O corpo que ensina: visibilidade trans e a insurgência pedagógica

Por Gabrielle Weber, professora da Escola de Engenharia de Lorena (EEL) da USP

 29/01/2026 - Publicado há 6 meses     Atualizado: 23/04/2026 às 13:22

O dia 29 de janeiro não celebra apenas a Visibilidade Trans; para mim, o acaso reservou a essa data também o meu renascimento público. Diversas circunstâncias conspiraram para que o meu nome social fosse inserido no sistema Marte (o cadastro de recursos humanos da USP) justamente nesse dia, em 2019. Pude, assim, sair do armário oficialmente em uma data auguriosa. Contudo, este texto não é sobre as desventuras que me levaram até esse momento, mas sim sobre a jornada que ali se iniciou. Mais especificamente, sobre como poder ser genuinamente eu mesma modificou profundamente a minha forma de lecionar.

Uma das maiores dificuldades que enfrentamos na docência é transformar a sala de aula em uma verdadeira comunidade pedagógica: em um espaço onde docentes e discentes sejam corresponsáveis pela construção do saber. Romper com a perspectiva bancária, em que a professora atua como uma fonte dessujeitada de conhecimento e as alunas como meros sorvedouros inertes, exige convencê-las da urgência de participarem ativamente de sua própria educação.

Longe de ser um comportamento natural, essa passividade discente é dolorosamente construída ao longo da vida acadêmica. A curiosidade é cirurgicamente podada e as vozes são violentamente caladas em uma linha de produção de corpos dóceis e obedientes, que perpassa todos os níveis de ensino: do infantil ao superior. O resultado são estudantes acuadas que já estão completamente convencidas de sua suposta falta de autoridade intelectual. Reconhecer essa artificialidade da sala de aula tradicional é o primeiro passo para desmantelar as estruturas que a sustentam e, com isso, restituir gradativamente a essas pessoas a confiança em suas próprias falas e questionamentos.

Em sua obra Ensinando a Transgredir, bell hooks reflete sobre a necessidade de promover uma responsabilidade recíproca pelo aprendizado. Ela e o filósofo Ron Scapp debatem sobre como vencer o medo que leva as alunas a resistirem a práticas pedagógicas libertadoras. hooks sugere que a mobilização das experiências pessoais é um poderoso catalisador desse processo. Por um lado, reconhecer nossas subjetividades desestabiliza a cisão artificial entre corpo e mente, aproximando-nos do que Donna Haraway define como saberes situados, ou seja, o reconhecimento de que todo conhecimento é produzido a partir de um lugar específico, recusando a ilusão de uma neutralidade universal e desincorporada. Por outro, permite que as estudantes tomem posse de uma base de conhecimento a partir da qual podem, finalmente, falar.

Contudo, o conhecimento experiencial, por seu potencial disruptivo, raramente é visto como algo legítimo na sala de aula. Cabe à professora, portanto, usar a sua voz e a sua autoridade para validá-lo. Mas, para isso, é preciso primeiramente abrir mão da segurança da máscara e do distanciamento do palanque. É necessário levar o corpo para dentro da sala de aula e utilizá-lo como instrumento pedagógico.

Algo que, para mim, era impensável antes da transição. Não apenas pelo medo de revelar o que eu mal ousava admitir para mim mesma, mas, principalmente, por sentir que não possuía nenhuma legitimidade para falar nem da perspectiva do homem cis-heteronormativo, nem da travesti lésbica. Era um duplo vínculo que me calava e me tornava colaboradora, ainda que involuntária, desse sistema opressor.

Transicionar, sob esta ótica, foi um ato de insurgência pedagógica. Não tinha mais o privilégio de negar o meu corpo, tampouco desejava fazê-lo. Precisava levá-lo, juntamente com todas as suas contradições e provocações, para a sala de aula. Trabalhar tanto com os seus limites como através e contra eles foi (e continua a ser) um longo processo de aprendizado pessoal, que faço questão de compartilhar com as minhas alunas. Pude, enfim, contar as minhas histórias e mostrar como a minha vivência estava entranhada no conhecimento matemático que simultaneamente as desafiava a dominar e as convidava a questionar. Mais do que isso, pude exemplificar como a matemática me ajudava a entender a minha vivência e como a minha vivência me ajudava a contextualizar a matemática.

Que este dia da Visibilidade Trans sirva como uma provocação para que todas nós, pessoas trans e também cis, consideremos como as nossas identidades nos atravessam em todos os nossos posicionamentos, seja na vida pessoal ou na profissional. As nossas experiências moldam o que sabemos e como sabemos. Que seja um lembrete constante de que todo conhecimento possui corpo, e todo corpo é território de conhecimento.

(A autora optou por manter a flexão de gênero no feminino plural, no lugar da linguagem não binária, em cumprimento à Lei 15.263/2025)

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