
Ao longo dos meses de março e abril, a equipe de pesquisadores da Cátedra Sérgio Henrique Ferreira, do Instituto de Estudos Avançados Polo Ribeirão Preto (IEA-RP) da USP, realizou uma série de formações com objetivo de capacitar profissionais das secretarias de educação para localizar, organizar, analisar e interpretar dados educacionais. Com apoio da B3 Social, foram realizados encontros presenciais em Ribeirão Preto (SP), Maceió (AL) e Campo Grande (MS).
Durante os encontros, os profissionais técnicos das secretarias são orientados a compreender a estrutura das principais fontes públicas de dados educacionais e seus métodos de coleta; aprender estratégias de organização, limpeza e tratamento dessas bases de dados utilizando diferentes ferramentas; aplicar conceitos estatísticos fundamentais – como desvio padrão, correlação linear, entre outras –, além de discutir sobre o uso da inteligência artificial como ferramenta de apoio no processo de análise e comunicação de resultados.
Desde 2023, quando ocorreu a primeira formação da cátedra com foco específico em análise de dados, o formato e o conteúdo dos encontros vêm sendo continuamente aprimorados com base nos feedbacks dos participantes e nas avaliações da equipe. Além da incorporação de novas ferramentas, a cátedra também vem desenvolvendo soluções digitais próprias para apoiar as equipes técnicas, como o Aplicativo Digital do Ensino Fundamental (Adef), que oferece visualizações interativas de dados como notas de língua portuguesa e matemática do Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb), taxas de aprovação, investimento por aluno, além de indicadores socioeconômicos como população, IDH, PIB e PIB per capita.
“Manter ativa essa frente de formações é essencial para fortalecer a cultura de dados nas Secretarias de Educação. Mais do que ensinar ferramentas, buscamos dar maior autonomia para que os profissionais transformem dados em decisões estratégicas e aplicáveis à sua realidade. Ao integrar recursos como o Adef e a inteligência artificial, e promover trocas entre municípios, estamos construindo uma rede colaborativa que potencializa decisões baseadas em evidências e impacta a gestão educacional nos territórios”, afirma a gerente de formação Larissa Porfirio.

Uso de inteligência artificial e aplicativos
Com objetivo de apoiar o processo de interpretação dos dados, as formações contam com um amplo conjunto de ferramentas, que auxiliam na visualização das informações, permitindo aos participantes concentrar esforços no uso estratégico das evidências.
Atualmente em desenvolvimento pela equipe da cátedra, o Adef possui duas versões, uma para análise educacional dos municípios e outra para análise de dados escolares. Na primeira, é possível utilizar a base histórica nacional de 2005 a 2023, reunindo diferentes indicadores educacionais e socioeconômicos, e rodar um amplo conjunto de análises, como visualização de desempenho entre municípios com perfil semelhante, evolução de indicadores e de trajetória, observação de desigualdades por regiões ou conjuntos específicos de municípios, entre outras.
Já a versão para análise de dados escolares permite que os usuários carreguem suas próprias bases de dados escolares, seguindo a orientação e modelos disponibilizados no aplicativo. A partir disso, o sistema gera automaticamente visualizações interativas.
Uma das aulas teóricas da formação é voltada especificamente para discussão sobre a inteligência artificial. Após apresentar uma contextualização histórica dos campos de pesquisa envolvidos em pelo menos três grandes ondas de desenvolvimento dessa tecnologia até chegar no avanço da inteligência artificial generativa, são abordadas diferentes possibilidades de uso dessas tecnologias no trabalho das equipes técnicas, principalmente através de metodologias de engenharia de prompts. Entre outras, está o apoio para compreensão de conceitos estatísticos e metodológicos das ferramentas de avaliação, síntese de documentos técnicos, formulação de hipóteses de análise e perguntas investigativas, estruturação de apresentações e comunicação de resultados para diferentes públicos, e até auxílio na elaboração de planos de ação a partir das análises.
“Também abordamos questões éticas e legais relacionadas ao uso dessas tecnologias, a importância da validação humana dos conteúdos gerados e do uso responsável das ferramentas em conformidade com a Lei Geral de Proteção de Dados”, detalhou Larissa. “Ao longo de todo o processo formativo, reforçamos que a inteligência artificial deve ser compreendida como uma ferramenta de apoio ao trabalho técnico, e não como substituta da análise crítica e da interpretação realizada pelos profissionais.”
Segundo ela, a partir dos conceitos apresentados, os participantes avançam para a análise exploratória de dados. Em atividades práticas, e relacionadas aos indicadores de seus próprios territórios, são orientados a identificar padrões, tendências e levantar hipóteses sobre fatores que podem explicar determinados resultados educacionais ou a desigualdade entre escolas. O processo formativo também conta com uma oficina de projetos, em que os técnicos se reúnem em grupos para um debate qualificado e produção de planos de ação.

Adaptações para demandas locais
Em cada território onde a formação acontece, a equipe da cátedra dialoga com os parceiros locais para identificar necessidades específicas do grupo. Na região de Ribeirão Preto, compareceram à formação no início de março representantes dos municípios de Franca, Colina e Santa Rita do Passa Quatro, além da equipe de projetos da Fundação Educandário.
O grupo compartilhou experiências sobre os desafios enfrentados para trabalhar com dados que já são coletados pelas secretarias, mas muitas vezes não são analisados de forma integrada. Alguns dos cursistas conseguiram identificar inconsistências entre as informações das bases de dados e a realidade de suas redes, o que gerou mobilização para atualização das bases em diferentes fontes.
No final de março, representantes da Secretaria Estadual de Educação de Alagoas e equipes técnicas e pedagógicas de 11 municípios alagoanos se reuniram para avançar nos conteúdos e discussões, uma vez que já haviam participado de edições anteriores da formação, com apoio da Universidade Federal de Alagoas (Ufal) e da Associação dos Municípios Alagoanos (AMA). As equipes discutiram limitações técnicas no processamento de bases de dados grandes e complexas, como os microdados do Saeb, e realizaram trocas sobre práticas e estratégias locais.
“Isso possibilitou aprofundar o trabalho com indicadores, métodos de análise e uso de aplicativos e plataformas. Além disso, pela primeira vez nesses territórios, a oficina de projetos foi realizada durante os encontros presenciais, o que nos permitiu observar mais claramente em quais etapas os profissionais encontram maiores dificuldades, sanar dúvidas e orientá-los no tratamento dos dados, até a escolha das ferramentas mais adequadas para cada etapa”, afirmou Larissa. De acordo com ela, a atividade estimulou o trabalho colaborativo e gerou momentos de aprendizado coletivo, com os cursistas apoiando uns aos outros.
Em meados de abril, foi a vez de reunir 13 municípios em Campo Grande, com apoio da Fundação de Apoio e Desenvolvimento à Educação Básica de Mato Grosso do Sul (Fadeb/MS). Três membros da fundação já haviam participado da apresentação inicial do Adef, realizada pela cátedra no início de 2026, e puderam auxiliar na organização da nova etapa da formação, que teve como foco a gestão escolar. O encontro presencial contou com a presença de duas secretárias de Educação e gerou diálogos sobre os desafios enfrentados por equipes gestoras.
























