Variações sobre um mesmo tema: o Carnaval

Para muitos, o Carnaval seria fruto da natureza, da riqueza intercultural brasileira oriunda de uma “energia”, de um “pulsar” de uma sensibilidade própria, contextual, diz Martin Grossmann

 24/02/2026 - Publicado há 2 meses

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“O Carnaval é o período onde a ambiguidade e multidimensionalidade cultural brasileira se expõe sem filtros, sem máscaras, sem adereços. Trata-se de um acontecimento inter e policultural pautado não só pela sua originalidade e diversidade local e territorial, como também por contradições de toda ordem, contradições que desfilam diante de nós desafiando nossa razão e nossos sentidos.” Essa afirmação abre a coluna de Martin Grossmann, dedicada ao Carnaval, que ele vê como uma festa “que inevitavelmente sublima tanto as desigualdades sociais como a violência, pelo destaque que se dá à miscigenação do povo brasileiro, o que mais uma vez acaba atenuando o sempre persistente racismo estrutural. Há também as sobreposições explícitas do interesse público com o privado, bem como daquelas provenientes do ilícito […]. Definitivamente, o nosso Carnaval, apesar de ter suas origens atreladas às festividades pagãs europeias — como as que acontecem até hoje –, é algo muito singular e mutante, ganhando novos e renovados contornos a cada ano”.

Na sequência, Grossmann enumera as características que tornam o Carnaval brasileiro algo único e distinto dos demais. “Para muitos, o Carnaval seria fruto da natureza, da riqueza intercultural brasileira oriunda de uma ‘energia’, de um ‘pulsar’ de uma sensibilidade própria, contextual […]. O documentário de Sérgio Machado, lançado no final de 2025, que assisti no último sábado, na Globonews, Três Obás de Xangô, navega nesse oceano atlântico mais ao sul, que enaltece a festividade, a cordialidade, a amizade, a alegria, o amor, neste caso o nutrido por modernistas brasileiros que, da Bahia, marcaram o século 20. O foco do documentário está na importância da figura do Obá […]. A conexão entre esse legado e o Carnaval está na importância do terreiro como matriz-mãe, como epicentro desta multidimensionalidade. Quem esclarece isso é o sambista e escritor Nei Lopes que, em entrevista à Rádio Brasil de Fato, afirma que a raiz do carnaval do Rio de Janeiro começou a se desfazer quando as agremiações trocaram os tradicionais terreiros pelas quadras. Eu complementaria essa critica de Nei Lopes ao lembrar que isso foi reforçado também com a criação do sambódromo, uma vez que atua como um dispositivo monocultural para esse acontecimento dionisíaco e multifacetado. Apesar desses enquadramentos, destas tentativas formalizantes, é importante destacar, como bem lembra outro grande especialista da cultura carioca, Luiz Antônio Simas, que o Carnaval sempre foi atravessado pelas dinâmicas do seu tempo.  Para Simas, as escolas de samba surgem como instituições de construção de sociabilidades negras e que, mesmo impactadas por processos de mercantilização, seguem sendo espaços de produção de narrativa. Como muito bem explorado pela série Vale o Escrito, disponível na plataforma Globoplay, importante mencionar a presença, a ação e as violências do ilícito, que também influenciam historicamente os rumos do Carnaval no Brasil. O carnaval é complexo e representa sim, culturalmente, o Brasil.”


Na Cultura, o Centro está em Toda Parte
A coluna Na Cultura o Centro está em Toda Parte, com o professor Martin Grossmann, vai ao ar quinzenalmente, terça-feira às 9h, na Rádio USP (São Paulo 93,7; Ribeirão Preto 107,9) e também no Youtube, com produção da Rádio USP,  Jornal da USP e TV USP.

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