecem verossímeis.
Sacks me leva a redescobrir a obra de Wells e, assim, saio em busca do livro O novo acelerador, que encontro em uma versão de 1983, em espanhol (El nuevo acelerador), que conjectura a existência de uma droga que acelera cerca de mil vezes as percepções, pensamentos e metabolismos de uma pessoa. Ao ingerir a fictícia droga, a pessoa passa a perceber o mundo a sua volta como se as outras pessoas estivessem congeladas ou surpreendidas em meio a um gesto.
Seguindo Wells, guiado por Sacks, chego à obra Os primeiros homens da Lua, que encontro em inglês (The First Men in the Moon), em edições eletrônicas recentes. Plantas crescem em velocidades espantosas sob a ação de força gravitacional muito menor que a que seria exercida pela Terra.
H. G. Wells viveu entre 1866 e 1946. Os primeiros homens da Lua é livro publicado pela primeira vez em 1901, 68 anos antes de Neil Armstrong pisar no satélite que gravita em torno do nosso planeta.
Em relação ao livro O novo acelerador, também foi editado em 1901 e hoje a sociedade convive com drogas de alto poder de modificação das percepções humanas levando a estados mentais talvez equivalentes aos conjecturados por Wells.
A obra de ficção científica de H. G. Wells é muito rica com outros trabalhos de deliciosa leitura como O homem invisível e A ilha do Doutor Moreau. Entretanto, as que mais me atraem são aquelas que envolvem alterações de sensação e vivência do tempo: A máquina do tempo e O novo acelerador.
Curiosidades sobre o futuro povoam nossos pensamentos. Viagens para o passado e para o futuro implicam paradoxos físicos que as inviabilizam, uma vez que o passado é considerado imutável.
Acelerar ou retardar o passar do tempo parece fazer parte do nosso dia a dia. Uns dizem que o ano passou muito rapidamente, outros discordam, apesar do tempo físico, aparentemente, ser o mesmo.
O que é notável é como o tempo faz a ficção se transformar em realidade. Pisar na Lua, curar o antes incurável, criar máquinas que simulam pensamentos, parecem ações de amplo progresso que talvez contribuam para aumentar o zelo pela vida e pelo planeta.
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