Gramado sintético versus gramado natural: quais são os impactos nos atletas?

Tiago Lazzaretti analisa a discussão sobre a diferença entre os campos e dá dicas de como as lesões podem ser prevenidas

 18/03/2025 - Publicado há 1 ano
Fotomontagem que mostra um jogador de futebol, do qual só se veem as pernas e a bola, num estádio de futebol.
As principais lesões causadas pelo campo são as musculares e as entorses, especialmente do joelho e do pé – Fotomontagem Jornal da USP com imagens de: viarprodesign/Freepik; master1305/Freepik
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Recentemente, um grupo de jogadores de futebol de alto rendimento, como Neymar, Gabigol, Memphis Depay e Thiago Silva, divulgou a campanha “Não ao Gramado Sintético”. A retenção maior de calor e a qualidade desse estilo de campo estão entre as principais reclamações dos atletas. Na Série A do Brasileirão — principal campeonato nacional de futebol — três estádios contam com grama completamente fabricada: Allianz Parque (Palmeiras), Arena da Baixada (Athletico-PR) e Nilton Santos (Botafogo).

O professor  Tiago Lazzaretti Fernandes, do programa de Pós-graduação em Ciências do Sistema Músculoesquelético da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP) e médico do esporte no Instituto de Ortopedia e Traumatologia do Hospital das Clínicas (HC), explica que tanto o campo natural quanto o sintético possuem apoio de estudos científicos. Nesse debate, ambos os gramados podem contribuir para lesões nos atletas, mas também apresentam benefícios.

Homem branco, jovem, sorrindo, usando óculos
Tiago Lazzaretti Fernandes – Foto: Reprodução/FAPESP

A polêmica dos campos

Lazzaretti aponta que cada tipo de material tem suas particularidades. “Os campos naturais costumam ser um pouco mais pesados e, por conta disso, predispõem mais lesões musculares. Já os sintéticos são geralmente mais rápidos e também mais duros; existe o perigo do jogador travar o pé, por exemplo, e apresentar entorses.” O especialista avalia que a preferência do tipo de gramado influencia na qualidade da jogada, visto que a bola costuma quicar e correr mais, o que garante mais dinâmica aos jogos. “Essa é uma questão que é da magia do futebol, por isso tem muita discussão nos dias seguintes das partidas”, explica.

A falta de campos sintéticos no Brasil também foi apontada como causa da discussão. Tiago Lazzaretti Fernandes explica que jogadores de times que possuem estádios com esse tipo de terreno apresentam vantagem em relação à maioria dos outros atletas. Já aqueles que treinam em gramados naturais, por sua vez, precisam passar por um treinamento específico a outra condição ambiental: “Eles necessitam de uma adaptação, que nem quando o jogador vai jogar na altitude”.

A utilização de estádios e arenas para outras finalidades — e, portanto, o ganho de recursos para a manutenção do espaço e dos times — contribui para a escolha do gramado sintético pelas empresas. O professor lembra dos grandes shows em alta, que buscam espaços que tenham grande capacidade de pessoas. Além disso, o número de eventos, a colocação de tapumes de madeira e outras coberturas atrapalham a absorção da iluminação do sol pela grama natural e, consequentemente, o crescimento das plantas. “Vai ser somente para futebol? Vai ter um número adequado de jogos, que permita a grama natural crescer?”, questiona.

Como evitar lesões em cada tipo de gramado?

Lazzaretti afirma que as principais lesões causadas pelo campo são as musculares e as entorses, especialmente do joelho e do pé. “Se a gente for pensar nas lesões musculares, elas podem dar um edema ou uma ruptura e pode depender da gravidade. Pode ser um afastamento de uma semana até dois meses. Já uma entorse do joelho, a famosa lesão do ligamento cruzado anterior, pode-se ficar em torno de oito a dez meses afastada do gramado.” O especialista lembra do jogador Neymar, que chegou a ficar mais de um ano afastado após romper essa estrutura.

O professor destaca o uso de equipamentos adequados a cada tipo de campo, como chuteiras com travas adequadas durante a prática esportiva, e a preparação física como formas de prevenção. A manutenção dos gramados, de modo a evitar buracos, no natural, e desgaste, no sintético, também contribui para o bem-estar dos atletas e a melhora do desempenho nas partidas.


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