Quando dizer a verdade é mentir

Por Paulo Martins, professor e vice-diretor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP

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Paulo Martins – Foto: Cicero Wandemberg
Inúmeras vezes, nos últimos 15 meses, ocupei este espaço a fim de discutir medidas, posturas, posições do governo federal sob o comando de Jair Messias Bolsonaro. E minha conclusão é: sua visão de mundo e de realidade é débil. A contrariedade a fatos inquestionáveis, suas posições pouco republicanas e democráticas, seu posicionamento internacional frágil, suas políticas públicas sofríveis na saúde, educação e meio ambiente, seus preconceitos de ordem variada são temas exemplares da ineficácia política do governo federal que fazem com que a avaliação sobre Bolsonaro despenque a níveis jamais vistos – a última pesquisa XP aponta para um número importante: 73% entre aqueles que julgam seu governo regular, ruim e péssimo.

Ocorre, entretanto, que todas essas ações ineficazes, para dizer o mínimo, no que diz respeito à pandemia, à defesa de manifestações autoritárias, ao seu posicionamento constrangedor na política externa, ao fraquíssimo ENEM, à defesa do uso da cloroquina e às sistemáticas queimadas na Amazônia, por exemplo, vêm seguidas de um discurso que transforma em algoz quem o critica e em salvador (um verdadeiro sóter[1]) quem o elogia.

Essa inversão discursiva, a transformação do discurso reconhecidamente negativo em eficazmente positivo é traço desse governo e comum entre seus apoiadores. Honestamente, essa prática é particular de governos autoritários. Porém, como os números não mentem, tal recurso ou é revisado por sua equipe de comunicação, ou está fadado ao limbo como lúmpen moral. Essa inversão do negativo em positivo ou o positivo em negativo é um recurso retórico conhecido pelo menos desde os antigos na Grécia com Aristóteles e em Roma com Cícero e outros.

Entre os três tipos de discurso seguindo a retórica temos: a) o judiciário, que se preocupa com o fato passado e serve para defender ou acusar algo que já aconteceu; b) o deliberativo, que se preocupa com o fato futuro uma vez que cabe a esse gênero aconselhar ou desaconselhar sobre algo que irá ou não ser realizado; e c) o demonstrativo, que se ocupa do tempo presente e sua função é elogiar ou vituperar alguém ou algo. É sobre este último que gostaria de falar.

O autor anônimo da Retórica a Herênio (séc. I a.C.) afirma:

“O elogio, então, pode vir das coisas externas, do corpo e do ânimo. Coisas externas são aquelas que podem acontecer por obra do acaso ou da fortuna, favorável ou adversa: ascendência, educação, riqueza, poder, glória, cidadania, amizades, enfim, coisas dessa ordem e seus contrários. Ao corpo pertence o que a natureza lhe atribuiu de vantajoso ou desvantajoso: rapidez, força, beleza, saúde e seus contrários. Dizem respeito ao ânimo as coisas que comportam nossa deliberação e reflexão: prudência, justiça, coragem, modéstia, e seus contrários”[2].

O discurso demonstrativo segue uma série de categorias sobre as quais se deve elogiar ou vituperar alguém. Em outras palavras, tudo o que devemos elogiar serve para desqualificar, de sorte que Bolsonaro deliberadamente usa o desqualificável para qualificar e qualificável para desqualificar. Transforma, pois, o vitupério em elogio e o elogio em vitupério. Se falasse a verdade, qualquer um poderia ver que ele é um “atleta” ou que sua “educação” é primorosa, suas “amizades” são ilibadas, a saúde é de touro. Entretanto, na última série da tópica que se atém naquilo a que julgamos ou refletimos, é o que salta aos olhos: quem diria que o presidente não é prudente, justo ou modesto? Talvez apenas 73% da população.

Assim, segundo o mandatário, fazer manifestações de rua a favor de um governo autoritário, fundado num “novo” AI-5, é expressão lídima de liberdade de expressão, enquanto sair às ruas em nome da democracia e dos direitos dos pretos é expressão de terrorismo que deve ser reprimida pelas forças de segurança do Estado. As queimadas na Amazônia são uma ilusão, já que os satélites estão sob controle de comunistas que manipulam os dados científicos. E não há como pensar que tenhamos uma sociedade sem armas, afinal só grupos paramilitares são capazes de conter a violência. O crime histórico da escravidão foi ótimo para os pretos no Brasil, jamais para os brancos.

Ao fim e ao cabo, Jair Bolsonaro, quiçá com ajuda do “gabinete do mal”, sentindo muita falta da pasta da “cultura” do Goebbels à brasileira, ao usar a linguagem como conversão daquilo que é o contra, acaba por entregar o governo de volta ao povo e, como costuma acontecer, acaba desvelando o imbróglio. No mais, verdade é verdade. E o resto é uma questão de tempo. Que chegue logo!

 

[1] Em grego σώτερ (sóter) significa salvador. Na dinastia ptolomaica do Egito temos Ptolomeu, sóter.

[2] Anônimo, Retórica a Herênio, III.10, tradução de Adriana Seabra e Ana Paula Celestino, São Paulo, Hedra, 2005, p. 161.

 

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