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Lista de aves de São Paulo ganha novas espécies e pode ajudar na conservação
Nova edição traz informações sobre as mais de 860 espécies presentes no Estado; São Paulo tem 40% da diversidade de aves descrita, mas também é onde há mais espécies extintas e ameaçadas
A lista atual inclui um total de 863 espécies de aves – Foto: Luís Fábio Silveira
Você sabe quais as aves podem ser avistadas em São Paulo? Uma lista de todas elas foi atualizada por pesquisadores da USP, do Instituto de Pesquisas Ambientais e da Universidade Estadual Paulista (Unesp). A nova edição cataloga todas as 863 espécies, abrangendo 31 ordens e 93 famílias, e indica o registro de referência para cada uma delas. Além disso, a publicação coloca 125 espécies ameaçadas de extinção e 20 que já são consideradas regionalmente extintas. A partir da atualização, o estudo pode ajudar a desenvolver políticas de conservação. O Estado de São Paulo é hábitat de até 40% das espécies brasileiras, mas também o que tem mais espécies extintas e ameaçadas.
Um catálogo parecido foi publicado em 2011, mas a sua revisão foi necessária porque o material não incluiu outras espécies registradas ao longo do tempo. Em comparação com o trabalho anterior, o estudo, publicado na revista Papéis Avulsos de Zoologia, acrescenta 76 novas espécies e subespécies. Os pesquisadores também reavaliaram as que estavam descritas nas listas anteriores.
O trabalho é um dos pioneiros a reunir as espécies e subespécies – subgrupos com características ligeiramente diferentes dentro das espécies. Segundo Luís Fábio Silveira, curador da Seção de Aves do Museu de Zoologia (MZ) da USP e um dos autores, a presença de subespécies refina o nível de análises.
Luís Fábio Silveira – Foto: Paulo Sérgio Moreira da Fonseca
Stephanie Lee, mestranda do Instituto de Biociências (IB) da USP e primeira autora do artigo, diz que o trabalho integra o princípio de “conhecer para proteger”, ou seja, é o ponto de partida para que as demais ações de pesquisa e de conservação sejam efetivas.
A necessidade da nova lista surgiu graças a outra pesquisa. Em sua dissertação de mestrado, Lee estudou o risco de extinção das aves criticamente ameaçadas no Estado. Segundo ela, a lista é fundamental para que os pesquisadores tenham certeza de que seus trabalhos contemplam o todo.
“Sabendo disso, podemos reunir dados e mais conhecimentos para que todas as espécies que ocorrem no Estado de São Paulo sejam contempladas na análise do risco de extinção e que elas possam entrar, junto com as outras espécies, nas medidas de conservação” – Stephanie Lee
Stephanie Jin Lee – Foto: Acervo pessoal
Biodiversidade paulista
A diversidade de tipos de vegetação (Cerrado e Mata Atlântica) e de clima faz com que o Estado de São Paulo abrigue cerca de 40% das espécies de aves do País. Mas a perda de hábitat é a principal causa de ameaça à extinção. Por ser também o Estado mais populoso, São Paulo é muito explorado e, com o tempo, os ambientes naturais foram desaparecendo.
“São Paulo tem um número muito grande de aves, que chega a quase metade das espécies do País todo. Por outro lado, é o Estado que tem o maior número de espécies extintas e ameaçadas de extinção no País” – Luís Fábio Silveira
Segundo a pesquisadora, o Cerrado conta, atualmente, com apenas 3% de remanescentes naturais. “Muitos dos bichos que estão ameaçados no Estado de São Paulo são justamente os que dependem desse ambiente”, completa.
O Estado de São Paulo apresenta o Cerrado e a Mata Atlântica biomas – Foto: Retirada do artigo
Desenvolvimento
Uma das bases para o desenvolvimento da nova lista foi a revisão dos registros ornitológicos e da publicação de 2011. Além disso, bancos de dados e coleções de museus foram acessados. “Foi um pente-fino por bastante tempo para conferir todas as espécies e subespécies que ocorrem em São Paulo”, explica Lee.
Segundo a pesquisadora, algumas espécies extintas no Estado têm apenas registros muito antigos: algumas das amostras de peles são do século 19, por exemplo. “Johann Natterer, um naturalista austríaco, veio para o Brasil após a chegada da Família Real, coletou espécimes em São Paulo e os levou para a Europa. Algumas das peles de aves do Estado só se encontram no Museu de História Natural de Viena”, explica.
As espécies estão divididas entre lista primária, secundária e terciária, de acordo com a metodologia do Comitê Brasileiro de Registros Ornitológicos. A lista primária confere o maior grau de confiabilidade, contemplando registros documentados e verificáveis independentemente, enquanto a lista terciária se refere a registros que foram descartados.
Espécies coletadas em São Paulo são parte do acervo do Museu de História Natural de Viena – Foto: Reprodução do artigo
Conservação e ameaças
A pesquisadora explica que o estudo pode contribuir significativamente para a conservação, porque a partir dela é possível garantir que todas as espécies sejam levadas em consideração. “Se a gente não sabe que determinada espécie ocorre aqui em São Paulo, como ela vai ser avaliada na lista de fauna ameaçada do Estado?”, destaca.
“O trabalho que a Stephanie liderou, além de ser importante por si só, por organizar o conhecimento de um grupo de animais muito popular, também é importante porque ele dá um passo seguro para a elaboração de políticas públicas de conservação no Estado”, explica Silveira.
Segundo a lista de fauna ameaçada do Estado de São Paulo, publicada em 2018 pelo Decreto Estadual n° 63.853, 125, espécies estão ameaçadas e 20 já são consideradas regionalmente extintas.
Lee aponta que essa lista já se encontra desatualizada e que o governo do Estado trabalha para lançar uma nova versão. Ela complementa apontando que muitos dos animais que são considerados criticamente ameaçados provavelmente já desapareceram.
20 espécies são consideradas regionalmente extintas em São Paulo – Foto: Luís Fábio Silveira
O artigo Updated checklist of the birds of São Paulo State, Brazil está disponível neste link.
Mais informações: stephanielee@usp.br, com Stephanie Jin Lee, e lfs@usp.br, Luís Fábio Silveira
*Estagiária sob orientação de Fabiana Mariz
**Estagiário sob orientação de Moisés Dorado
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