O silêncio acerca de Aline Bei

Por Matheus Cosmo, doutorando da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP

 30/07/2025 - Publicado há 8 meses
Matheus Cosmo – Foto: Arquivo pessoal

 

o cotidiano das pessoas com quem dividimos o teto nos garante que não erramos de vida, que ainda existimos dentro do que somos, que não estamos abandonados ao desconhecido. quando Margarida escuta a mãe rezar, por exemplo, isso a acalma, pois enquanto puder ouvi-la terá uma identidade, não estará sozinha.
— Aline Bei

Há pouco mais de dois meses, em 24 de maio de 2025, a Folha de S.Paulo publicou uma lista com os ditos melhores livros brasileiros de literatura do século 21. Desfazendo um tanto do silêncio histórico acerca de obras produzidas por mulheres, bem como da integração de escritoras ao já bastante problematizado cânone literário, Ana Maria Gonçalves, Conceição Evaristo, Ana Martins Marques, Angélica Freitas e Natalia Borges Polesso foram apenas algumas das oito autoras citadas pelo periódico em sua listagem, na qual imperam títulos e edições da Companhia das Letras.

É certo que muitas outras mulheres também poderiam entrar nesta lista: Socorro Acioli, Eliana Alves Cruz, Noemi Jaffe, Bruna Dantas Lobato, Luiza Romão e Giovana Madalosso são apenas alguns dos vários nomes que poderiam ser facilmente lembrados. Quase todas elas, inclusive, também publicadas pela Companhia das Letras, que parece mesmo possuir certo domínio das produções nacionais em prosa, principalmente. O objetivo aqui, contudo, não será o de alargar a listagem – a despeito do compromisso ético que reside nesta empreitada, com a abertura de espaços e discussões a novas vozes e editoras, sem deixar de lado toda a problematização acerca dos supostos critérios estéticos de qualidade que embasam todo ranking e ímpeto classificatório –, mas pensar um dilema específico deixado pela Folha de S.Paulo: em qual de suas gavetas e prateleiras estará escondida a obra de Aline Bei?

Para além de qualquer predileção individual de leitura, não se pode deixar de reconhecer: a escritora é um fenômeno da atualidade. Com mais de 90 mil seguidores em seu Instagram, Aline Bei tem lotado livrarias nos mais diversos estados e eventos nacionais, especialmente nos últimos meses, por ocasião do lançamento de seu novo livro, Uma delicada coleção de ausências. É claro que redes sociais e eventos públicos e privados não devem ser termômetros para a qualidade ou não de uma obra, muito menos para sua incorporação em discursos hegemônicos e territórios já colonizados pelo mercado editorial. Contudo, o ânimo, o entusiasmo e o prazer dos leitores no contato com os textos de Aline, especialmente em um país que perdeu cerca de sete milhões de leitores apenas nos últimos quatro anos, dão a qualquer crítico literário minimamente interessado material para se pensar. Afinal, que fervor é esse causado por uma autora publicada há exatos oito anos no mercado brasileiro? Como uma tão jovem autora é capaz de mobilizar um número tão vasto de leitores, dispostos a aguardar por muitas e muitas horas em filas de autógrafos?

Se O peso do pássaro morto, publicado originalmente em 2017 pela Editora Nós e agora republicado pela Companhia das Letras, vencedor do Prêmio São Paulo de Literatura e o Prêmio Toca, e Pequena coreografia do adeus, publicado em 2021 e finalista dos Prêmios Jabuti e São Paulo de Literatura, possibilitaram à escritora a conquista de uma voz e de um lugar genuínos na literatura nacional, com suas personagens majoritariamente femininas, eternamente em busca de uma casa em contextos e famílias nos quais esse encontro beira o impossível, Uma delicada coleção de ausências chega para se somar à tamanha qualidade literária, mas com dois diferentes registros: a predominância do recurso descritivo e a narração em terceira pessoa.

O que pode parecer mero recurso formal a um leitor comum deve ser, na verdade, o centro principal das preocupações críticas, uma vez que é na forma que se encontra o princípio de toda e qualquer discussão sobre as obras. Se as pausas e os estilhaços de frases dos primeiros livros pareciam apontar para um contexto de relações fragmentadas, permeadas por violências que impossibilitavam a própria organização discursiva, a tentativa de ordenação dos silêncios e espaços das páginas no terceiro dos livros não pode deixar que o leitor se engane: em Uma delicada coleção de ausências, a violência e a desordem ainda continuam, mas agora dadas ao leitor por meio de um narrador extremamente atento aos acontecimentos, os quais encharcam as páginas da obra de lágrimas, sangue e retalhos de um vestido preso no vidro da janela do banheiro.

