
Sou farmacêutico pela Faculdade de Ciências Farmacêuticas da USP. Fiz doutorado em Ciências Biológicas (Bioquímica) no Instituto de Química da USP, em São Paulo. Fui professor de Bioquímica entre 2000 e 2009, para diversos cursos da área da saúde, incluindo Medicina (nota 4 no Enemed 2025), na Faculdade de Ciências da Saúde vinculada à Universidade do Vale do Sapucaí. Fui diretor da mesma faculdade entre 2007 e 2009. Ministrei Bioquímica na Universidade Federal de Alfenas de 2009 a 2013 e, por um curto período, integrei a comissão de implementação do curso de Medicina nessa instituição. Sou professor da Escola de Engenharia de Lorena – USP, na área de síntese de polímeros, tema que estudo desde o meu doutorado. Trabalho hoje com polímeros com propriedades antimicrobianas.
Como cidadão e profissional, enxergo no Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (Enamed) um grande avanço na avaliação dos cursos de medicina. Nos revelou um cenário preocupante, mas também nos deu bases para intervenções nas instituições que necessitam de melhorias. Focar nas instituições é o único caminho para aprimorar, de forma consistente e justa, a formação dos profissionais médicos no País.
A partir dos resultados, somados a outros indicadores, o MEC deve agora exigir avanços nos cursos e fechar aqueles que não conseguirem apresentar bons resultados em tempo adequado. A revogação, em 9 de fevereiro de 2026, do edital de abertura de novos cursos de medicina foi, ao menos em parte, influenciada pelos resultados do Enamed e demonstra que o exame está gerando consequências positivas.
Mas é preciso ter consciência de que o Enamed, sozinho, não resolve todos os problemas. A formação médica é complexa e a sua avaliação também. Além da capacidade de realizar um bom teste escrito, espera-se do médico recém-formado uma grande quantidade de habilidades e competências que uma prova única não consegue avaliar.
Há, entre os indivíduos bem avaliados no Enemed, aqueles que serão maus profissionais, e há também, entre aqueles que fizeram uma prova ruim (o que é diferente de ter ou não o conhecimento), outros que podem vir a ser ótimos profissionais.
Por isso, uma prova desse tipo serve para avaliar a instituição: quando o curso forma muitos profissionais com baixo aproveitamento, sabe-se que uma parte da formação (pelo menos) está ruim, ainda que alguns egressos consigam se sair bem. Na análise da instituição, os resultados do Enamed se somarão a indicadores como a infraestrutura, o corpo docente, os hospitais e clínicas vinculados, entre outros, fechando um diagnóstico mais completo do curso.
Infelizmente, há aqueles que querem simplificar radicalmente a solução dos problemas de formação de nossos médicos e, por fim, apenas penalizar o aluno, com resultados práticos questionáveis. Imaginem, caros leitores, entrar numa faculdade de medicina totalmente regularizada, aprovada pelo MEC (órgão que tem legalmente essa prerrogativa), muitas vezes extremamente cara, ficar seis anos e, depois de tudo isso, por conta de uma única prova, ser impedido de exercer a profissão. O curso, por sua vez, pode continuar existindo. E o dono, lucrando. Algo muito parecido com isso está sendo proposto por algumas entidades médicas.
Além de contrariar os princípios legais mais fundamentais, esse arremedo de solução constitui uma injustiça ímpar e um exemplo de ineficiência: o aluno paga (com tempo e dinheiro) pela má formação e a faculdade continua oferecendo um curso ruim, eternizando o problema. Seria assim o tal exame de proficiência, proposto como necessário para que o formando receba o registro profissional, do tipo Exame da Ordem. Algumas entidades médicas propõem, por exemplo, exigir uma nota mínima no Enamed para a inscrição do profissional nos conselhos. O Enamed se tornaria, então, esse exame de proficiência, o que deturparia seus objetivos.
