
A saúde pública brasileira sofre diariamente com problemáticas relacionadas ao quesito burocrático, como filas extensas, documentos que demoram para serem emitidos e diversos protocolos. O caso do atendimento às populações indígenas não é diferente e novos desafios são inseridos como um sistema unificado que atende regiões com diferentes culturas e o próprio preconceito contra os povos originários.
Essa burocracia se torna responsável por moldar e limitar o atendimento à saúde indígena, dificultando a execução de consultas e cuidados básicos. Tudo isso é objeto do estudo Diálogos necessários para a transformação da política de saúde indígena, publicado no periódico Interface – Comunicação, Saúde, Educação.

Os agentes responsáveis pelo Sistema Unificado de Saúde (SUS) apresentam dificuldades de se comunicarem entre si e atingirem objetivos em comum, é o que constata Natália Farias, enfermeira formada pela Escola de Enfermagem da USP e doutoranda da Faculdade de Saúde Pública da USP.
Subdivisões no atendimento
A Secretaria de Saúde Indígena (SESAI) é coordenadora do Subsistema de Atenção à Saúde Indígena (SasiSUS), divisão do SUS responsável pela organização do atendimento aos povos indígenas no território nacional. O SasiSUS segue as normativas estabelecidas pela Política Nacional de Atenção à Saúde dos Povos Indígenas (PNASPI), vigente desde 2002 e que passa por um processo de reformulação para atender demandas ainda não atendidas.
Operacionalmente, o SasiSUS se espalha pelo território nacional através de 34 Distritos Sanitários Especiais Indígenas (DSEI), que são as unidades de atuação. Os DSEIs são responsáveis pelo gerenciamento das Equipes Multidisciplinares de Saúde Indígena (EMSI), formadas por médicos, enfermeiros e profissionais especialistas, como dentistas e psicólogos.
Para aprimorar o atendimento às comunidades, integrar e valorizar as práticas tradicionais dos especialistas indígenas, a SESAI insere conhecimentos diversos dos povos originários em seus processos. A prática é uma tentativa de recuperar os danos causados pelos anos de violência e opressão às populações.Problemáticas da burocracia
Os desafios mais comuns enfrentados pela saúde indígena são relacionados ao atendimento básico. A atenção de nível primário, com perspectiva de prevenção e controle de doenças crônicas, como diabetes, pressão alta, campanhas de saneamento e vacinação, são as prioridades de atendimento no território. Casos mais complexos comumente são transferidos para centros urbanos de redes referenciadas.
Natália aponta que a falta de diálogo entre os agentes das subdivisões é uma das maiores problemáticas para o atendimento, que se reproduz pelo território nacional. Problemas crônicos do SUS, como falta de vagas, especialistas e deslocamento também afetam os indígenas, ampliado pelo preconceito e desrespeito às práticas originárias.
Propostas de melhorias no processo também são um desafio à parte, visto que a qualidade pode ser interpretada por perspectivas diferentes, tanto pelos agentes quanto pelo público. A falta de interesse político em reverter as dificuldades sofridas pelos diferentes povos também dificulta a captação de recursos para aprimorar o atendimento.
*Sob supervisão de Márcia Avanza
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