A professora Raquel Rolnik, que é urbanista, desta vez se desvia um pouco dos temas habituais de suas colunas para focar no protagonismo que o Poder Judiciário tem assumido como garantidor da ordem democrática do País, e isso tanto em nível federal quanto municipal, o que, para ela, não deixa de ser surpreendente, visto que a colunista entende ser o Judiciário, historicamente, um dos Poderes mais conservadores e aristocráticos da República. Pois bem, em relação ao papel que o Judiciário tem cumprido para o bom funcionamento da democracia, o Tribunal de Justiça de São Paulo acaba de determinar que a CPI, cuja função é examinar as fraudes na produção de habitação de interesse social na cidade de São Paulo, seja imediatamente instalada. “Depois de meses e meses de manobras por parte da mesa diretora da Câmara, tentando impedir a instalação dessa CPI, quando esse escândalo, a gente já viu na imprensa, já viu ação do Ministério Público, enfim, a pauta já estava colocada, mas havia uma resistência enorme por parte da mesa diretora, da bancada do governo, não querendo que essa CPI, e também outra CPI, do Jardim Pantanal, fosse instalada.”
A verdade é que houve a necessidade de uma ordem judicial para a instalação dessa CPI, fruto de uma intervenção mobilizada pelos próprios vereadores de oposição. A pergunta que resta é a seguinte: por que tanta relutância do governo municipal na instalação dessa CPI? “Pois é, essa é a pergunta que não quer calar, tanto essa CPI, que, sem dúvida nenhuma, é a que mais chamou atenção, se constituindo numa agenda política importante da cidade, como a CPI do Jardim Pantanal, o governo não quer, de jeito nenhum, que se instale a CPI e que se coloque foco sobre uma política que provavelmente deve desgastar bastante a imagem do atual governo, num contexto aonde se imagina que, caso o atual governador Tarcísio seja efetivamente o candidato à Presidência da República, o atual prefeito, Ricardo Nunes, já está se colocando no cenário como candidato a governador, e tudo que ele não quer é uma pauta que possa colocar a sua gestão e os seus feitos sob algum tipo de suspeição ou incompetência, enfim, responsabilidade em relação a um comportamento fraudulento é tudo o que o prefeito não quer; agora, em nome desses projetos políticos eleitorais, simplesmente o funcionamento normal da ordem democrática da cidade é impedido”, comenta a professora Raquel Rolnik.
Cidade para Todos
A coluna Cidade para Todos, com a professora Raquel Rolnik, vai ao ar quinzenalmente quinta-feira às 8h30, na Rádio USP (São Paulo 93,7; Ribeirão Preto 107,9) e também no Youtube, com produção da Rádio USP, Jornal da USP e TV USP.
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