Há um forte apelo popular, ou populista, a favor desse tipo de exame. Mas quem tem por função legal defender a sociedade contra más práticas profissionais é, principalmente, o Conselho Federal de Medicina (CFM) e os demais conselhos regionais. Se estes cumprirem adequadamente suas funções, estaremos menos expostos aos maus profissionais, novos ou antigos. Não cabe a esses órgãos legislarem sobre a formação ou impedirem alguém que se formou regularmente de exercer a medicina (a não ser em casos excepcionalíssimos). Lembrando também que, entre os que fazem uma boa prova, haverá aqueles que serão maus profissionais, portanto, o exame de proficiência não é a resposta para todos os problemas.
Considerando que os conselhos estão preocupados com a qualidade do profissional médico no Brasil, eles podem, no estrito âmbito de sua atuação, adotar uma ferramenta adicional de defesa da população contra profissionais de má qualidade. Essa ferramenta é usada em países considerados referências, como o Reino Unido, o Canadá, os Países Baixos e os Estados Unidos. Trata-se da revalidação periódica da licença profissional. Todos os médicos em atividade seriam submetidos a esse processo. O controle se daria pela competência e não pela precocidade ou pela senioridade.
Profissionais que causaram (e continuam causando) danos à população poderiam, então, ser identificados, independentemente da data da formatura ou do resultado de qualquer exame prévio. Os que se formam hoje e não se tornam bons profissionais seriam barrados. Portanto, a revalidação seria muito mais abrangente do que uma mera prova destinada a punir recém-formados. Apesar de complexo, seu processo de implementação pode ser iniciado imediatamente; basta que os conselhos decidam adotar essa prática. Não há necessidade de extrapolar funções legais ou de invadir a competência de outros órgãos.
O que causa certa estranheza, porém, é que a possibilidade da revalidação do registro seja ignorada, enquanto outras, questionáveis e ilegais, estão constantemente na mídia, como o tal exame de proficiência, talvez pelo seu já lembrado apelo populista. Porém, se o objetivo final é a qualidade da medicina (e tem que ser), os conselhos deveriam propor, antes de tudo, soluções totais ou parciais que estão prontamente à disposição deles, como a revalidação do registro. Ignorar funções precípuas e avançar sobre competências que não são suas mais parece uma fuga para não aprofundar a discussão. Elencar os motivos dessa fuga pode ficar para outro momento.
Isso não significa que os conselhos não devam ser ouvidos na regulação do ensino de medicina, pelo contrário. Mas recomenda que outros atores também participem, sempre com o MEC como órgão executor. Felizmente, a conceituada Associação Brasileira de Ensino Médico (Abem) é contrária ao uso de provas pontuais para a liberação do exercício profissional e sugere soluções mais abrangentes. Parabéns a ela.
O Enamed iluminou parte do caminho rumo a uma medicina universal de qualidade no Brasil. Se bem usado, pode ajudar muito. A sociedade civil deve participar do processo e compreender os interesses (geralmente legítimos) em jogo. Acima de tudo, deve perceber seu próprio e maior interesse: o acesso a serviços médicos de qualidade para toda a população. Para isso, precisamos de profissionais bem formados, em número suficiente e adequadamente supervisionados ao longo de toda a carreira.
Se o MEC regular a formação (utilizando os resultados do Enamed para isso) e os conselhos fiscalizarem o exercício profissional, a perspectiva é boa. Para isso é preciso muito trabalho, desprendimento e espírito público. Menos corporativismo e mais foco na formação e nos serviços médicos universais de qualidade. Pressão popular também ajuda. Engaje-se na discussão, mesmo que você seja professor de uma escola de engenharia.
________________(As opiniões expressas nos artigos publicados no Jornal da USP são de inteira responsabilidade de seus autores e não refletem opiniões do veículo nem posições institucionais da Universidade de São Paulo. Acesse aqui nossos parâmetros editoriais para artigos de opinião.)
























