
A Orientação à Queixa Escolar (OQE) é uma abordagem de enfrentamento às dificuldades e sofrimentos na vida escolar que, fundada no princípio da integralidade, considera as queixas escolares como emergentes de redes de relações, as quais costumam ter como participantes principais: aquele de quem há a queixa, sua escola e sua família. Estas redes, dinâmicas e inseridas em instituições, grupos e outros contextos sociais, têm uma história, um processo de constituição e desenvolvimento que é fundamental ser conhecido. Duas coletâneas complementares e que abordam a questão estão disponíveis para download gratuito no Portal de Livros Abertos da USP: Orientação à queixa escolar: novos temas e subsídios e Orientação à queixa escolar: práticas e novos territórios, ambas organizadas por Beatriz de Paula Souza, do Instituto de Psicologia (IP) da USP.
As obras surgem depois de 19 anos do lançamento de Orientação à queixa escolar, publicado em maio de 2007, que continha capítulos teóricos, informações e reflexões sobre temas relevantes, propostas de práticas e exemplos delas, como conta a organizadora na introdução da primeira coletânea. Segundo Beatriz, logo foi necessária nova edição, depois outra tiragem, até que pôde se tornar um e-book público e gratuito. “Esse livro segue atual e útil, no entanto a expansão e os desenvolvimentos da Orientação à Queixa Escolar (OQE) e sua comunidade, juntamente com mudanças e acontecimentos no mundo, no modo de vida e no planeta, trouxeram a necessidade de uma nova publicação”, declara na apresentação da primeira coletânea.
Segundo a organizadora, a listagem de temas relevantes não abordados antes ou que tiveram crescimentos tais que precisavam ser retomados, assim como a explosão de práticas em diferentes campos e lugares do Brasil, mostrou que um livro só ficaria enorme, por isso a necessidade do lançamento de duas obras, separadas por teoria e prática. “Um livro mais teórico, com fundamentos, ideias, informações, pesquisas e reflexões, que subsidiasse novos trabalhos dessa natureza, mas também oferecesse consistência, inspiração e caminhos para práticas. Outro, que também trouxesse isso tudo mas pela via da práxis, isto é, práticas conscientes e reflexivas, que unem teoria crítica e ação para transformar a realidade”, explica.
Novos temas e subsídios

A primeira obra inicia-se com dois capítulos introdutórios, procurando explicitar os fundamentos da abordagem OQE que dão sentido a sua estruturação e à escolha de conteúdos – e seus autores. A partir daí, os capítulos estão agrupados em unidades, como “Caminhos da esperança”, destacado pela organizadora, que apresenta o conceito e exemplos de educação integral, que traz em seu bojo a ideia de desenvolvimento integral.
Entre os capítulos, um deles traz um histórico crítico das escolas convencionais e outras possibilidades de educação “reais, amadurecidas no fogo e na alegria das experiências vividas, oferecendo consciência e inspiração”. O outro, segundo ela, convida, a partir de um resgate de dentro de nós, a refletir sobre a importância das experiências ao ar livre e em contato com a natureza para a educação e a saúde mental.
A unidade seguinte, “Sofrimentos extremos”, é um necessário mergulho no abismo de acontecimentos brutais nas escolas e fala de violências físicas que chegam por vezes a assassinatos, tentativas bem e malsucedidas de suicídio, automutilações e outros eventos afins nos espaços escolares (embora não só neles). “Os sofrimentos extremos no ambiente escolar trazem à tona a importância fundamental de nos aprofundarmos no que diz respeito a diferenças”, evidencia. A organizadora ainda comenta que as autoras, além de trazer dados e reflexões e desvelar sua constituição no cotidiano escolar e na sociedade, são propositivas tanto com relação a ações emergenciais como a posvenção e prevenção.
Em “Interseccionalidades” são abordados grupos identitários, trazendo questões de gênero na escola que têm consequências distintivas na escolarização de meninos e meninas, muitas vezes invisíveis por falta de conhecimento, e um mergulho no que afeta a comunidade LGBTQIA+ nesse contexto. A coletânea finaliza com “Modo de vida contemporâneo e queixas escolares”, tratando de fenômenos existentes quando do lançamento da primeira coletânea OQE, em 2007, mas incipientes à época em comparação às dimensões gigantescas que alcançaram atualmente, abordando temáticas como a digitalização da vida, a qual passou a ter grandes perigos antes inexistentes ou bem menores e têm constituído a subjetividade dos seres humanos, especialmente da geração em idade escolar, como aponta a organizadora.
Práticas e novos territórios

A segunda coletânea traz três capítulos introdutórios, contendo os fundamentos da OQE e um panorama do processo de desenvolvimento, expansão e diversificação de estudos, práticas e territórios nessa abordagem, desde suas origens até o momento atual, além da história do Grupo Interinstitucional Queixa Escolar (GIQE), que, há 22 anos, possibilita melhor compreender as práticas diversificadas.
Na sequência, a educação é o grande tema. Segundo a organizadora, é um campo de trabalho de psicólogos, que surge como efeito do amadurecimento da profissão nessa política pública, o qual possibilitou a aprovação de uma lei federal obrigando a presença de psicólogos escolares em todas as redes de educação do Brasil, em equipes multidisciplinares. “Ampliaram-se as experiências e a necessidade de divulgá-las, para que subsidiem, inspirem e instrumentalizem quem está nesse campo”, afirma. Ela informa que os capítulos trazem trabalhos vigorosos e consistentes, no espírito desta lei, e indicam como concepções, fundamentos e princípios práticos da OQE contribuem para sua realização em territórios tão distintos (mas também similares), como a megalópole paulistana e Santiago, uma cidade de médio-pequeno porte do Rio Grande do Sul.
Há também capítulos sobre saúde mental, nos âmbitos das redes públicas e da clínica privada. Como ressalta a organizadora, a individualização e medicalização das queixas escolares, destituídas de seu contexto institucional, social e político, destacam-se como tema emergente. A obra traz ainda contribuições da OQE para construir outros “e melhores” caminhos ético-políticos, ao longo dos quais “são desconstruídos diagnósticos equivocados e prejudiciais e são proporcionadas transformações que transcendem os indivíduos atendidos”. Por fim, o capítulo sobre atendimentos OQE on-line contém informações, reflexões, críticas e instrumental prático para esse modo de trabalhar
Assistência social também é assunto do livro. “Elas ocupam espaço significativo nos atendimentos aos que acorrem ou são acolhidos por esta política pública pois, por exemplo, afetam as concessões de benefícios e a possibilidade de crianças e adolescentes altamente vulneráveis ocuparem lugares na escola que lhes favoreçam reverter efeitos prejudiciais de histórias de profunda exclusão e sofrimento.” Já o último conjunto trata de contribuições da OQE para atuação no ensino duperior: atendimento a estudantes e formação de psicólogos.
Leia na íntegra os dois volumes Orientação à queixa escolar: novos temas e subsídios e Orientação à queixa escolar: práticas e novos territórios.























