
A aparência atraente das flores é fundamental como mecanismo de sobrevivência. Por isso, na primavera a paisagem se transforma num cenário deslumbrante, atrativo não apenas aos nossos olhos, mas a uma enorme variedade de polinizadores como abelhas, borboletas, pássaros e morcegos que performam a verdadeira orquestra da vida.
A primavera é a estação dos poetas. Para os antigos povos indígenas é a estação do despertar, que traz clareza, quando se deve romper velhos padrões, renovar propósitos, ter esperança e se preparar para um novo ciclo, com mais equilíbrio. Traz consigo temperaturas mais agradáveis e dias mais longos possibilitando oportunidades perfeitas para se desfrutar da natureza ao ar livre e recarregar energias. A primavera é um convite da natureza para se admirar a beleza das flores e se deixar inspirar pela sua vitalidade, pelos sons e pelos aromas exalados.
Esses adornos da natureza chamam a nossa atenção ora pela beleza e exuberância, ora pela delicadeza do formato e textura das pétalas e folhas, ora pelas cores vibrantes, ora pelo cheiro exalado… O fato é que ao olhar, cheirar e manipular uma planta estamos estimulando os nossos sentidos. Cada uma dessas características da planta é captada por sensores presentes no nosso corpo. Por exemplo, quando passamos os dedos na folha de uma planta, as suas rugas deformam a pele dos nossos dedos (estímulo mecânico) fazendo com que os sensores de tato ali presentes gerem sinais; de forma semelhante, quando cheiramos uma flor, as moléculas presentes no seu aroma se ligam e estimulam os sensores olfativos localizados na nossa cavidade nasal e geram sinais. O mesmo acontece em relação à beleza visual quando as ondas eletromagnéticas da luz estimulam a nossa retina.
Os sensores estão conectados a circuitos neurais sensoriais especializados (como os sistemas visual, olfativo e tátil). Os circuitos neurais correspondem a uma sequência de neurônios que formam um caminho por onde passam as informações sensoriais geradas nos sensores, sendo que ao longo desse caminho ocorre a liberação de substâncias (neurotransmissores) utilizadas na comunicação entre os neurônios. Isso vai acontecendo até os sinais chegarem a uma região do cérebro que integra essas informações sensoriais e trazem para a nossa consciência que tipo de estímulo é aquele. É dessa forma que conseguimos perceber o ambiente em que estamos, sentir o cheiro da flor, a maciez, a umidade e a temperatura da terra, notar o formato e as cores das folhas e flores, e assim por diante.
Mas não para por aí. As flores roubam a cena captando a nossa atenção e, num piscar de olhos, temos sensações muito agradáveis e prazerosas e uma vontade enorme de contemplá-las. Isso acontece porque os estímulos sensoriais – além de percorrerem os circuitos sensoriais que permitem identificar que estamos vendo, tocando e cheirando uma flor – acionam outros circuitos neurais como o circuito límbico localizado na região mais central do cérebro. Lá os estímulos sensoriais instigam emoções, formação de memórias, regulam várias funções do organismo, regulam nosso comportamento e a forma como interagimos com as pessoas e com o meio ambiente. O circuito límbico também interage com o circuito de recompensa que nos faz ter vontade de fazer coisas e interagir com as pessoas.
O circuito límbico é altamente estimulado no contato com a natureza quando admiramos um campo florido e quando cuidamos de plantas, por exemplo. Ele produz substâncias como a endorfina, a serotonina e a dopamina (neurotransmissores) que provocam a sensação de prazer, de felicidade, de alegria e a sensação generalizada de bem-estar, além de elevar o alto astral, melhorar o humor, diminuir a ansiedade e aumentar a motivação. Por isso, apesar de estarmos constantemente recebendo diversas informações sensoriais, não damos a mesma importância a todas elas, mas àquelas que o nosso cérebro coloca no seu enfoque.
