Paranoia é tema da nova mostra do Cinema da USP

Até o próximo dia 21, serão exibidos 16 filmes que falam sobre conspirações, medos e manias

 02/09/2025 - Publicado há 8 meses
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Desenho abstrato.

Banner de divulgação da mostra Paranoia, que o Cinema da USP Paulo Emilio (Cinusp) apresenta até o dia 21 deste mês

Quando se está sozinho em casa, entre ruídos estranhos, é possível sentir uma incômoda sensação de que alguém está observando. Os 16 filmes exibidos na mostra Paranoia, do Cinema da USP Paulo Emilio (Cinusp), podem dar aos espectadores essa mesma sensação. Inaugurada na segunda-feira passada, dia 1º, a mostra traz produções de diferentes épocas e países, sempre com histórias de delírios, manias e obstinações. A programação completa do evento – que fica em cartaz até o dia 21 deste mês – está disponível no site do Cinusp. A entrada é grátis.

A ideia do tema da mostra surgiu quando um dos integrantes da equipe de curadores do Cinusp assistiu a À Meia Luz (Gaslight, em inglês), que é exibido em Paranoia. O filme, produzido em 1944 e dirigido por George Cukor, conta a história da recém-casada Paula (Ingrid Bergman), que acaba de se mudar para um casarão com seu marido (Charles Boyer). Pouco tempo depois, ela começa a notar coisas estranhas acontecendo em sua casa, como a mudança sazonal da intensidade da luz, controlada pelo gás, numa época pré-eletricidade. A personagem, então, começa a questionar sua própria sanidade. Essa narrativa deu origem ao termo popular gaslighting: quando ocorre manipulação psicológica por parte de um agressor, ao distorcer a realidade e a memória da vítima.

Um homem com chapéu, gravata e paletó ao lado de um quadro com a figura de uma mulher.

Cena do filme Cidadão Klein – Foto: Divulgação/Cinusp

Francesco Felix, um dos curadores da mostra, destaca que a temática de Paranoia se faz relevante hoje, em especial a paranoia política. “Ela engloba a questão dos governos autoritários, que escondem informações do povo e, quando as pessoas buscam respostas, acabam sendo perseguidas”, afirma. Por isso, um dos longas apresentados é Cidadão Klein (1976), do diretor Joseph Losey. Nele, o negociador de arte Robert Klein começa a comercializar arte com judeus que desejavam fugir da França durante a ocupação nazista em Paris, na Segunda Guerra Mundial. Klein é confundido com outro homem de mesmo nome, um judeu procurado pelas autoridades nazistas, mas não consegue provar sua verdadeira identidade.

Como parte da Semana Franco-Uspiana, em associação com o Cinusp, Cidadão Klein será tema de um debate no dia 16 de setembro, na sala do Cinusp, no Centro Cultural Camargo Guarnieri, após a sessão das 19 horas. A convidada para o evento é a professora Denise Rollemberg, da Universidade Federal Fluminense (UFF), onde leciona História Contemporânea.

Uma mulher com as mãos na cabeça, gritando.

Cena do filme Excitação – Foto: Divulgação/Cinusp

Outro filme exibido em Paranoia é o brasileiro Excitação (1976), dirigido por Jean Garret. Produzido há quase 50 anos, o longa-metragem foi restaurado recentemente. Ele conta a história de Helena e Renato, um casal que decide se mudar da cidade para a praia em busca de paz, mas o que acontece é diferente do previsto. Helena começa a ter visões dos eletrodomésticos da casa se movendo sozinhos, o que a faz pensar que está enlouquecendo. “Ao explicar suas visões ao marido, ele fala que nada estava acontecendo, mas nós sabemos que estava, sim”, conta Felix. “De início, o público acredita se tratar de um filme sobre fantasmas, depois acusa o marido de estar mentindo e planejando a paranoia para ficar com a amante. É uma história muito dinâmica.”

Desenho de duas meninas.

Cena do filme Perfect Blue – Foto: Divulgação/Cinusp

A mostra conta também com obras populares, como Donnie Darko (2001), com Drew Barrymore e Seth Rogen. “Queremos causar um sentimento de desconfiança em relação aos discursos das massas, para que não acreditem em tudo o que veem. Mas, ao mesmo tempo, queremos mostrar como nem todos os personagens nesses filmes estão certos sobre suas convicções. Tem algumas paranoias que são fundamentadas e outras que não são”, fala Felix.

Um filme de cunho político presente na mostra é JFK: a Pergunta Que Não Quer Calar (1991), apresentado pelo Cinusp em 4K. Dirigido por Oliver Stone, o drama narra a trajetória do promotor Jim Garrison, que decide investigar o assassinato do ex-presidente estadunidense John Keneddy. Convencido de que o crime não foi executado por apenas uma pessoa, como havia sido decidido na Comissão Warren, Garrison arrisca sua carreira e família para comprovar a existência de uma conspiração política.

Também em 4K é o anime Perfect Blue (1997), do diretor Satoshi Kon. Considerado por Felix o mais popular da mostra, ele conta a história de uma cantora pop japonesa (Mima Kirigoe), que decide se tornar atriz. Seu primeiro papel é em uma série televisiva de suspense, na qual sua personagem é sequestrada. O que era para ser o início de uma carreira de sucesso dá errado, Mima fica traumatizada pela cena de sequestro e começa a não saber distinguir a realidade da ficção. Nesse contexto, seus colegas de trabalho começam a ser assassinados, e ela se torna a principal suspeita.

O suspense Uma Lagartixa num Corpo de Mulher (1971), dirigido por Lucio Fulgi, é outro drama psicológico. Após ser acusada de matar seu vizinho, a filha de um político britânico começa a duvidar de si mesma: será que ela cometeu mesmo o crime? Em sessões com um psicanalista, descobre ter síndrome de dupla personalidade e começa a temer pelo seu próprio bem-estar.

A mostra Paranoia, do Cinema da USP Paulo Emilio (Cinusp), está em cartaz até o dia 21 deste mês nas salas do Cinusp, instaladas no Centro Cultural Camargo Guarnieri (Rua do Anfiteatro, 109, Cidade Universitária, em São Paulo) e no Centro MariAntonia (Rua Maria Antonia, 294, Vila Buarque, em São Paulo, próximo às estações Santa Cecília e Higienópolis-Mackenzie do metrô). Entrada grátis. A programação completa da mostra e mais informações estão disponíveis no site do Cinusp.

Duas pessoas nuas, sentadas atrás de uma mureta vazada.

Cena do filme Uma Lagartixa num Corpo de Mulher – Foto: Divulgação/Cinusp

* Estagiária sob supervisão de Marcello Rollemberg e Roberto C. G. Castro


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