Em nome de Deus

Marília Fiorillo comenta a longa espera por justiça e a coragem das crianças de Uganda, que resistem com livros

 21/11/2025 - Publicado há 4 meses     Atualizado: 24/11/2025 às 8:16

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Um dos privilégios, para o ouvinte da Radio USP, é ser informado sobre assuntos sérios (e graves), mas que não constam das manchetes da mídia nacional. Abordaremos hoje o tema livro versus armas, exemplificando com as crianças de Uganda. Enquanto a justiça internacional tropeça na sua lentidão, a verdadeira resistência floresce nas sombras: crianças que, com livros nas mãos, convertem a fuga diária em um ato silencioso de desafio e esperança.

No início deste mês, em 7 de novembro de 2025, a ICC (International Criminal Court – Tribunal Penal Internacional) confirmou, finalmente(!!!), acusações de crimes de guerra e crimes contra a humanidade contra o genocida ugandês Joseph Kony. Considerando-se que o Tribunal Penal Internacional emitiu um mandado de prisão contra ele há quase duas décadas, é caso de se perguntar: só agora?

Das desmoralizadas instituições supranacionais, o Tribunal Penal Internacional é a mais criticada, por suas limitações e lentidão. Não foi ele que levou a julgamento os criminosos sérvios da guerra dos Balcãs, por exemplo, mas sim um tribunal ad hoc da ONU. Joseph Kony é o facínora que serviu de inspiração a muitos filmes sobre crianças sequestradas e transformadas em combatentes suicidas ou escravos sexuais.

O peculiar é que justifica suas atrocidades em nome de Deus, o Deus da Bíblia (leiam o Deuteronômio e está explicado). Considera-se a reencarnação do Espírito Santo, enviado ao mundo para governar através dos Dez Mandamentos. Sua milícia se intitula LRA (Lord ‘s Resistance Army – Exército dos Combatentes de Deus).

Há 39 acusações formalizadas contra ele (assassinato, destruição e saque de vilas, tortura, escravidão sexual e estupro, só entre 2002-2005). Estima-se que o profeta bíblico Joseph Kony assassinou cerca de 100 mil pessoas, sequestrou outras 100 mil crianças (a partir de 5 anos de idade) e provocou o deslocamento forçado de 2,5 milhões de ugandeses, mas permanece foragido (provavelmente na República Centro-Africana). Não há operações em curso para capturá-lo, e o julgamento só se daria com a presença do réu.

Há 17 anos publiquei um curto texto sobre a Lord ‘s Resistance Army, o facínora em pele de profeta e as crianças de Uganda, que migravam toda noite de seus vilarejos para não serem capturadas, e ler. Sim. Os livros eram sua arma, a única de que dispunham para não serem forçadas a empunhar um fuzil Kalashnikov.


Conflito e Diálogo
A coluna Conflito e Diálogo, com a professora Marília Fiorillo, vai ao ar quinzenalmente sexta-feira às 8h, na Rádio USP (São Paulo 93,7; Ribeirão Preto 107,9 ) e também no Youtube, com produção da Rádio USP, Jornal da USP e TV USP.

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