Há 28 anos escrevi em um artigo na Folha o que pensava sobre o veronense Catulo, especificamente, acerca d’O Livro de Catulo. Uma tradução completa da obra do poeta realizada por João Angelo Oliva Neto, editada pela Edusp que apresentava uma publicação bilingue, algo ainda raro, porém menos do que antes.
O livro foi um sucesso editorial, no âmbito das letras greco-latinas em língua portuguesa do Brasil, e chegou a conquistar o prêmio de melhor tradução do ano pela Associação Paulista dos Críticos de Arte – APCA. Resultado: em pouco tempo, o livro esgotou. Restava ao público interessado, primeiramente, as fotocópias em papel, e, mais recentemente, os famigerados PDFs.
Hoje venho falar não do mesmo livro, mas de um livro absolutamente diferente, sendo o mesmo. Explico: a mesma editora num ato de ousadia encomendou a João Angelo a segunda edição dos mesmos 116 poemas e dois fragmentos. Explico: nos anos que sucederam ao esgotamento da primeira edição, o tradutor e professor da USP se dedicou a produzir uma segunda edição que possui 904 páginas, logo muito ampliada se contarmos as 278 da primeira.
A pergunta que nos podemos fazer: por que tamanha inflação? Como resposta proponho três questões fundamentais a serem refletidas: o poeta, a tradução e a edição.
Catulo é poeta enorme tanto na forma como no conteúdo. Nasceu em Verona e viveu em Roma na época de Júlio César, portanto no final da República, enfim, algo entre 87 – 54 a.C. Fazia parte de um grupo de poetas – e entre esses o melhor – chamados de poetas novos (poetae noui), ou como Cícero – orador e filósofo – os chamava pejorativamente em grego: os neóteroi, os mais novos, na verdade, jovenzinhos. Tais poetas se aplicaram numa nova tendência poética que diferia de maneira incisiva da poesia mais grave, séria, tendência poética cujo expoente era Ênio, um poeta circunspecto, sisudo, dado a valorizar a poesia épica, não que isso significasse um defeito. Catulo e seus colegas praticavam uma vertente poética helenística cujos expoentes eram Calímaco de Cirene e Teócrito de Rodes. Poetas e bibliotecários.
Na verdade, em Roma à época, não havia uma poesia lírica ou jâmbica próxima daquilo que alguns poetas arcaicos gregos e helenísticos já tinham produzido. A poesia invectiva e a poesia amorosa não estavam no cânone romano, não faziam parte do “cardápio”. O que nos resta de Catulo é suficiente para dizer que seu ecletismo genérico (dos gêneros poéticos) é impressionante. Sai da mais alta sublimidade e cai na mais ríspida troça. O referente mais interessante nesse sentido, dizem respeito à sua “musa”, que nada mais é do que sua “amada”, sua “poesia”, Lésbia. Ela é alvo do mais sublime louvor, mas também do mais duro vilipêndio:
Vamos viver, Lésbia, vamos amar,
E os rumores dos velhos mais severos,
todos!, não valham mais que nada. Sóis
podem morrer e renascer, mas nós
quando se põe a nossa breve luz,
uma só noite, eterna, dormiremos.
Mil beijos dá e então mais cem, me dá
depois mais mil, mais outros cem depois,
depois mais outros mil e após mais cem,
depois ao completar muitos milhares,
vamos perder a conta, confundir,
porque malvado algum possa invejar
se de muitos souber, de tantos beijos. (poema 5)
Parece claro que duas questões se impõem, a primeira diz respeito aos “velhos mais severos”, acredito e muitos assim como eu mesmo que esses severos são aqueles a que Cícero teria oposto os neóteroi, os poetae noui. Em segundo lugar, Lésbia, sua amada, musa, sua poesia. É curioso que seu nome remeta à ilha de Lesbos, donde veio a famosa Safo, poeta mulher, produtora de poesia. Disso podemos inferir que Lésbia é a própria poesia personificada, poesia mulher, parte da poesia de Catulo.
