Digissexualidade: a nova forma de viver a sexualidade na era digital

Carla Cavalheiro Moura explica o conceito que descreve interações sexuais através de recursos digitais e seus possíveis impactos na vida social

 12/01/2026 - Publicado há 6 meses     Atualizado: 14/01/2026 às 10:27
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Fotomontagem mostrando um casal desfocado dividindo um pirulito, enquanto a mesma imagem aparece em destaque num celular em que uma terceira pessoa visualiza a cena
A chamada epidemia de solidão também contribui para o aumento dos relacionamentos digitais – Foto: senivpetro/Freepik
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Digissexualidade é um termo relativamente recente, ainda pouco conhecido por grande parte da população, que começou a ser utilizado por volta de 2016 e 2017. Ele surgiu a partir das mudanças observadas nos comportamentos digitais e do impacto cada vez mais evidente da tecnologia sobre a sexualidade humana.

De acordo com Carla Cavalheiro Moura, professora e pesquisadora do Ambulatório de Dependência Tecnológica do Instituto de Psiquiatria da Universidade de São Paulo, “a digissexualidade refere-se a situações em que o envolvimento sexual ocorre por meio da digitalidade, fazendo parte das chamadas interações sexuais mediadas pela tecnologia. A literatura especializada descreve a digissexualidade a partir de duas grandes ‘ondas’”. A primeira é conhecida como sexualidade mediada pela tecnologia e inclui práticas já bastante difundidas, como o consumo de pornografia on-line, o sexting e o uso de aplicativos de namoro, paquera e relacionamento. Nesse contexto, a tecnologia funciona como um meio de aproximação entre pessoas reais.

Já a segunda onda é denominada sexualidade simulada imersiva. Nela, a tecnologia deixa de ser apenas um meio e passa a ocupar o lugar central da experiência sexual, reduzindo ou até eliminando a troca direta entre pessoas. Exemplos dessa fase incluem a pornografia em realidade virtual ou aumentada, o uso de bonecas e robôs sexuais e os sextoys, que permitem interação tecnológica a distância.

Carla Cavalheiro Moura – Foto: Arquivo Pessoal/IEA

Essas duas ondas são fundamentais para compreender a dimensão que a sexualidade vem assumindo com a crescente digitalização da vida. A especialista alerta que “à medida que a pessoa se envolve de forma cada vez mais imersiva e simulada nessas experiências, pode acabar se afastando das interações reais, humanas e baseadas na troca afetiva. Afinal, a vida é feita de contato, compartilhamento de experiências, sentimentos, emoções, sensações e toque”.

Epidemia de solidão

Segundo a professora, a chamada epidemia de solidão também contribui para o aumento dos relacionamentos digitais. “As pessoas estão mais isoladas e se sentem mais sozinhas, enquanto a tecnologia oferece facilidade, amplo alcance e múltiplas possibilidades de interação. Esse cenário se intensificou especialmente após a pandemia, período marcado pelo distanciamento social, que, para alguns, foi vivenciado de forma tranquila e até positiva em determinados aspectos. Além disso, os avanços da inteligência artificial e da realidade virtual ampliaram significativamente a disponibilidade e a variedade de experiências digitais no campo da sexualidade. Como não existe um diagnóstico médico específico para a digissexualidade, o acompanhamento clínico é feito a partir de uma avaliação individualizada do paciente.”

De acordo com Carla, são observados fatores como perda de controle, sofrimento psíquico, prejuízos emocionais e funcionais em diferentes áreas da vida, como trabalho e relacionamentos. Quando a pessoa passa a priorizar exclusivamente a sexualidade mediada pela tecnologia e tem como único vínculo afetivo relações virtuais, surge um problema, pois aspectos fundamentais da vida humana acabam sendo negligenciados. “Somos seres sociais e carregamos, em nossa própria constituição, a necessidade de convivência, troca e interação com outras pessoas. Os efeitos negativos surgem justamente quando não há equilíbrio e a prática sexual passa a ocorrer apenas por meio da tecnologia.”

A professora acredita que esse perfil de relacionamento tende a crescer nos próximos anos e destaca a importância da conscientização. “O objetivo não é demonizar essas práticas, mas oferecer orientação e apoio às pessoas que vivenciam esse tipo de relação, incentivando uma postura crítica, consciente e regulada, capaz de identificar possíveis prejuízos e preservar a saúde emocional e social.”


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