Daisy, Dais, Dai…

Lançado em 1968, “2001: Uma Odisseia no Espaço” alimentou elucubrações sobre o significado do monolito, mas importante mesmo era o HAL 9000

Editorias: Artigos - URL Curta: jornal.usp.br/?p=212293

 

O tema era fascinante e desafiador.

2001: Uma Odisseia no Espaço plantou um monolito negro na tela e estimulou nossa imaginação.

Que diabo era aquele retângulo perfeito, enterrado no solo, com estridentes e transformadores poderes ativados pela posição do sol?

 

Há 50 anos nas telas dos cinemas o clássico da ficção científica: hominídeos observam o grande monolito no ato inicial de 2001: Uma Odisseia no Espaço – Foto: Reprodução / Youtube

Luiz Roberto Serrano – Foto: Cecília Bastos / USP Imagens 

De volta ao Crusp, o alojamento dos estudantes da USP, depois da sessão de cinema, discutimos até o amanhecer cada detalhe do filme. Éramos três politécnicos, invasores dos blocos F e G do Crusp, entusiasmados animadores do Grupo Teatral Politécnico, participantes dos protestos e passeatas que começavam a se multiplicar, detentores de rudimentares noções de materialismo histórico e dialético –  bem rudimentares.

A evolução do macaco, ao transformar em clava a ossada de suas presas, depois da interação com o monolito e o sol, combinou com nossas parcas noções da evolução das espécies. A retumbante abertura de Assim Falou Zaratustra, como trilha sonora da cena, sublinhava o tom épico da aventura do surgimento do homem no universo.

Vimos com surpresa a estação espacial compartilhada por russos e norte-americanos, pois estávamos ainda na Guerra Fria. EUA e URSS ainda disputavam a hegemonia na exploração espacial. Gagarin pusera os soviéticos várias órbitas à frente, os EUA só no ano seguinte colocariam Neil Armstrong na Lua. Mas Arthur C. Clarke, autor da obra em que o filme se inspirou, premonitoriamente indicava que as duas potências acabariam por colaborar no espaço.

Cenas do filme 2001: Uma Odisseia no Espaço, mostrando corte de milhões de anos desde o momento em que um hominídeo usa um osso como arma; nas imagens menores, o mesmo osso jogado para o alto e um satélite em órbita – Foto: Reprodução / Youtube

Pareceu natural que o HAL 9000, o computador que controlava o voo dos astronautas, na busca de decifrar o monolito, fosse desligado depois de tentar apoderar-se do controle da missão. No Biênio da Poli, onde estudávamos, ainda aprendíamos a programar num IBM alimentado por cartões perfurados, processo bem primário. Não era estranho que o homem tivesse total domínio sobre os computadores; parecia normal que, na ficção, uma máquina rebelde fosse desligada. Claro, o homem sempre dominaria a máquina, somos os seres superiores, nós as programaríamos.

Para nós, o intrigante, mesmo, era o fim do filme, aquela viagem sideral, policromática, acelerada, contrastando com a anterior travessia do cosmos ao som da plácida Danúbio Azul, de Johann Strauss. Era uma viagem no rumo do ocaso ou do começo da vida? Uma jornada rumo à origem do universo? Ao fim e ao cabo, lá estava o monolito plantado, realimentando o mistério.

Olho-câmera de cor vermelha, usado para representar HAL 9000, um computador com avançada inteligência artificial em  2001: Uma Odisseia no Espaço – Foto: Cryteria via Wikimedia Commons / CC BY 3.0

Daisy, Dais, Dai… 50 anos depois, está claro que, enquanto discutíamos a natureza do monolito, não nos demos conta de que uma das cenas mais sugestivas do 2001 era o desligamento do HAL, depois de seu golpe cibernético. Ali havia uma mensagem ao futuro, que nossos incipientes conhecimentos não descortinaram. Uma mensagem para todos nós, para os dias atuais às voltas com milhões de HALs, que não podem ser desligados, ao contrário do que aconteceu no filme.

Há super-HALs estrategicamente operados em Estados Maiores ocidentais e orientais bisbilhotando e tentando controlar os movimentos globais. Há HALs em empresas, escritórios, instituições revolucionando a produção e os serviços. E há os milhões de halzinhos que foram inventados para serem telefones e transformaram-se em smartphones, que hoje nos escravizam, no dia a dia, hora a hora, minuto a minuto. São nossas centrais de comunicação, portas para o mundo, salas de estar, instrumentos de trabalho, muletas sentimentais, nossos…tudo. Até telefones.

 A retumbante abertura de Assim Falou Zaratustra, de Richard Strauss, como trilha sonora da cena [do monolito], sublinhava o tom épico da aventura do surgimento do homem no universo.

Claro, todos podem ser desligados.

Mas como seria a nossa vida no momento seguinte? Como o mundo funcionaria? Como antigamente? Seria uma regressão impensável. Voltaríamos a consultar as volumosas enciclopédias Barsa, Britânica, Lello Universal?

O avanço da computação, da informática, da telemática nos abriu horizontes promissores, até mesmo inimagináveis, mas também nos encapsulou. Não podemos nos desfazer dos HALs e smartphones e o preço é eles moldarem nossa vida atual e futura.

Acreditava-se que o avanço da tecnologia libertaria os homens e as mulheres do trabalho. Não está sendo bem assim. A economia ficou mais rápida e acelerada, mas com grande potencial excludente; a cultura digital vulgariza e põe em xeque o saber universalizado desde Gutemberg; a Internet das Coisas pode nos transformar em robôs humanos programados; a vida social e política foi inundada por smartphones alimentados por poderosos e desconhecidos HALs e sub-HALs e pela ignorância feroz de parcelas consideráveis de usuários das redes sociais, que produzem uma babel agressiva e desrespeitosa.

Com a explosão da comunicação, dando voz e audiência a todos, o mundo ficou gelatinoso e imprevisível.

Stanley Kubrick – Foto: LOOK Magazine Collection via Wikimedia Commons / Domínio público

Naquela discussão madrugada adentro, no Crusp, nos concentramos em debater o  significado metafísico do monolito, dando-lhe infinitas interpretações, um exercício sem fim que há milênios engaja e divide a humanidade – para o bem ou para o mal.

O que o monolito representava? A materialização de Deus? Energia concentrada resultante do Big Bang? Por que concentrava tanto poder? Varamos a madrugada especulando, elucubrando. Não encontramos respostas.

O próprio Stanley Kubrick diria que ninguém descobriria o significado do monolito.

Da perspectiva de hoje, deveríamos, isto sim, ter atravessado aquela longa madrugada cruspiana especulando sobre o futuro do HAL.

Afinal, seus sucedâneos viraram nossas vidas de ponta-cabeça.

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