Talvez seja possível observar nos textos da autora um tanto daquilo que a crítica literária classificaria como um romance de formação. Todavia, justamente porque escrito em contexto brasileiro, de extrema violência e misoginia, o resultado da empreitada de Aline aponta justamente para o contrário da esperada formação de um herói: aqui, abrem-se as portas a sujeitos que não se formam, cujos processos de vida são acumulações diversas de traumas, lutos e dores, mas cujo registro só se faz possível pela clareza de imagens em tudo poéticas, força máxima da prosa de Aline Bei. A menina que corre na última das cenas de Delicada… lembra um tanto do desejo de fuga e libertação que é comum em personagens femininas da literatura moderna.

Para ficar com apenas um exemplo, caro à trajetória da autora, também formada em Artes Cênicas, bastaria lembrar-se de Nora, em Casa de bonecas, de Henrik Ibsen. Também aqui, a saída de casa é um imperativo que, de acordo com alguns críticos, dá início ao que seria a formalização do teatro e das tragédias modernas. A vida que se abre após a fuga é o mistério da banalização das existências, da vulgarização de todas as coisas e da solidão absoluta, já sabida de antemão por Aline em sua precisa dedicatória: “Aos que existem sozinhos”.

Por esse motivo, não é de se espantar que as obras da autora encantem tanto as mulheres, principalmente. A partir das marcas de dores, cortes e traumas das personagens, a identificação proporcionada pela leitura das páginas de cada um dos livros deve ser objeto atual de estudo não só da área de letras, mas também de toda a área de humanidades, uma vez que parece apontar para algo acerca do processo de formação da própria categoria mulheres, ora como reflexo mediado de uma realidade excludente, ora como sintoma de uma angústia que não se nomeia, mas se vive e perpetua nos acordos silenciosos marcados pelo medo e pela falta de reconhecimento, principalmente dentro dos espaços aos quais se esperaria pertencer, de alguma forma – casa, escola e família, por exemplo.

Justamente por esse motivo, é preciso que haja na crítica literária e nas produções sociais contemporâneas um interesse genuíno por Aline Bei – e também por outras e muitas escritoras. É fundamental a análise das obras em grande circulação popular, a fim de ser possível restaurar alguma possibilidade de diálogo entre as classes populares, o ensino básico e a inteligência universitária. Por sorte, neste caso, como as obras de Aline estão organizadas por imagens altamente poéticas e por uma atenta e aguda sensibilidade que atravessa cada uma das páginas e termos, a leitura torna-se não apenas obrigação de trabalho crítico, mas também fonte de prazer em acompanhar e ver refletidas, em figurações estéticas, as duras vivências de um tempo histórico. Não há sociedade possível sem o reconhecimento das violências estruturais que ainda atravessam e fundam seus integrantes. Enxergar as formas de reprodução e manutenção do sofrimento é um primeiro ato de resistência à desordem contemporânea, a qual Aline nos permite enxergar.

No mesmo dia em que a Folha publicou sua listagem com as ditas melhores obras deste século, Walnice Nogueira Galvão, grande Professora Emérita desta Universidade, publicou também sua resposta: Conteúdo predomina sobre a forma na literatura brasileira de hoje. Tomando como um dos pilares de seu texto a completa ausência de determinados temas e discussões na lista, a docente se questiona: será que não há autores discutindo certas temáticas? Felizmente, é possível afirmar que, sim, esses autores existem. São autoras, na grande maioria dos casos. O que realmente falta, por vezes, é o interesse da crítica e da mídia em abrir espaço para outras e novas vozes, para além dos combinados editoriais e das implícitas políticas ocultas de privilégio de gênero, raça e classe.

Vale dizer: ignorar a produção de Aline Bei é não se dar conta de uma das maiores experimentações literárias da atualidade nacional, que se dá antes de tudo pela reinvenção da própria forma de escrita, pela disposição das letras, dos sons e silêncios no próprio espaço da folha. As ausências figuradas por Aline em sua nova obra são a marcada presença absoluta daquilo que dificilmente alguém saberia nomear, mas que resta no sujeito e insiste em produzir sintoma, lembrança e vida. Trata-se mesmo de um delicado essencial.

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