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Transporte marítimo terá nova regulamentação climática global: Brasil tem papel de destaque em aprovação histórica

Por Paula Carvalho Pereda, professora da Faculdade de Economia, Administração, Contabilidade e Atuária da USP, membro do grupo de pesquisa USPproClima

 25/04/2025 - Publicado há 11 meses
Paula Carvalho Pereda – Arquivo pessoal

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O setor de transporte marítimo é atualmente responsável por cerca de 3% das emissões globais de gases de efeito estufa (GEE) — o equivalente às emissões de países como Alemanha e Japão. A Organização Marítima Internacional (IMO, na sigla em inglês), que regula globalmente o setor, estabeleceu, em sua estratégia aprovada por consenso em 2023, metas ambiciosas de redução de emissões de gases de efeito estufa, buscando alcançar emissões líquidas zero até aproximadamente 2050, com os combustíveis alternativos desempenhando um papel importante nesse processo.

No dia 11 de abril de 2025, quase uma década após o Acordo de Paris, a IMO aprovou o primeiro marco regulatório internacional vinculante que determina a total descarbonização de um setor. Esse acordo histórico estabelece uma trajetória para a redução da intensidade de carbono da energia utilizada pela navegação internacional, a ser obrigatoriamente observada pelos navios. Caso as metas de redução de emissões não sejam cumpridas, a medida estabelece a cobrança de valor sobre as emissões de GEE excedentes – efetivamente constituindo o primeiro sistema internacional obrigatório de precificação de carbono.

Apesar do cenário geopolítico marcado por instabilidade e tensão, cerca de 80% dos Estados-membros da IMO em condições de voto aprovaram o acordo, reafirmando o poder do multilateralismo no avanço das metas climáticas globais e refletindo uma construção sólida baseada em anos de pesquisa e negociação.

O papel do Brasil

Para além da sempre brilhante condução diplomática brasileira (pelo Itamaraty), as discussões na IMO também contaram com a expertise técnica de alto nível da Marinha, da academia, da indústria e da sociedade civil. A regulamentação aprovada resulta da contribuição de diversos países, entre eles o Brasil. É importante destacar o papel da academia brasileira, que contribuiu para a compreensão dos impactos das diferentes propostas e auxiliou tecnicamente nas negociações.

Diversos estudos que coordenei, em parceria com a professora Andrea Lucchesi (EACH-USP) e o professor Jean-David Caprace (Coppe-UFRJ) e equipe, analisaram os potenciais impactos distributivos de um imposto uniforme sobre as emissões do transporte marítimo internacional, em comparação com outras políticas em discussão. Esses estudos, que integram modelagem de engenharia e modelos econômicos, indicam que um imposto sobre carbono — variando entre US$ 100 por tonelada em 2028 a US$ 250 em 2035 — poderia ter efeitos desproporcionais sobre economias emergentes, como a redução de exportações, aumento no preço de alimentos, queda no crescimento econômico e ampliação da pobreza.

As estimativas indicam que tal imposto poderia gerar uma redução de 0,68% a 1,38% nas exportações globais (equivalente a US$ 339 bilhões) em 2035. Além disso, o aumento de 0,53% nos preços de importação de alimentos poderia agravar a subnutrição global em até 0,2 ponto porcentual — o que representaria 1,9 milhão de pessoas a mais afetadas pela fome até 2035.

Nossos estudos também mostraram que haviam alternativas viáveis ao imposto sobre o carbono capazes de atingir as mesmas metas de redução de emissões sem prejudicar de forma desproporcional os países mais pobres e em desenvolvimento. As conclusões e recomendações desses estudos foram amplamente compartilhadas com formuladores de políticas e partes interessadas ao redor do mundo, ressaltando a importância de uma abordagem mais equilibrada, equitativa e custo-efetiva para a descarbonização do setor.

A nova regulamentação

A regulamentação aprovada determina que grandes embarcações que operam em águas internacionais deverão cumprir limites progressivamente mais rigorosos de Intensidade de GEE do Combustível (GFI, na sigla em inglês), a partir de 2028. O GFI será calculado com base no ciclo completo do combustível (well-to-wake), ou seja, abrangendo as emissões de toda a cadeia de produção e uso. A política combina a regulação de combustíveis com um mecanismo de débitos e créditos de emissão, o que traz previsibilidade e adaptabilidade frente a incertezas tecnológicas e aos diferentes interesses nacionais. Navios que não cumprirem as metas deverão adquirir unidades corretivas (remedial units) e pagar penalidades em dois níveis.

Os recursos, a serem recolhidos em fundo gerido pela IMO, serão revertidos em ações de apoio ao cumprimento da Estratégia: recompensas financeiras pela utilização de combustíveis sustentáveis e neutros em emissões de GEE; obras de adaptação da infraestrutura portuária; pesquisa e desenvolvimento de novas soluções tecnológicas; capacitação de profissionais do setor; e outras destinações. Estima-se que, inicialmente, o fundo será capaz de arrecadar montante da ordem de 10-13 bilhões de dólares por ano. Um sistema de certificação também avaliará os combustíveis com base em suas emissões de GEE ao longo de todo o ciclo de vida e apenas aqueles que cumprirem critérios rigorosos poderão ser elegíveis a recompensas ou créditos excedentes.

Este acordo histórico deve ser formalmente adotado em reunião extraordinária em outubro deste ano, mas a cooperação entre o governo e a academia brasileira mostra que ciência, diplomacia e compromisso com a justiça climática podem caminhar juntos. E o Brasil demonstrou ser referência nos estudos e negociações por uma descarbonização justa, equitativa e custo-efetiva.

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