

Uma parceria entre a Escola Politécnica (Poli) da USP e a Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp) tem transformado a maneira como a automação é aplicada nos sistemas de água e esgoto do Estado. Desde 2019, o Plano de Integração de Sistemas Operacionais (Piso) busca padronizar processos e integrar tecnologias para aumentar a eficiência, reduzir custos e melhorar a qualidade dos serviços prestados à população.
Inicialmente aplicado na região metropolitana de São Paulo, o projeto já está em sua terceira fase de implementação. A proposta surgiu quando engenheiros da Sabesp participaram de um MBA promovido pela USP e perceberam a oportunidade de aplicar o conhecimento adquirido diretamente na empresa. O Piso, então, nasceu como uma iniciativa conjunta que une pesquisa acadêmica, desenvolvimento tecnológico e aplicação prática em larga escala.
Desafios

O desafio enfrentado era significativo: atender a uma companhia que opera em 15 grandes regionais distribuídas por todo o Estado, com realidades distintas e tecnologias diversas, acumuladas ao longo de mais de 25 anos. Segundo o professor Cícero Couto de Moraes, da Escola Politécnica da USP, o primeiro passo foi entender o grau de maturidade tecnológica de cada unidade e propor uma padronização que fosse aplicável tanto na capital quanto no interior.
“O objetivo era garantir uma padronização de processos e estabelecer um norte claro para a automação”, explica o professor. Essa uniformização permitiu a eliminação de soluções fragmentadas e regionais, facilitando a integração entre as áreas operacionais e garantindo uma gestão mais eficiente dos sistemas.
Além da eficiência operacional, o plano também foca na melhoria da qualidade da água e do esgoto, com impacto direto no meio ambiente. A automação dos processos permite, além de um controle mais rigoroso da distribuição e do tratamento, uma grande redução no consumo de energia e matéria-prima. Essas mudanças são guiadas por normas técnicas da ABNT e padrões internacionais, o que garante um alinhamento com as melhores práticas globais.
Parceria
De acordo com o professor, a atuação dos pesquisadores da USP foi essencial em todas as etapas. Foram produzidas mais de 6 mil páginas de documentação técnica, incluindo termos de referência, análises de tendências tecnológicas, normas de fornecimento e protocolos de testes de aceitação em fábrica e em campo. O objetivo era assegurar que todos os equipamentos e soluções estivessem alinhados, independentemente do fornecedor.
Outra frente importante do projeto destacada por Moraes foi a capacitação. Mais de 120 profissionais da Sabesp, entre técnicos e engenheiros, participaram de treinamentos presenciais e on-line com duração média de 300 horas por turma. “A gente gerou uma massa crítica. Todo mundo passou a falar a mesma linguagem. No fundo, o que fizemos foi despersonificar essas soluções em automação”, analisa o docente.
A integração entre os operadores das plantas e os pesquisadores também foi vista como um dos pontos altos do projeto. Segundo o especialista, houve uma aceitação muito positiva por parte das equipes operacionais da Sabesp, o que foi crucial para o sucesso das iniciativas propostas. Esse diálogo entre a universidade e a empresa permitiu soluções mais adequadas à realidade do campo.
Economia
O impacto financeiro também é notável. Conforme Moraes, em muitos casos os investimentos originalmente previstos foram reduzidos a um terço do valor inicial. Isso se deve tanto à simplificação proporcionada pelos novos equipamentos quanto à maior abertura para fornecedores que atendam aos novos padrões estabelecidos. A adoção dessas boas práticas fortaleceu a base para a expansão e sustentabilidade do plano.
Segundo o docente, o Piso está estruturado em três pilares: tecnológico, científico e administrativo-financeiro. O primeiro diz respeito à modernização dos equipamentos. O segundo envolve simulações e avaliações técnicas que ajudam a prever o comportamento dos sistemas em diversas condições operacionais. Já o terceiro trata da gestão dos projetos, do planejamento à manutenção, garantindo a eficiência dos investimentos.
Nova fase: Piso 3.0
Com o avanço para o Piso 3.0, Cícero Moraes afirma que a expectativa é aprofundar a integração entre os sistemas de automação e as áreas de tecnologia da informação da empresa. Isso envolve o uso de inteligência artificial, indicadores de performance e gestão baseada em dados. A digitalização dos ativos da Sabesp será fundamental nessa nova etapa, exigindo critérios rigorosos para o tratamento e a filtragem de grandes volumes de informação.
“A segurança cibernética é outro ponto que ganha destaque. Com o aumento da digitalização e da conectividade dos sistemas, proteger as redes e dados se torna essencial para garantir a continuidade e a confiabilidade dos serviços prestados. O projeto mostra como uma colaboração estratégica entre universidade e empresa pública pode gerar benefícios concretos para a sociedade”, finaliza o professor.
*Sob supervisão de Cinderela Caldeira
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