
No Brasil, cerca de 59,7% dos partos realizados em 2023 foram por meio de cesariana. Para a Organização Mundial da Saúde (OMS), essa porcentagem deve ficar entre 10% a 15%. A taxa dessas cirurgias dentro do intervalo citado é um indicador de qualidade na assistência obstétrica e reflete as intervenções no parto e no acesso à saúde.
A cesárea é um procedimento que consiste na abertura da parede abdominal da pessoa que irá parir, com o objetivo de retirar o feto do útero. É indicada em determinadas condições, como quando há deslocamento prematuro da placenta, incompatibilidade feto-pélvica ou se existem riscos para a criança ou a mãe, por exemplo. Andrea Silveira de Queiroz Campos, médica ginecologista, obstetra, doutoranda da Faculdade de Saúde Pública da USP (FSP-USP) e autora de um estudo sobre qualidade de assistência ao parto e taxas de cesárea por grupos de Robson no setor privado municipal de São Paulo, explica sobre essa intervenção.
Qualidade do parto

Segundo a especialista, a diferença entre os números de realização dessa modalidade de parto pode indicar um cenário positivo ou negativo: “Uma taxa de cesárea muito baixa está relacionada com falta de acesso à saúde. Agora, taxas de cesárea muito altas são comuns em países que têm facilidade de acesso à saúde”. Entretanto, ela ressalta que a ocorrência elevada pode estar relacionada a complicações maternas ou fetais e que só deve ser realizada por indicação médica. Por ser uma cirurgia, a cesariana é capaz de acarretar riscos a curto e a longo prazo, como complicações em gravidezes futuras.
Andrea ressalta que outras intervenções ao dar à luz precisam de justificativas, a exemplo do uso de ocitocina, romper a bolsa (se for preciso) e fornecer analgésicos. “Ocitocina é um hormônio que aumenta as contrações do parto. Então, quando a mulher entra em trabalho de parto espontaneamente, o trabalho de parto evolui na grande maioria das vezes sem precisar de nenhuma intervenção.” Para ela, o papel de quem dá assistência no processo é avaliar a evolução observada e intervir se houver necessidade.
A médica entende que o primordial é proporcionar uma boa experiência para a mãe e o bebê. “Quando a gente fala em uma boa experiência, significa que a mulher está bem e o bebê está bem. […] É importante que essa experiência seja transformadora, prazerosa e sem eventos traumáticos.” O acompanhamento do pré-natal e o fornecimento de informações durante a gravidez, por exemplo, são recomendações que caminham para um bom parto.
Classificação de Robson
A Classificação de Robson é uma instrumento adotado pela OMS para avaliar, monitorar e comparar taxas de cesáreas em determinado período e localidade. A especialista explica o método: “Ela classifica as mulheres em dez grupos que são homogêneos, de acordo com os riscos de cesárea de cada grupo. E não tem como fazer parte de dois grupos”.
A classificação é realizada no momento do parto, a partir de cinco características obstétricas: número de fetos, situação fetal, idade gestacional, início do trabalho de parto e antecedentes. Para Andrea, entender a criação da escala acompanha o comportamento da sociedade atual, como as gestações tardias, doenças crônicas, obesidade e técnicas de reprodução assistida. “As mulheres do grupo um a quatro são aquelas que têm menor risco de ter uma cesárea, e dos grupos cinco em diante são as que têm maior risco de cesárea. No grupo cinco, estão as mulheres que já têm filhos, que estão com nove meses, e que têm cesárea anterior”, conta.
Políticas públicas
Segundo a médica, quando as mulheres são bem informadas — desde o ensino médio — e a equipe médica respeita a evolução do parto, as taxas de cesariana são menores. Ela cita o projeto Parto Adequado, da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), órgão do governo federal. O movimento estimula a adoção de práticas fundamentadas na ciência, a valorização da modalidade normal de parir e a redução de intervenções desnecessárias.
“Desmistificar essa questão do parto, de ser uma situação traumática […]. O principal seria a informação da população nesse sentido, também uma conscientização dos profissionais da assistência, e estímulo para seguir esses protocolos que são baseados em evidências e que trazem uma maior segurança no parto”, finaliza.
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