Esse efeito no estado mental causado pela liberação de substâncias no circuito límbico após alguns minutos pode reduzir os níveis de estresse promovendo relaxamento e a regulação de funções fisiológicas. O efeito calmante pode estar associado à regulação neural e neuroendócrina da glândula supra-renal com diminuição dos níveis de adrenalina, de noradrenalina e de cortisol (considerado o hormônio que modula a resposta ao estresse); e consequente redução da frequência cardíaca, dos sintomas de ansiedade e de depressão.
Uma revisão sistemática publicada em 2024 na revista científica Exploration of Neuroprotective Therapy aponta os potenciais benefícios da jardinagem para a saúde do cérebro. Além de aliviar o estresse, o contato com as plantas pode promover habilidades cognitivas como atenção, concentração, foco, memória, aumento da estabilidade emocional e produção de emoções positivas. Vários estudos incluídos nessa revisão apontam que cuidar de plantas ou a prática da jardinagem promovem saúde psicológica, melhora geral na saúde e funcionamento do cérebro e mais satisfação com a vida e conexão social, sendo que um estudo demonstrou que a prática regular de jardinagem tem potenciais benefícios à saúde como uma atividade física associada a exercícios aeróbicos e musculação.
Mecanismo neural chamado neuroplasticidade
O nosso cérebro é muito flexível e dinâmico graças ao mecanismo chamado neuroplasticidade que permite aos neurônios formarem novas conexões ao longo da vida. A neuroplasticidade representa a capacidade do cérebro de aprender coisas novas, adaptar-se, reorganizar-se e moldar-se a novas situações, influenciada pelos estímulos, emoções e experiências do dia a dia – como, por exemplo apreciar um ipê, cuidar de plantas, ler um livro ou praticar atividade física.
Além dos efeitos sensoriais, emocionais e motivacionais que ela propicia, podemos olhar a prática da jardinagem como uma atividade física. Há evidências de que a jardinagem provoque o aumento da produção da proteína BDNF (brain derived neurotrophic fator) pelo cérebro em 20 minutos de prática, o que seria equivalente a uma atividade física leve ou moderada. O BDNF é fundamental para a saúde do neurônio e para a neuroplasticidade. Ele funciona como um mecanismo regulatório importante para a ativação da proliferação, crescimento e funcionamento dos neurônios, e formação de novas conectividades que promovem melhora na função cognitiva como a memória e podem reduzir os riscos de demência. Portanto, o BDNF exerce um efeito neuroprotetor que traz benefícios à saúde do cérebro.
Há evidências, também, de que a jardinagem tem potencial para promover a neuroplasticidade e estimular as conectividades cerebrais associadas com benefícios cognitivos e emocionais. Registros de atividade elétrica mostram aumento da atividade neural em áreas frontais do cérebro, o que favorece o aumento da atenção e concentração e resulta em melhora das funções cognitivas executivas como o planejamento e a habilidade de organização. Por outro lado, as experiências sensoriais como tocar o solo e a planta, olhar a beleza e sentir o seu cheiro também estimulam a neuroplasticidade e são importantes, sobretudo, para a formação de memórias sensoriais, memórias afetivas e memórias associadas à recompensa. Inclusive, é bem estabelecido na literatura que o treinamento olfativo, por exemplo, pode melhorar a conectividade entre estruturas olfativas e áreas de processamento de memória, favorecendo o aumento da cognição global.
Por essas razões e inúmeras outras, contemplar a natureza ao nosso redor ou cuidar de plantas como uma prática consciente e regular no nosso cotidiano pode ser uma ferramenta poderosa na promoção do bem-estar mental e físico, podendo ter um impacto positivo e direto na redução do estresse da vida moderna através dos efeitos no cérebro, na fisiologia e no equilíbrio do sistema imunológico para a prevenção de doenças, além de poder encorajar a criatividade, estimular os nossos sentidos e inspirar novas ideias. Essa ferramenta pode propiciar uma melhora transformativa na qualidade de vida.
Que “Sejamos como a primavera que renasce cada dia mais bela…Exatamente porque nunca são as mesmas flores” (a citação é atribuída a Clarice Lispector, mas não há fontes que confirmem essa autoria).
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