Mas falávamos do caminho do sublime ao rebaixamento, percurso que o poeta segue, muita vez. Se observarmos uma outra referência à Lésbia, observaremos esse contraste:
Célio, a minha Lésbia, Lésbia, aquela,
aquela Lésbia só a que Catulo
mais do que a si amou, mais do que aos seus,
hoje em becos costuma, e nas esquinas,
filhos de Remo descascar magnânimos. (poema 58)
A referência ao poema anterior é óbvia. Afinal quanto amor está lá inscrito. Para o leitor contemporâneo, os dois últimos versos soam enigmáticos, até estranhos. Talvez “becos” e “esquinas” sugiram algo ainda comum hoje em dia, mas o verbo “descascar” a que se refere? Felação, sexo oral? Sim, é o que parece ser o verbo latino tem significação decifrada em sua onomatopeia: “glubit”, o que redunda numa amplificação tremenda: filhos magnânimos de Remo, segundo a lenda… Todos os romanos.
O transpasso do louvor ao vitupério – aristotelicamente, possiblidades do discurso epidítico ou demonstrativo –, é referência metalinguística. Se Lésbia está com todos os romanos, ela não se rebaixa, ao contrário, ela se eleva, é a poesia a que todos conhecem.
Mas O Livro de Catulo tem muito mais. Na verdade, ele possui três seções: a primeira as ninharias (nugae), a que João Angelo traduziu o latim pelo latim, nugas, pequenos poemas da vida cotidiana: amor, deleite, prazer, raiva, amizade, graça… coisas do dia-a-dia postos diante de nós mais de dois mil anos depois. Parece-me a Roma vista poética e arqueologicamente. A segunda consta de poemas matrimoniais, longos poemas, alguns inclusive hexamétricos, o metro da épica, como no epílio (pequena épica) das bodas de Tétis e Peleu, que segundo a antecedência cronológico-mítica, seria o momento anterior ao nascimento de Aquiles, logo o verdadeiro ponto de partida da saga de Ílion, afinal a epopeia trata da Ira do filho de Peleu.
O terceiro e último momento do livro é a coleção de poemas em dísticos elegíacos, uma estrofe de dois versos com medidas regularmente diversas. Poemas que parelham o lamento e o erótico. Digamos, é do amor malfadado que a elegia romana trata. Nesta seção o estudioso-tradutor, creio, ganha relevo tanto na forma quanto no conteúdo. O poema 65 neste caso é uma preciosidade em latim ou no excelente português de Oliva Neto. Um dístico desta seção resume a crucificação do poeta de amor:
Odeio e amo. “Como, pois?” talvez perguntes.
Não sei. Sinto ocorrer e crucifico-me. (poema 85)
Passo agora ao magistral trabalho editorial. Poucas vezes pude ter contato com semelhante edição. O livro é feito em hard back. Suas imagens têm significação e importância diante do conteúdo escrito. A cor das páginas matizadas entre poemas e traduções e notas, as seções precisas e inteligentes, uma bibliografia exaustiva e raramente acatada pelas casas editoriais tornam o conjunto mais importante ainda.
Por fim, João Angelo, ao rever seu trabalho de tradução, que era antes dedicado ao make it new, da cepa de Pound e Eliot, afora, dos concretos brasileiros, radicaliza, pois que abandona aquela vanguarda e assume sua vocação filológica e histórica. O produto contribui para intelecção daqueles que não conhecem o latim. O tradutor assume radicalmente a função de operar dois níveis de significação equivalentes, não fazendo uma interpretação, muita vez, anacrônica, portanto, assumindo a historicidade do texto. Oliva Neto hoje é um tradutor maduro e um filólogo importante. Muitos poucos, talvez nenhum, pudesse nos oferecer uma obra tão bem acabada. Seu percurso editorial comprova, sua atuação acadêmica igualmente. Restam-nos, leitores de Catulo, o deleite e o aprendizado. Estamos diante do dulce et utile horaciano. Isto é, o que é doce e agrada e o que útil e convence.
Diria Pessoa, “sentir, sinta quem lê”.
(Publicado originalmente no jornal Folha de S. Paulo.)
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