A estatal Embratel liberou o acesso da rede internet à população geral no Brasil há 30 anos e, desde então, as estatísticas comprovam que a rede mundial de computadores mantém o seu estatuto como esfera pública, apesar de muita coisa ter mudado de lá para cá, admite o professor Martin Grossmann. Dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), divulgados em agosto do ano passado, mostram que a internet foi utilizada em 92,5% dos domicílios (72,5 milhões) do País em 2023. O equipamento mais utilizado para acessar a internet em 2023 foi o telefone móvel celular (98,8%). Em seguida, vem a TV (49,8%). “Curioso notar que o acesso à internet por microcomputador recuou de 63,2% em 2016 para 34,2% em 2023, e, por tabela, o acesso por meio do tablet caiu de 16,4% para 7,6%. A maioria das pessoas que não usaram internet em 2023 tinha, no máximo, o fundamental incompleto (75,5%) ou eram idosos (51,6%); o porcentual de idosos (60 anos ou mais) que utilizam a internet subiu de 24,7% em 2016 para 66,0% em 2023.”
No entanto, Grossmann observa que a internet passou a ser uma multimídia “incontornável, globalizada, de manipulação psicopolítica, gestada não mais pelo poder público, mas comandada pelas big techs e similares, como é o caso nos impérios totalitários como o da China e da Rússia”. Ele observa ainda que a idealização da internet como esfera pública se deve em grande parte à contracultura. “Jovens desenvolvedores e entusiastas da informática, que se identificavam com os valores da contracultura, buscavam criar máquinas que transformassem o mundo em um lugar melhor, mais sujeito e favorável a esses valores. Durante as décadas de 1960 e 1970, quando os fantasmas e horrores das duas grandes guerras ainda incomodavam a humanidade, parte dos desenvolvedores em computação buscou fomentar o uso de computadores para aumentar as capacidades humanas, capacidades emancipatórias em prol de uma sociedade democrática. Por outro lado, nesse mesmo espírito, jovens entusiastas pela computação visualizaram que, com os microprocessadores – computadores em um chip – era possível desenvolver um computador barato e pequeno o suficiente para ser propriedade de um indivíduo e surgiam assim os PCs. O pano de fundo era o de uma sociedade em rede, conectada e comprometida com o bem comum, mais justa e igualitária. Mas o mercado, mais uma vez, foi implacável, pois o comercialismo substituiu o idealismo na história da multimídia. Os hackers radicais se tornaram empresários.”
Na Cultura, o Centro está em Toda Parte
A coluna Na Cultura o Centro está em Toda Parte, com o professor Martin Grossmann, vai ao ar quinzenalmente, terça-feira às 9h, na Rádio USP (São Paulo 93,7; Ribeirão Preto 107,9) e também no Youtube, com produção da Rádio USP, Jornal da USP e TV USP.
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