1932: indústria e ciência

José de Souza Martins é sociólogo, professor emérito da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP e membro da Academia Paulista de Letras

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Foto: Marcos Santos / USP Imagens

Já houve época em que o dia 9 de julho era, em São Paulo, comemorado com fervor democrático para celebrar a Revolução Constitucionalista de 1932. Uma ocorrência regional tão importante quanto o 2 de julho na Bahia, ambas, porém, relativas ao destino da nação. Lá, uma data decisiva para a independência do Brasil. Em São Paulo, uma data que, na derrota militar, oculta uma vitória cultural e econômica que decidiu o destino do país.

Se na Bahia a efeméride local é tempo de alegria e festa, em São Paulo o 9 de julho é hoje tempo de feriadão e de silêncio. Apesar da importância nacional da Revolução de 1932, um injusto preconceito contra a contribuição de São Paulo ao desenvolvimento nacional tenta apagar no esquecimento o fato de que é ele o Estado mais brasileiro dos nossos Estados. Ao longo dos últimos 130 anos tem abrigado milhões de migrantes de todos os cantos, dando-lhes oportunidade de brasileiros se tornarem na recompensa por muito trabalho e suor. Até mesmo migrantes dos nossos regionalismos que se descobriram brasileiros em São Paulo.

A Revolução de Outubro de 1930, que pôs Getúlio Vargas no poder, representou uma inflexão na história política do Brasil republicano. Um conjunto de débitos políticos se aglutinou em torno da figura de Vargas, gaúcho de formação positivista. Viabilizou o novo reforçando e instrumentalizando o velho da dominação pré-moderna. Os débitos ainda estão aí em nossos dilemas políticos de hoje. Não é questão de direita ou esquerda. É apenas questão de atraso político, de um país que tenta juntar no mesmo saco a sociedade moderna da razão e o Estado atrasado e populista da dominação pessoal e oligárquica. Essa é a face política desta economia anticapitalista, de incerteza e insegurança.

A Revolução de 1932 foi um corajoso ato para desatar os nós da República que 1930 não desatava. Os porta-vozes do atraso acham que a revolução de julho foi um movimento separatista. Não sabem que São Paulo era Estado industrializado e o da indústria mais promissora.

Engenheiros formados em escolas como a Escola Politécnica e técnicos formados no Liceu de Artes e Ofícios de São Paulo eram profissionais de alto nível, que criavam no interior das indústrias de bens de consumo, indústrias auxiliares de bens de capital. Eram reparadores, inventores e criadores de máquinas. Celso Furtado, em sua Formação Econômica do Brasil, omitiu-se em relação ao que era singular e criativo na indústria brasileira dos anos 1930. Simplificou e desconheceu a história na sua imaginosa hipótese de que a compra e a queima dos estoques de café promoveram a socialização das perdas decorrentes da crise de 1929 e estimularam nossa industrialização.
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Apesar da importância nacional da Revolução de 1932, um injusto preconceito contra a contribuição de São Paulo ao desenvolvimento nacional tenta apagar no esquecimento o fato de que é ele o Estado mais brasileiro dos nossos Estados

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Nessa hipótese vaga muita coisa fica sem explicação. Estando escasso o dinheiro forte, se não podíamos importar bens de capital, como teria sido possível a industrialização a não ser que indústria já existisse?

Que separatismo era esse que abriria mão do mercado interno de um país continental em troca do mercado de uma província? Levantamentos e estudos dos anos 1920 mostram que a indústria paulista tinha acentuada capacidade ociosa. Separar São Paulo do restante do país era abrir mão desse recurso de reprodução ampliada do capital. Nenhum empresário faria essa opção equivocada.

São Paulo, em 1932, foi traído pelo comandante da Força Pública, que se rendeu ao comandante das tropas federais, o general que, cinco anos depois, será um patrono da ditadura do Estado Novo.

Pouquíssimos, porém, se lembram que a derrota paulista revolucionou o Brasil. Os vencidos venceram Vargas ao viabilizarem uma política industrialista que libertou o Brasil da agricultura de exportação, expandindo o mercado interno de produtos industrializados. Vargas teve que assumir o industrialismo paulista e o fez. Um emblemático industrial do Estado, Roberto Símonsen, ativo na Revolução de 9 de Julho, fundador da Fiesp em 1929, tornou-se conselheiro de Vargas, tanto na política industrialista quanto na política trabalhista.

Os paulistas venceram Vargas, também e sobretudo, ao criar a Universidade de São Paulo com o explícito mote de que seria uma universidade “pública, laica e gratuita”, uma universidade democrática.

A USP se tornou a principal instituição brasileira de educação para a ciência e de pesquisa científica em todos os campos do conhecimento. Lugar em que buscam formação pós-graduada brasileiros de todos os Estados e estrangeiros da América Latina e da África. De fato, na imensa e generosa concepção de criação da USP, a Revolução de 1932 nem foi vencida nem terminou. A meta histórica de revolucionar o Brasil, por meio dela e em silêncio, continua viva e desafiadora.

(Publicado originalmente no suplemento EU& do jornal Valor Econômico de 20/07/2018)

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