Endometriose atinge até 15% das mulheres em idade reprodutiva no País

Sérgio Podgaec comenta dados do Ministério da Saúde e afirma que campanhas como a do Março Amarelo são importantes para conscientização de doenças negligenciadas

 Publicado: 19/03/2026 às 12:02
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Imagem de uma jovem de longos cabelos castanhos, vestindo blusa branca, e segurando a região abdominal com as duas mãos e expressão de dor no rosto
A endometriose acomete uma em cada dez mulheres em idade fértil – Foto: Saranya7 / Pixabay

A endometriose é uma doença inflamatória crônica que pode causar dores na região pélvica e infertilidade. O Ministério da Saúde estima que a doença atinja entre 5% e 15% das mulheres em idade reprodutiva, ou seja, período em que ocorre a menstruação. Essa fase da vida compreende desde a primeira menstruação, conhecida como menarca, no início da adolescência (entre 10 e 14 anos geralmente), até a menopausa, entre 45 e 55 anos.

Sérgio Podgaec – Foto: Arquivo pessoal

Segundo Sérgio Podgaec, professor do Departamento de Obstetrícia e Ginecologia da Faculdade de Medicina da USP e médico assistente da Clínica Ginecológica e do setor de Endometriose do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, “endometriose é uma doença que acomete uma de cada dez mulheres no período da vida em que a mulher menstrua. Ela acontece quando o tecido que fica dentro do útero, que se chama endométrio, aparece fora do útero”.

As causas

Existem teorias que tentam identificar a causa da endometriose. Entre elas, está a Teoria de Sampson (conhecida também como: Teoria da Menstruação Retrógrada ou do Refluxo Menstrual). “Sampson (John A. Sampson, eminente ginecologista americano) percebeu que, quando tem a menstruação, o fluxo menstrual vai embora, sai do útero pela vagina. Porém, ele também retorna pelas trompas uterinas para dentro da cavidade abdominal, para dentro da barriga. Esse tecido, que só devia sair, retorna pelas trompas e cai dentro da cavidade abdominal.”

O refluxo da menstruação é comum, porém, nem sempre ocasiona endometriose. “Toda mulher praticamente tem esse refluxo menstrual e só uma a cada dez desenvolve endometriose. Outras teorias foram aparecendo ao longo dos anos para dar suporte para essa questão do refluxo.” A menstruação retrógrada não é a única responsável pela doença, ela pode estar associada também a outras causas, como explica Podgaec: “Há alterações imunológicas, inflamatórias, hormonais e também uma característica genética, que tem um padrão de hereditariedade de mulheres tendo endometriose”.

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Sintomas e tratamento

A campanha de conscientização da endometriose acontece durante todo o mês de março, conhecida como Março Amarelo. Um dos passos dessa campanha é ajudar as pessoas que menstruam a identificarem sintomas e informar sobre a prevenção e o diagnóstico. Com âmbito nacional, ela faz parte de outras campanhas sobre o mês das mulheres, como o Março Lilás, focada no câncer de colo do útero.

O professor destaca dois tipos de sintomas principais: as dores na região pélvica e a infertilidade. “A dor pode se manifestar de algumas formas. A primeira é dor em cólica menstrual no período menstrual. A segunda é dor, também na região pélvica, mas fora do período menstrual. Pode surgir também durante a relação sexual, no fundo vaginal, e também pode aparecer quando a paciente vai evacuar ou urinar no período menstrual. Outro sintoma é dificuldade para engravidar.”

Os tratamentos – ministração de hormônios, reprodução assistida e cirurgias – para endometriose são diversos e dependem do objetivo do tratamento. “Basicamente, a endometriose pode ser tratada com hormônios. Pílulas anticoncepcionais, um DIU medicado com hormônio, os anticoncepcionais de diferentes tipos podem ser um tratamento para a dor das mulheres que têm endometriose. Para quem tem dificuldade para engravidar, os tratamentos hormonais não são indicados, porque senão a paciente estará usando um hormônio anticoncepcional. Para quem quer engravidar e tem dificuldade pode recorrer a técnicas de reprodução assistida, por exemplo, uma fertilização in vitro. E uma terceira opção de tratamento, para casos muito indicados, são as cirurgias para remoção desses focos de endometriose.” O professor explica que o tratamento hormonal não tem o objetivo de diminuir as lesões da endometriose, mas sim os tratamentos das diversas dores frequentes.

Para além do tratamento, atividades físicas e outras abordagens ajudam a diminuir alguns sintomas da doença, principalmente as dores. “É importante ter suporte multidisciplinar para a endometriose. Pode ser necessário fazer fisioterapia pélvica, ajustar a dieta da paciente, um apoio psicológico pode ser útil, medicações analgésicas, têm várias coisas que podem ajudar a paciente com endometriose.”

Podgaec explicita que a endometriose é benigna e que não está associada ao desenvolvimento de câncer. “O aparecimento de tumores pela endometriose é muito infrequente e a gente não pode dizer isso de forma geral, são situações muito específicas e não comuns, e é importante reforçar isso para não assustar as pacientes que têm endometriose. A paciente não tem que ter essa superpreocupação, mesmo que faça parte do acompanhamento das mulheres com endometriose.”


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