Lasar Segall, sempre a mesma lua

Por Elza Ajzenberg, professora da Escola de Comunicações e Artes da USP

 Publicado: 24/03/2026 às 19:10
Elza Ajzenberg – Foto: Arquivo pessoal

 

Lasar Segall (Vilna, 21 de julho de 1899 – São Paulo, 2 de agosto de 1957), pintor, gravurista e escultor, nascido no território da atual Lituânia. O contexto vivido é decisivo na construção de seu processo artístico. Cresce na confluência das tradições de seu tempo e a ortodoxia religiosa. Pertence a uma tradicional família judaica. Seu pai – Abel Segall – é escriba da Torá, atividade de caráter místico e artesanal. Herança fundamental que se conecta com o modo do artista ver o mundo e de seu interesse estético.

A trajetória artística de Lasar Segall provoca muitas perguntas. Como elabora conexões entre os vários movimentos: Modernismo; Expressionismo; Pós-cubismo e as alterações formais? Como os conflitos e sofrimentos da guerra entram na execução de seus trabalhos? Como estabelecer elos entre sua vida e seu legado?

Em 1905, inicia seus estudos na Academia de Desenho de sua cidade natal. No ano seguinte, muda-se para Berlim, passando a estudar na Escola de Artes Aplicadas e, posteriormente, na Academia Imperial de Berlim. Debate e discorda das ideias da academia e, em 1910, muda-se para Dresden, como “aluno-mestre”, com ateliê individual e liberdade de expressão. Neste ano, realiza sua primeira exposição individual.

Entre 1911 e 1912, participa do Movimento Expressionista na Alemanha. Na primeira viagem ao Brasil, em 1913, realiza exposições individuais em São Paulo e Campinas. De regresso a Dresden, em 1919, com Otto Dix e outros artistas, organiza o Grupo Secessão de Dresden.

Em 1923, nova viagem ao Brasil, onde se fixa e adquire a nacionalidade brasileira. É aqui que, segundo suas próprias palavras, sua arte “ganha luz e cor”. A paisagem e as cores mais quentes são introduzidas. Mantém frequentes diálogos com artistas e intelectuais.

Em 1925, casa-se com Jenny Klabin, e o casal vai residir em Paris. Nesta fase, suas obras remetem à atmosfera familiar, ou, através de cores fortes, expressa paixões e sofrimentos. A temática envolve favelas, pessoas negras, paisagens com bananeiras. Dedica-se à escultura em madeira, pedras e gesso, ao lado das pinturas e gravuras.

Em 1932, Segall retorna ao Brasil. Instala-se em São Paulo, na casa projetada pelo arquiteto Gregori Warchavchik. Neste mesmo ano, participa da criação da Sociedade Pró-Arte Moderna – SPAM. A produção da década de 1930 inclui uma série de paisagens de Campos de Jordão. Em 1938, cria o figurino para o balé Sonhos de uma Noite de Verão, encenado no Teatro Municipal de São Paulo.

Uma retrospectiva de sua obra é realizada em 1943. Neste ano, publica-se um álbum sobre Segall, com textos de Mário de Andrade, Manuel Bandeira e Jorge de Lima. O Museu de Arte de São Paulo – Masp organiza uma exposição em 1951, ano em que é convidado de honra da 1ª Bienal Internacional de São Paulo. A 3ª Bienal Internacional de São Paulo, em 1955, expõe sua trajetória em sala especial.

O último ciclo de sua produção envolve séries: Excluídos, Favelas, Florestas. Expõe individualmente no Masp e em vários museus, na Europa e em Israel. Em 1957, prepara-se grande retrospectiva de sua trajetória. Em agosto, Lasar Segall falece por problemas cardíacos.

Por iniciativa dos filhos Maurício e Oscar, cria-se o Museu Lasar Segall, em 1967, em sua casa-ateliê, projetada por Warchavchik. Além de seu acervo, o museu constitui um centro de atividades culturais, oferecendo visitas monitoradas para escolas, cursos e oficinas, nas áreas de gravura, fotografia e criação literária. Abriga a Biblioteca Jenny Klabin Segall, com documentação sobre a vida e obra de Lasar Segall.

No momento presente, está em curso a exposição Lasar Segall – Sempre a Mesma Lua, com cuidadosa curadoria de Patrícia Wagner, no Museu Judaico de São Paulo (Rua Martinho Prado, 128). O título está associado à Lua e ao afeto – determinante atribuído por Segall à sua nacionalidade judaica. Os ciclos da Lua orientam há milênios o calendário judaico: a Lua não pertence a um tempo ou lugar determinado, “… oferece claridade sem distinção” (folder da exposição). A xilogravura Emigrantes com Lua, 1926, faz parte da exposição; como as demais obras, enriquece a temática.

A mostra apresenta 60 obras, entre pinturas, gravuras, aquarelas e desenhos, assinalando as influências estéticas durante o percurso do artista. É importante também conectar esta mostra às “figuras cambaleantes”, angulosas, com destaque para os grandes e expressivos olhos – por exemplo: Eternos Caminhantes, 1919, acervo Museu Lasar Segall.

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