Reflexões anestesiadas

Jurandir Renovato é jornalista e editor executivo da “Revista USP”

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Jurandir Renovato – Foto: Cecília Bastos / USP Imagens
Lá estava eu na sala de espera do dentista procurando alguma coisa para ler e só o que tinha na mesinha de centro eram revistas de equipamento odontológico, todas com etiqueta de assinante, provavelmente o próprio doutor dentista, como se alguém, que não fosse ele ou seus colegas de profissão, pudesse se interessar por um motor de implante x-smart plus ou um fotopolimerizador de última geração. Em sala de espera de consultório de dentista ninguém conversa e eu sempre esqueço de trazer algo decente para ler.

Duas poltronas à minha direita, um rapaz prevenido detinha-se com o seu próprio livro. Que inveja! Devia ser uma obra-prima, porque ele grifava tudo, linha por linha, com uma dessas canetas marca-texto amarelas, às vezes pulando uma palavra ou duas. As que importavam, vai saber. O que eu queria mesmo era descobrir logo que maravilha de livro era aquele. Coisa mais irritante ser curioso. Por sorte, ele foi chamado antes de mim e quando se levantou eu pude ver a capa.

Fiquei pensando naquele rapaz mesmo depois de sair do dentista, ainda sob o efeito da anestesia. Ele não estava lendo, estava estudando. É curiosa a relação que mantemos com os livros. Aqui neste país, por exemplo, de poucos leitores, é comum as pessoas se interessarem mais por aquele tipo de livro que, segundo julgam, pode lhes trazer alguma espécie de conhecimento ou informação útil.

É só consultar uma lista dos mais vendidos para perceber que a preferência nacional recai sobre livros de não ficção. História, religião, saúde, autoajuda. Com a exceção apenas de um certo tipo de romance juvenil – estrangeiro, claro –, é como se o minguado público leitor brasileiro não estivesse disposto a perder seu valioso tempo com uma leitura que não lhe trouxesse algo de proveitoso.

O leitor brasileiro é pragmático. E o editor segue seus passos. Pergunte para um editor qualquer e ele vai lamuriar: literatura no Brasil não vende. Pergunte para um leitor qualquer e ele vai protestar: literatura é chato. Ora, parece que há um contrassenso aí. Como bem afirmou Isaac Bashevis Singer ao receber o Prêmio Nobel, literatura é, acima de tudo, entretenimento, e entretenimento, até onde sei, é o oposto do que é chato.

A literatura pode até fazer você refletir sobre diversas coisas, pôr formigas na sua cabeça, mas ela nunca vai te amolar com nenhuma regra de três ou equação do terceiro grau. Não é, necessariamente, função dela te ensinar nada. Ela quer entreter, isto é, divertir, do latim divertere, virar para o lado, no sentido de desviar-se das preocupações.

Quando eventualmente ensina, tudo bem, ninguém vai morrer por isso. O crítico Roland Barthes diz que a literatura é essencial, entre outras coisas, porque todas as ciências estão contidas nela. Assim, num romance como Robinson Crusoé, por exemplo, “há um saber histórico, geográfico, social, técnico, botânico, antropológico”. Ou seja, enquanto acompanha as peripécias do herói você de quebra aprende a evitar uma planta venenosa, construir uma casa na árvore ou acender um fogo esfregando dois pedaços de pau.

O filósofo Jean-Paul Sartre, por outro lado, no ensaio autobiográfico As palavras confessa sempre ter pulado os trechos descritivos do Júlio Verne que devorava na infância. Ele só queria saber da aventura pura e simples.

Duas poltronas à minha direita, um rapaz prevenido detinha-se com o seu próprio livro. Que inveja! Devia ser uma obra-prima, porque ele grifava tudo, linha por linha, com uma dessas canetas marca-texto amarelas, às vezes pulando uma palavra ou duas. As que importavam, vai saber.

Numa dicotomia besta, então, vamos supor que existam dois tipos de leitor, os “barthesianos” e os “sartrianos”. Os primeiros, mais objetivos, leem para aprender alguma coisa. São leitores com segundas intenções, vamos dizer assim. Entre eles temos: os estudiosos (como nosso amigo da clínica), que estão sempre sentados, de preferência diante duma mesa e com um marca-texto ou lápis na mão; os especializados, interessados apenas por determinada área do conhecimento, como a coloproctologia ou a hermenêutica talmúdica; por fim, os top de linha dos barthesianos, os calculistas, que só abrem um livro antes de prestar um concurso, defender uma tese ou dar uma palestra.

Em segundo lugar vêm os leitores sartrianos. Com uma disposição bem menos utilitária que a dos barthesianos, só leem por uma necessidade interna e pessoal. Os mais radicais deles são os compulsivos, que engolem qualquer gororoba escrita numa língua que conheçam; até ata de reunião de condomínio vale, é quase uma patologia. Nessa categoria também temos os influenciáveis, em cujas mãos ou bolsas sempre há um livro que foi indicado, via de regra, pelo caderno de cultura de um jornal famoso. Por último, os criteriosos, que costumam separar o joio do trigo antes de entrar numa livraria. Às vezes saem da livraria com uma sacola cheia de joio fresquinho, mas só às vezes.

Em ambos existe um grupo intermediário, dos seletivos, os quais se restringem a ler apenas um certo tipo de material impresso, como guias de viagem ou panfletos de supermercado, para os barthesianos, e quadrinhos de super-heróis ou revistas de mulher/homem pelada(o), para os sartrianos. Ainda há um outro grupo bem curioso, dos necessitados, que sempre precisam (barthesianos) ou querem (sartrianos) ler determinado livro, mas nunca têm tempo (barthesianos) ou dinheiro (sartrianos) para fazê-lo.

O leitor perfeito, no meu modo de ver, teria um pouco de cada um deles, inclusive dinheiro e tempo, e sempre seria movido pelo prazer. (E aqui, por um momento, fica reverberando a voz de Italo Calvino ao definir clássico como aquele livro que só pode ser lido por amor, desinteressadamente, e não porque serve para alguma coisa.) Em que pese a legítima e necessária busca de identidade, sobretudo em períodos de crise como este em que vivemos, seja por meio do conhecimento de nossa história ou do autoconhecimento supostamente oferecido pela autoajuda, a leitura não pode se limitar apenas a ser um meio para se alcançar um fim, por mais nobre que seja este último. A boa e valiosa leitura é sempre um fim em si mesmo. E ponto.

Um bom caminho para se fomentar esse tipo de leitor são as literaturas ditas (redundantemente?) de entretenimento, a saber: o romance policial, de aventura, de ficção científica, de suspense etc. Para isso, no entanto, é preciso haver espaço e mercado para elas. Ter editores que as acolham e autores que as produzam em quantidade e qualidade. O problema é que no Brasil, como já apontou o poeta José Paulo Paes, todo mundo sonha ser Gustave Flaubert, ninguém quer ser Agatha Christie.

É uma pena. Principalmente para aqueles que, como eu, de vez em quando frequentam as antessalas de consultórios odontológicos. Por falar nisso, já ia me esquecendo de dizer o título do livro que o rapaz lia com tanto empenho barthesiano lá no começo. Era o Brida, do Paulo Coelho. (Só foi lembrar disso, o meu dente voltou a doer.)

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