Pesquisa no Incor avalia crioanalgesia no pós-operatório da cirurgia de “pectus excavatum”

Por Miguel Tedde, coordenador do Programa de Complementação Especializada em Cirurgia da Parede Torácica do Instituto do Coração do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP

 Publicado: 09/03/2026 às 19:46
Miguel Tedde – Foto: Arquivo pessoal
Em que pese o fato de que a sensibilidade à dor varia muito de pessoa para pessoa, deve ser considerado que a dor no pós-operatório pode ser um grande problema para pacientes submetidos a tratamento cirúrgico. Nessa situação, uma das opções medicamentosas mais utilizadas são os opioides. Embora sejam efetivos como drogas analgésicas, são conhecidos os esforços feitos para reduzir o uso dessas drogas por várias razões. Nesse cenário, a busca por métodos que possam substituir os opioides no alivio à dor é uma constante.

A crioanalgesia é um método que consiste em congelar o nervo no sentido de que ele não mais seja capaz de transmitir a sensação dolorosa. Isso é feito aproximando-se um probe do dispositivo que gera o frio próximo ao nervo que se quer “anestesiar”. Em linhas gerais, o frio do probe congela as fibras que conduzem a dor, mas a capa de mielina que envolve essas fibras permanece preservada. Decorrido um período variável de tempo, as fibras dolorosas se regeneram e o nervo volta a transmitir a sensação dolorosa. Esse processo é conveniente porque tardiamente o paciente já não sente dor decorrente da cirurgia.

Um dos procedimentos que podem desencadear dor importante em cirurgia torácica são as cirurgias para tratar pectus excavatum (PE) e pectus carinatum (PC). Pectus são deformidades congênitas da parede torácica que projetam o esterno para dentro (PE ou peito de sapateiro) ou para fora (PC ou peito de pombo). Essas cirurgias, que antes eram feitas de forma aberta, com ressecção de cartilagens e fraturas ósseas, hoje têm sido feitas de forma minimamente invasiva, com a utilização de próteses metálicas que reposicionam o osso esterno e as cartilagens. Embora a cirurgia em si tenha ficado muito menos invasiva, ainda persiste o problema da dor que requer tratamento.

Na busca por uma solução para esse problema, estamos coordenando uma pesquisa cirúrgica na Disciplina de Cirurgia Torácica (Serviço Prof. Paulo Pego Fernandes) do Instituto do Coração (Incor) da FMUSP1. No projeto, 40 participantes submetidos ao reparo minimamente invasivo de pectus excavatum (MIRPE) são randomizados como grupo controle para receber analgesia por bloqueio peridural, ou grupo intervenção para receber crioanalgesia dos nervos intercostais (Metrum Cryoflex, Poland).

Embora o estudo ainda esteja na metade, os resultados observados até agora são animadores. Enquanto no grupo da peridural a mediana de permanência hospitalar pós-cirurgia é de cinco dias, no grupo da crio essa mediana cai para três dias. Da mesma forma, o consumo médio de opioides no pós-operatório do grupo da crio está sendo em torno de 50% menor que no grupo controle. Apesar dos promissores resultados iniciais, deve ser ressaltado que faz parte do projeto manter seguimento dos pacientes por um período de um ano para poder detectar possíveis complicações tardias.

Dessa forma, a se confirmarem esses resultados, a crioanalgesia dos nervos intercostais parece despontar como uma excelente opção não só para que se evite o uso de opioides, mas também para antecipar altas hospitalares pós-correção cirúrgica dos casos de pectus. Importante destacar que, apesar do método estar sendo testado em casos de pectus, nada impede que esses resultados possam se repetir em outros situações pós-cirúrgicas, como, por exemplo, pós-operatórios de toracotomias ou de transplantes pulmonares e em traumas torácicos com fraturas costais.

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