Escrever é perigoso: de Olga Tokarczuk a Luiz Menna-Barreto

Por José Roberto Castilho Piqueira, professor da Escola Politécnica da USP

 Publicado: 02/03/2026 às 19:25

Sempre gostei de escrever e nunca pensei muito sobre as razões que me levam a isso. Certamente, é um misto de egocentrismo, vaidade, prazer e, talvez, um vício com origem nos mais de 70 anos de bancos escolares, alternando o trabalho de aluno com o de professor.

Olga Tokarczuk (1962-), em Escrever é muito perigoso: Ensaios e conferências, apresenta uma análise profunda de como esse hábito toma conta da vida de algumas pessoas e de como as principais instâncias psicológicas se manifestam nos textos.

Gosto de pensar que o conhecimento carece sempre de divulgação. Para o conhecimento científico e seus avanços há, atualmente, um bom número de periódicos especializados e de editoras que produzem livros de conteúdos específicos.

Entretanto, sempre há uma distância entre o saber específico essencial para o dia a dia profissional, e um certo conhecimento geral, proveniente de outras áreas de trabalho. Assim, como engenheiro especializado em dinâmica não linear, gosto de saber o que se passa na Biologia ou o que há de novo na Física.

Das Ciências Humanas e da Literatura, fica o gosto de percorrer clássicos e aproveitar as delícias de seus textos, embora seja impossível conter a ansiedade pela impossibilidade de dar conta de toda beleza criada desde os primórdios da expressão do saber consciente.

Voltando aos perigos, tento colocar nos meus textos um pouco do conhecimento da engenharia dos processos dinâmicos e de sua possível relação de envolvimento com as diversas áreas.

Isso é perigoso, pois pessoas de forte saber específico podem considerar que esse tipo de escrita barateia a pureza e a qualidade das ideias, tirando delas o rigor. Entretanto, acho que o ganho com a divulgação supera a sofisticação do rigor científico.

Escrevi, anteriormente, três textos: Sobre o tempo: Huygens, Lorde Kelvin e Curies; Sobre o tempo: Sacks e Wells; Sincronização: Huygens, Winfree e Lindsey, que, acredito, proporcionaram uma oportunidade de retomar um antigo diálogo entre a cronobiologia e a teoria dos sistemas dinâmicos não lineares.

A leitura deles levou o colega Luiz Menna-Barreto, da Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH-USP), a me convidar para participar do seminário semanal por ele organizado, denominado Cronoforum, com participantes predominantemente das áreas consideradas biológicas.

Nessas ocasiões, sempre há o perigo da diferença de linguagens e caminhos de formação. Não foi o caso desse interessante fórum, com uma excelente convergência de visões multidisciplinares que, depois de muitos anos de valorização da hiperespecialização, retornam ao debate nos principais centros de ciência, em todo o mundo.

Um exemplo notório a respeito dessa tendência aos estudos que se preocupam com a interligação entre os diversos saberes científicos é o Prêmio Nobel de Física 2021 concedido a Giorgio Parisi (1948-), Syukuro Manabe (1931-) e Klaus Hasselmann (1931-), por suas contribuições para a compreensão dos sistemas físicos complexos. Utilizando modelos matemáticos, conceberam estudos que relacionam mudanças climáticas com a responsabilidade humana, combinando as teorias de processos aleatórios com modelos climáticos.

Voltando ao Cronoforum, em certo momento a discussão tocou em algumas questões que, aparentemente, pertencem à ficção científica. Acelerar ou retardar o fluxo de tempo, embora sejam ações aparentemente não factíveis, podem ser simuladas em câmeras fotográficas e de vídeo e em processos computacionais, permitindo o estudo de fenômenos em escalas temporais muito diferentes das da percepção humana.

Essa é uma questão muito cara para a Biologia, dada a grande diversidade de escalas temporais de seus objetos de estudo. Partindo desse ponto, aguçar nossa imaginação para pensar em viagens no tempo é um passo e o perigo de eu receber uma crítica ferina sobre uma afirmação inocente aumenta muito.

Ao terminar o seminário, fui ver se tinha algo que abordasse essa questão de maneira que eu pudesse entender, sem recorrer às equações da Teoria da Relatividade Geral, sobre a qual nada sei.

Lembrei-me de um livro que ganhei do meu irmão Thales Trigo (1952-) que é um físico com grande conhecimento de atividades relacionadas à fotografia. O livro, Maxwell Demon, escrito por Hans Christian von Baeyer (1938-), traz interessantes discussões sobre a entropia, relacionando-a com a chamada seta do tempo.

Essa tentativa de relacionar o tempo, aparentemente algo abstrato, com uma possível mensuração de uma grandeza mais próxima de nossas percepções tem sido bem-sucedida para explicar uma boa parte de situações físicas relacionadas a fenômenos de variadas escalas espaciais.

Explica-se dessa maneira a impossibilidade de viagens para o passado, pois, como a entropia do Universo sempre aumenta, voltar ao passado, desejo de alguns, implicaria sua diminuição.

Entretanto, a questão desafiadora aparece no capítulo Here and Now do livro de Von Baeyer. Desde os tempos da antiga cultura grega, os movimentos dos corpos foram pensados como mudanças de posição ao longo do tempo.

Essa maneira de olhar para o Universo, totalmente plausível e enraizada em nossa intuição, considera posição e tempo, ou espaço e tempo, entidades de naturezas diferentes e não abordáveis da mesma maneira.

Em 1909, Hermann Minkowski (1864-1909), baseado na Teoria da Relatividade Restrita, proposta por Albert Einstein (1879-1955), propôs uma geometria quadridimensional que não faz distinções entre coordenadas espaciais e temporais.

Em 1915, Einsten publicou a Teoria da Relatividade Geral, que revolucionou a maneira de observar os fenômenos físicos, tratando-os como deformações no chamado espaço-tempo, unificando coordenadas e tratando o tempo como grandeza semelhante às espaciais, tornando-o indistinguível das outras dimensões envolvidas.

Ficam então perguntas aparentemente infantis: como o passado se distingue do futuro? O tempo sempre flui em um mesmo sentido, como uma seta? O passado, embora presente em nosso núcleo consciente, é materialmente inacessível?

Escrever sobre o tempo é sempre perigoso.

Dedico este texto aos amigos(as): Antonio Carlos de Souza (Cacá), Djalma Nunes da Silva, Laerte Idal Sznelwar e Patrícia Helene Costa Senne dos Santos, vivos(as) na minha memória.

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