
Certa vez, em uma mesa-redonda sobre a produção literária de Graciliano Ramos, o já falecido professor Alfredo Bosi se referiu à chamada “literatura de testemunho” como um tipo de escrita que “vive e elabora-se em uma zona de fronteira”. O testemunho se pretende verídico, casa a memória individual com a história coletiva. Mas, ao mesmo tempo, é um relato subjetivo, parecido com uma narrativa literária em primeira pessoa. Para o saudoso professor, essa dualidade era justamente a fonte de riqueza dessa literatura que, agora, o Núcleo de Estudos da Violência (NEV) da USP reconhece como fonte legítima de memória, engajamento político e produção de conhecimento, ao inaugurar seu Acervo Interno de Livros Escritos por Pessoas Atingidas pela Violência de Estado.
A coleção foi oficialmente inaugurada em agosto, com 75 títulos catalogados. Entre eles, 15 livros de memórias e autobiografias, 18 de autoria de mães e familiares de vítimas, 12 títulos que abordam a questão da violência dentro do sistema prisional e 15 que exploram as diferentes formas da violência de Estado nas cidades. Um deles, inclusive, foi lançado no próprio evento de inauguração do acervo. Trata-se de Quando arrancaram minhas asas, autobiografia de Helen Baum, sobrevivente do cárcere que hoje é mestranda em Ciências Humanas e Sociais na Universidade Federal do ABC (UFABC) e educadora no coletivo Memórias Carandiru.
Na ocasião do lançamento do acervo, Veridiana explicou que a busca por essa literatura de testemunho faz parte dos debates feitos pelos pesquisadores do NEV sobre a “injustiça epistêmica” que a academia comete ao valorizar alguns tipos de dados em detrimento de outros. Segundo a docente, apesar de o relato nem sempre ser uma fonte valorizada pelos pesquisadores nas ciências sociais, uma pessoa que sofreu violência de Estado, às vezes, pode ter até mais conhecimento sobre os mecanismos estatais que um cientista que está vendo o fenômeno do lado de fora.
Os títulos que compõem o novo acervo são obras raramente encontradas em bibliotecas “oficiais” e chegar até eles envolveu um amplo trabalho colaborativo. “Fizemos um levantamento, compra e recebimento de doações de livros escritos por pessoas atingidas pela violência de Estado”, diz a docente. A professora ressalta que a criação do acervo é também um exercício de governança científica, capaz de reconfigurar fronteiras do que é considerado “válido” dentro da academia.
Parte dos exemplares da coleção foi comprada pelo NEV, enquanto outra parte chegou por meio de doações. Os livros estão etiquetados de maneira a identificar as autorias por pessoas que foram afetadas pela violência de Estado, dentro ou fora da prisão, durante a ditadura militar de 1964 ou já no período democrático.
A pesquisadora de pós-doutorado Rosângela Teixeira, uma das organizadoras do acervo, destaca que foi durante seu doutorado que passou a identificar a existência de uma “literatura carcerária” no Brasil e no exterior. No Brasil, essa produção literária acompanha também a demanda por publicação. Tanto egressos quanto pessoas ainda em cumprimento de pena querem ver seus escritos publicados, mas esbarram em uma série de questões, inclusive jurídicas – está em julgamento no Supremo Tribunal Federal uma ação que questiona se pessoas presas podem divulgar livros, poesias e outros textos que produzem dentro do cárcere.
“Havia um grande número de obras produzidas por pessoas atingidas pela violência de Estado, especialmente pela prisão, que não estavam reunidas nem sistematizadas em um único lugar”, disse Rosângela. A nova seção do acervo interno do NEV, portanto, deverá também contribuir para sanar essa lacuna.

Apesar de o acervo interno não constituir uma biblioteca, estudantes e pesquisadores interessados podem consultar os livros nas dependências do NEV, na Cidade Universitária. Os títulos catalogados podem ser consultados no site do NEV. As consultas físicas podem ser agendadas escrevendo para o e-mail nevusp@gmail.com, identificando a mensagem com o assunto “Agendar visita no Acervo Interno”.
A equipe do NEV segue recebendo sugestões para a construção do Acervo Interno de Livros Escritos por Pessoas Atingidas pela Violência de Estado.
Com informações da equipe do NEV
























