Os desafios para a USP

Por Mauro Bertotti, professor do Instituto de Química da USP

 Publicado: 18/11/2021
Foto: Divulgação / IQ-USP

 

 

A missão da USP é muito clara: criar conhecimentos e formar líderes criativos com potencial para transformar a sociedade por meio de atuação regional e global. Desde sua fundação, em 1934, a visão é de que tais atribuições só podem ser plenamente desenvolvidas em um ambiente acadêmico fortemente direcionado à produção de conhecimento. A USP é uma universidade de pesquisa, opera na vanguarda intelectual e contribui para o Brasil manter um desenvolvimento sustentável, compatível com seu desejo de progresso, redução de desigualdades e bem-estar da população.

Uma característica das universidades de pesquisa é a formação de alunos em um ambiente que valoriza a criatividade, o pensamento crítico, a visão global e comunitária e a consciência cultural. É neste espaço, não baseado na simples transmissão de conhecimentos, que se formam líderes, cidadãos com visão do mundo e que compreendem a importância de um aprendizado continuado. Alunos forjados no ambiente da pesquisa não têm aversão ao risco e receio de fazer questionamentos, possuem pensamento criativo e original, e não se limitam a aprender mecanicamente. Tais alunos procuram perguntas, em vez de respostas superficiais e padronizadas.

No contexto acima apresentado, seguem algumas reflexões sobre temas de interesse contemporâneo da universidade:

Em um mundo no qual o conceito de profissão tem cada vez menor relevância, o modelo atual de graduação não deveria ser completamente revisto e mais associado à pós-graduação? Em vez de já ingressar em cursos específicos, os alunos poderiam ter contato com disciplinas mais abrangentes e interdisciplinares nos anos iniciais, circular pelas unidades e compreender a amplitude da instituição universitária.

Este modelo seria útil para os alunos conhecerem melhor a USP antes de fazerem opções definitivas para a trajetória acadêmica. Disciplinas mais específicas cursadas nos anos finais, integradas à pós-graduação e conduzidas no ambiente da produção de conhecimentos levariam à formação de indivíduos com espírito crítico e inquiridor. A criação de sólido vínculo entre graduação e pós-graduação enriqueceria a pesquisa, sinalizando que a produção de conhecimento é missão central da USP. As salas de aula e os laboratórios também deveriam ser reformatados, pois o aluno que ingressa hoje na universidade processa as informações e conhecimentos de modo muito diferente, empregando novas plataformas de aprendizagem. O oferecimento de disciplinas em inglês, no caso de algumas mais específicas, deveria ser obrigatório, pois somente assim a instituição pode atingir algum nível de internacionalização no ensino.

Um novo modelo de graduação exigiria um processo de seleção completamente modificado, com a criação de ferramentas não tradicionais que permitam identificar os candidatos vocacionados e mais capacitados para interagir em um ambiente de pesquisa, independentemente do estrato social. Habilidades associadas ao pensamento crítico e à resolução de problemas poderiam ser mais valorizadas em detrimento de conhecimentos específicos ou que requeiram memorização. Levando em consideração que o ensino médio está em vias de modificações estruturais, não faz sentido manter, no vestibular, programas de disciplinas e provas pautados em um formato que deixará de existir nos próximos anos.

A busca de conhecimento desinteressado que contribui para explicar o mundo que nos cerca é o papel das ciências da natureza e da matemática, enquanto as humanidades e as artes colocam o passado e o presente em contexto para que possamos vislumbrar o futuro. No atual cenário, em que as barreiras entre as disciplinas estão se desestruturando, a criação de redes de interlocução é imperiosa se a USP pretende assumir um papel de protagonismo ainda maior no panorama internacional. Como a pesquisa na fronteira do conhecimento é muito cara, projetos temáticos envolvendo grandes grupos deverão ser valorizados. O intercâmbio de pesquisadores, incluindo os alunos de graduação e pós-graduação, em nível nacional e internacional, precisa ser fortemente estimulado. A crescente ampliação de programas de pós-doutoramento com recursos de agências de fomento e da própria Universidade é condição essencial para melhorar as pesquisas realizadas na Universidade.

Finalmente, cumpre ressaltar que a revolução tecnológica está pautada na ciência e na inovação, e a USP, como vetor de desenvolvimento, deve assumir um papel de destaque neste processo.

Além do ensino e da pesquisa, a irradiação de conhecimentos e da cultura para a sociedade completa o tripé sobre o qual a USP se sustenta. A cultura promovida pela Universidade contribui para a compreensão da sociedade, nossos valores, linguagens, experiências e desafios atuais. Entretanto, qual é o melhor veículo de comunicação para a USP disseminar seus conceitos sobre mudanças climáticas, energia renovável, vacinação, “cancelamentos” e a crescente polarização de opiniões sobre diversos temas? Como desenvolver novas ferramentas para a apreciação de lugares, histórias e objetos do passado e do presente de forma a tornar o conhecimento científico, as humanidades e as artes mais acessíveis à comunidade? É possível formular políticas públicas que sirvam à sociedade e, ao mesmo tempo, sejam objetos de pesquisa e reflexão da Universidade?

Apesar de a constituição conferir autonomia acadêmica, administrativa e financeira às universidades públicas paulistas, as instituições estão presas a um arcabouço legal que inviabiliza o pleno exercício desta suposta independência. O engessamento resultante do excesso de rigidez e de um modelo burocrático impede a criação de programas que tornariam a USP mais competitiva em relação a suas congêneres do exterior, as quais têm ampla liberdade para captação e uso de recursos, contratação de pessoal e proposição de políticas institucionais inovadoras. Recentemente, a Assembleia Legislativa criou uma CPI para investigar possíveis irregularidades nas universidades públicas paulistas. Tal ambiente de desconfiança é contrastante com a ideia de autonomia e apenas comprova que a universidade ainda não conseguiu demonstrar ser uma instituição fundamental para a sociedade e que deve ter liberdade para exercer seu papel de forma responsável. Desta forma, a defesa da autonomia universitária se faz cada vez mais necessária e dependerá de estratégias que viabilizem uma interlocução firme e corajosa com os governantes, respeitosa, mas não subserviente.

Uma universidade de pesquisa é muito cara e, por esta razão, deve ser transparente e responsável ao lidar com suas finanças. Não há qualquer dúvida sobre a necessidade de recursos do Estado para a manutenção da USP e de que a gratuidade do ensino de graduação é uma questão de princípio, pela própria natureza de uma instituição de caráter público. Todavia, as amarras corporativistas segundo as quais a universidade pública deve sobreviver exclusivamente à custa de recursos da sociedade devem ser superadas. Devidamente regulamentados e com base em rígidas auditorias, aportes financeiros provenientes de prestação de serviços e doações deveriam ser muito bem-vistos e estimulados pela USP para a implementação de projetos que, por exemplo, garantissem a permanência de alunos de estratos socioeconômicos menos favorecidos.

A contínua disposição para se reinventar é uma característica básica de uma universidade de pesquisa e o resultado de uma constante geração de novos conhecimentos que, por sua vez, transformam a educação e influenciam a sociedade. Instituições com este perfil cultivam postura de inconformidade para com suas fronteiras e desafios, mantêm identidade forjada por valores e missão, e constroem pontes entre diferentes culturas para que seja possível observar o mundo sob novas perspectivas. É pela manutenção deste equilíbrio entre tradição e enfrentamento de novos desafios disruptivos que a USP pode cumprir seus propósitos de liderar processos de mudança por caminhos ainda não trilhados.


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