Pesquisa mostra que o zika vírus destrói tumores cerebrais

Investigação aconteceu no laboratório e em animais e trouxe resultados promissores. Startup é criada para acelerar os estudos e tratamentos para pacientes com esta condição

 27/03/2025 - Publicado há 12 meses
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Foi a partir dos resultados de uma pesquisa que os cientistas do Centro de Estudos sobre o Genoma Humano e Células-Tronco (CEGH-CEL) da USP descobriram que o zika vírus poderia ter uma função importante: destruir tumores cerebrais.

De fevereiro de 2015 a novembro de 2016, o Brasil viveu uma das maiores emergências de saúde pública do País. Naquele momento, principalmente no Nordeste, os cientistas de todo mundo queriam entender por que havia tantos bebês nascendo com microcefalia. Não demorou muito para que a comunidade acadêmica encontrasse o motivo. Um arbovírus, conhecido como zika vírus, infectava gestantes, passava pela placenta e conseguia atingir células progenitoras neurais dos bebês ainda em formação, causando diminuição do perímetro cefálico.

À época, cientistas do CEGH-CEL investigaram porque somente uma pequena porcentagem de mães infectadas pelo zika teve filhos afetados. Para isso, a equipe foi ao Nordeste, entrevistou pacientes e colheu amostras de sangue. “O que mais nos impressionou foi a identificação de sete casos de gêmeos fraternos que eram discordantes. A mãe havia sido infectada e um bebê nasceu afetado e o outro não. Isso falava a favor de uma causa genética aumentando a suscetibilidade no gêmeo afetado, porque, se fosse uma causa ambiental, o esperado é que os dois gêmeos fossem igualmente afetados”, observa Mayana.

Com o material coletado, os cientistas produziram células neuroprogenitoras (NPC) desses bebês e as infectaram com o zika vírus, demonstrando uma destruição dessas células NPC pelo vírus.

“Em entrevistas com as mães, descobrimos também que a grande maioria tinha tido sintomas muito leves ou nenhum quando foi infectada pelo vírus. Ficou claro que o vírus tinha um direcionamento para o cérebro do bebê em formação e não causava nenhum problema nas mães grávidas”, explica Mayana Zatz, diretora do CEGH-CEL.

A partir dos resultados, o grupo liderado por Mayana, perguntou: será que esse mesmo vírus que destrói as células NPC dos bebês que nasceram com microcefalia poderia ter um potencial para destruir tumores cerebrais, que também são ricos em células NPC? “Foi assim que começamos no Centro do Genoma as pesquisas com linhagens celulares derivadas de tumores cerebrais”, explica Mayana. “Quando infectados com o zika vírus, os tumores eram destruídos.”

O projeto foi realizado em modelo animal, trouxe resultados promissores e incentivou os pesquisadores a criar a Vyro, uma startup que pretende acelerar possíveis tratamentos para pacientes com tumores cerebrais. “Estamos muito otimistas e caminhando a passos largos para transformar o zika vírus em um grande aliado para destruir tumores cerebrais em pacientes que têm um prognóstico muito ruim e que não contam com nenhuma terapia alternativa”, conclui.


Decodificando o DNA
A coluna Decodificando o DNA, com a professora Mayana Zatz, vai ao ar quinzenalmente, quarta-feira às 9h, na Rádio USP (São Paulo 93,7; Ribeirão Preto 107,9) e também no Youtube, com produção da Rádio USP,  Jornal da USP e TV USP.

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