Canetas emagrecedoras podem ser eficazes se usadas com indicação correta e acompanhamento médico

Marcio Corrêa Mancini comenta alerta de uma agência do Reino Unido, que associou casos de pancreatite aguda ao uso de canetas emagrecedoras, o que ocorreu também no Brasil

 23/02/2026 - Publicado há 3 meses
Medicamento foi usado para tratar diabetes, mas mostrou-se eficiente para reduzir a obesidade – Foto: jcomp / Freepik
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Uma agência reguladora do Reino Unido divulgou um alerta para pancreatite aguda como causa de mortes associadas a canetas emagrecedoras. Além disso, no Brasil, dados da Anvisa, que corroboram com o alerta, mostram mais de 200 casos suspeitos de pancreatite ligados a medicamentos usados para diabetes e obesidade. Especialistas alertam para uso sem indicação e acompanhamento desse método de tratamento.

Marcio Corrêa Mancini, médico e chefe do Grupo de Obesidade do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, ressalta as preocupações em torno da utilização das canetas emagrecedoras. “Esses medicamentos estão no mercado há quase 20 anos, e a cada ano que passa evoluem sua eficácia e comodidade posológica. Durante esse período, cerca de um milhão e meio de pessoas utilizaram esse tratamento no Reino Unido e foram relatados 19 casos de pancreatite, de acordo com os dados dessa agência.”

Marcio Corrêa Mancini – Foto: Arquivo pessoal

“Isso quer dizer que as pessoas precisam ficar alertas, esses remédios têm que ser usados com acompanhamento médico e com indicação de uso correto. Os maiores riscos que são enfrentados atualmente são a compra dos medicamentos de fontes não confiáveis, que são geralmente manipulados e contrabandeados, e quando a aplicação é realizada na própria clínica, o que é algo completamente irregular”, acrescenta o especialista.

Indicações corretas para o uso

Inicialmente esses medicamentos foram desenvolvidos para o tratamento de diabetes tipo 2, uma doença crônica metabólica em que o corpo desenvolve resistência à insulina ou não a produz em quantidade suficiente, mas depois demonstraram-se eficientes para o tratamento da obesidade também. “Quando falamos na redução da hemoglobina glicada, um parâmetro utilizado na avaliação de eficácia de remédios para diabetes, em geral, os remédios reduziam a hemoglobina glicada entre 0,5% e 1%.”

“A última geração desses remédios reduz mais de 2% da hemoglobina glicada, uma redução que chega quase ao mesmo porcentual de uma cirurgia bariátrica. Por isso, eu digo que são tratamentos revolucionários, tanto no combate à diabetes quanto no combate à obesidade e, em função disso, são cada vez mais procurados pela população”, completa Mancini.

Recomendações e riscos

“Primeiro de tudo, para a realização do tratamento, é fundamental o acompanhamento regular médico, com prescrição de receita para o medicamento, algo que ocorre desde o ano passado, graças às exigências da Anvisa. A pancreatite, um dos principais efeitos colaterais da utilização, é uma dor aguda na parte superior do abdômen que é irradiada para as costas. O paciente vai notar que essa não é uma dor convencional e vai procurar o médico novamente; por meio de uma tomografia computadorizada a pancreatite vai ser identificada e o tratamento será iniciado.”

O médico explica que a pancreatite é causada devido à enorme perda de peso nos pacientes, visto que os remédios apresentam grande eficácia, que leva ao cálculo biliar. Esse cálculo ocasiona um entupimento da bile e da via de drenagem do pâncreas, fazendo com que as enzimas do pâncreas não consigam sair do próprio órgão e comecem a digeri-lo. “Qualquer perda de peso rápida, como a bariátrica, o uso da caneta ou até mesmo com dieta, pode resultar no cálculo biliar que resulta na pancreatite.”

Além disso, a perda excessiva de massa muscular é outro fator que precisa ser regulado apropriadamente. “Pacientes com mais idade em uso desse medicamento têm que ser orientados a ter uma ingestão de proteína de, no mínimo, 1,2 gramas por quilo de peso e ter uma atividade física principalmente centrada em exercícios de resistência de musculação para preservar a massa muscular.”

“Existem estudos mostrando que a perda de massa muscular chegou a mais de 40% da perda total de peso. Ou seja, o paciente tem que perder peso, mas ele tem que perder primordialmente massa de gordura, não muscular, caso contrário ele terá uma enorme fragilidade e prejuízo para a saúde”, finaliza o médico.


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