Nesta coluna, Luli Radfahrer fala sobre as namoradas de inteligência artificial, aplicativos sofisticados de chatbots que simulam relacionamentos românticos por meio de texto, voz e interações visuais. Os usuários compartilham informações íntimas com as suas companheiras virtuais, preferências sexuais, inseguranças, histórico de relacionamentos, rotinas diárias e vulnerabilidades emocionais. Isso, segundo Radfahrer, cria perfis únicos de dados, bem mais ricos que os de mídias sociais. Trata-se de um mercado que deve atingir vários bilhões de dólares até 2028 e que é movido por apelos como disponibilidade incondicional, zero rejeição, personalidade ajustável e apoio emocional, sem nenhuma exigência de reciprocidade. A grande maioria dos usuários à cata desse tipo de relacionamento é a de homens heterossexuais.
“Usuários relatam a diminuição da motivação para buscar relacionamentos reais, considerando parceiros humanos muito complicados ou muito exigentes. Ultimamente, a IA vem se tornando tão convincente que muitos usuários, principalmente os mais inexperientes, chegam a preferi-la à realidade. Tem gente que passa mais de seis horas por dia conversando com suas companheiras virtuais, referindo-se a elas como suas namoradas de verdade e sentindo tristeza quando os aplicativos são desativados ou sofrem alterações. Isso já é realidade entre homens jovens em países desenvolvidos, principalmente onde há crises demográficas, como o Japão e a Coreia do Sul. Isso pode acelerar ainda mais a queda nas taxas de natalidade, reduzir a participação na comunidade e aprofundar as tensões de gênero que já existem.”
Claro está que a IA não substitui o ser humano. “Há quem diga que elas podem superar a depressão, praticar interações sociais ou dar apoio quando a ajuda humana não está disponível. Mas os riscos, principalmente entre os mais frágeis – pessoas com quadros de depressão, idosos ou jovens solitários –, são muito grandes. Isso não é como os aplicativos de relacionamento, que são uma evolução na forma com que nos relacionamos com outras pessoas, mas que envolvem o encontro com outro indivíduo. Esses são pura exploração. A IA não é capaz de compreender ou nem de se importar, ela só simula essas qualidades. Quando os usuários desenvolvem sentimentos genuínos por uma entidade incapaz de retribuir esses sentimentos, a bomba relógio já está ativa. Essa tecnologia é mais um passo na direção do aumento da fragmentação social. A melhor atitude que se pode ter com relação a ela é evitá-la por completo”, afirma o colunista.
Datacracia
Com o Prof. Luli Radfahrer
A coluna Datacracia, com o professor Luli Radfahrer, vai ao ar quinzenalmente, sexta-feira às 8h, na Rádio USP (São Paulo 93,7 ; Ribeirão Preto 107,9 ), com produção da Rádio USP Jornal da USP e TV USP.


























