O fenômeno do karatê

Marcelo Alberto de Oliveira é mestrando em Ciências da Escola de Educação Física e Esportes (EEFE-USP) e faixa preta em karatê

Por - Editorias: Artigos - URL Curta: jornal.usp.br/?p=257066
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Marcelo Alberto – Foto: Arquivo pessoal
Quando observamos cenas de artes marciais em filmes, séries ou novelas, muitos elementos estão presentes – culturais, históricos, sociais, dentre outros. Ao assistir episódios de artes marciais, é possível perceber que as modalidades são atravessadas por rituais, hábitos e condutas que o praticante cristaliza em si ao se relacionar com o meio, revelando aspectos culturais e históricos. Vejamos, por exemplo, o caso do karatê – modalidade que estreará nos Jogos Olímpicos de 2020, em Tóquio (Japão) – que traz em sua história várias transformações. Pensar o karatê somente enquanto esporte moderno pode limitá-lo, assim, este texto propõe considerá-lo enquanto fenômeno mais amplo.

Estima-se que há cerca de 100 milhões de praticantes desta arte marcial no mundo, ou seja, há muitas pessoas que reproduzem a prática do karatê todos os dias, mas que possuem diferentes objetivos – qualidade de vida, defesa pessoal, alto rendimento, dentre outros. Nesse contexto, este fenômeno aqui apresentado carrega consigo um emaranhado de atributos que nos auxiliam a interrogar o mundo a partir de diferentes perspectivas.

Você já parou para pensar o que motiva um praticante de karatê a se mobilizar toda semana para ir treinar? O que ele descobre através da prática constante? O karatê é somente uma defesa pessoal? O que caracteriza alguém como karateca? Por que a relação mestre-discípulo é tão importante neste campo? E os rituais, o que trazem em sua essência?

Provavelmente este texto não dará conta de responder essas questões profundas. Mas ao refletirmos sobre elas estaríamos buscando a própria essência do karatê – uma modalidade que demanda do seu praticante muita persistência e paciência.

Muito do que sabemos sobre o karatê é reproduzido a partir do senso comum, principalmente oriundo de filmes e séries que, muitas vezes, acabam por deturpar informações – históricas, culturais, terminológicas – e pouco abarcam sobre o ser karateca, sobre sua relação com a prática e como são construídos e transferidos valores e condutas para o seu dia a dia. Percebemos, por exemplo, a reprodução da informação de que o karatê veio do Japão, porém pouco se fala de sua ligação com a Ilha de Okinawa, considerada o “berço do karatê”, de terminologias chinesas, história e cultura que são bem diferentes do Japão Continental.

Nos dias atuais é comum observarmos em filmes e novelas, especialmente brasileiras, o reforço de estereótipos sobre os asiáticos (vícios de linguagem e sotaque, uso de vestimentas tradicionais, dentre outros). Nesse contexto, evidenciamos o surgimento de movimentos organizados de descendentes de orientais discutindo questões de identidade e discriminação.

Visando a ampliar a percepção acerca do karatê, comentaremos, por exemplo, sobre este ser que pratica e percebe o mundo sob a perspectiva desta arte marcial – o karateca. Há vários autores que se dedicaram a buscar compreender as essências das coisas e de como esta relação é construída entre o corpo e o ambiente – um corpo que se move no tempo-espaço e é constituído por saberes. Merleau-Ponty (1908-1961), um filósofo francês, possui vários estudos nesta perspectiva por meio da qual busca compreender a relação do corpo no mundo, com os outros corpos – intercorporeidade. Assim, sob este olhar a constituição do karateca pode ser investigada a partir da forma como este corpo interage com o outro, com o mundo, e consigo mesmo.

“Esquerda à frente na base zenkutsu dachi, avançando gedan barai, hajime!” diz o sensei ao dar o comando para fazer um exercício demonstrando com seu próprio corpo, através de gestos, técnicas do karatê para alunos iniciantes. Neste cenário, como reconhecemos o movimento certo corporalmente? Que traços culturais cercam esse ambiente tão peculiar do dojo (sala de treinamento)? O que há nesses movimentos do karatê que ao mesmo tempo em que aprendemos a executá-los também aprendemos a nos conhecer melhor?

Partimos do pressuposto de Merleau-Ponty segundo o qual tudo o que sabemos do mundo – seja orientado pela ciência ou não – só sabemos porque temos uma experiência de mundo. Assim, o que sabemos sobre o karatê em termos históricos, sociais, antropológicos pode ser enriquecido especialmente pelo olhar do próprio sujeito que o pratica.

Portanto, ao estudarmos o karatê a partir de um corpo vivido é possível compreender que o praticante pode perceber que através do processo de treinamento e da sua experiência descobre também um meio, ou melhor, um caminho – o que também acaba por estar inscrito no significado desta arte marcial – ‘caminho das mãos vazias’ – onde o autoconhecimento é constantemente elaborado.

Nesse processo de aprendizagem a intercorporeidade se evidencia. O aluno imbuído dos saberes do karatê, expressão que está no corpo deste discípulo, se relaciona com os agentes ao seu redor (seu mestre e demais karatecas) em um campo peculiar – o dojo – repleto de significantes, rituais, normas de conduta, etiquetas e tradições. Ao mesmo tempo que ele aprende com o mestre sinestesicamente – copiando, repetindo, observando, sentindo, se esforçando – também aprende a se conhecer. Assim, percebemos que o karatê vai além do alto rendimento e de uma simples prática de defesa pessoal.

O karateca, com todos os atributos que o configuram como tal (cumprimentos ritualizados, vestimentas tradicionais, filosofia de vida), carrega consigo cultura e transformação – ele é receptor e doador – apresentando-as em suas rotinas de treinamento e no seu dia a dia. Desse modo, nesse processo de autoconhecimento, busca-se estar presente plenamente a cada momento. Assim, o karateca, que não é objeto e muito menos dicotômico (corpo e mente), ao praticar o karatê interpreta-o como uma espécie de terapêutica: afasta pensamentos infelizes do passado e a ansiedade do futuro – imerso em um presente vivido.

 

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