No 1° Congresso Internacional de Emissoras Públicas, profissionais de organizações de serviço público do Brasil, da Alemanha e dos Estados Unidos analisaram a atuação das instituições para combater a circulação de desinformação no ecossistema midiático e promover a democracia.
O programa reúne comentários de jornalistas que participaram do primeiro painel, mediado pelo professor Marcelo Kischinhevsky, diretor do Núcleo de Rádio e TV da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Kischinhevsky ressaltou que a radiodifusão pública tem sido alvo de ataques por parte de políticos de vocação autoritária. Apesar dos avanços e retrocessos, “cresce a percepção da comunicação como um direito humano essencial para a saúde da democracia como advoga a Unesco”, avaliou o professor da UFRJ.
A Associação de Empresas Públicas de Radiodifusão da República Federal da Alemanha (ARD), uma das maiores organizações de serviço público da Europa, tem buscado mais proximidade com o público e reforçado a política de transparência no processo de apuração jornalística. Anne Herrberg, correspondente da ARD na América Latina, contou que a instituição pública criou novos formatos para abordar o trabalho jornalístico.
“Uma parte muito importante que tentamos fazer, justamente pelos ataques que a ARD está recebendo e [porque] a confiança dos telespectadores e ouvintes na ARD está diminuindo, é de buscar mais diálogo com a audiência e de ter mais formatos para falar como a gente faz nosso trabalho e como a gente busca os fatos [que publica] e por que a gente chegou a essa conclusão”, disse a jornalista.
A radiodifusão pública norte-americana enfrenta desafios semelhantes. O editor público da Public Broadcasting Service (PBS) dos Estados Unidos, Ricardo Sandoval-Palos, comentou as acusações de republicanos de que a emissora supostamente privilegiam perspectivas de esquerda, e as ameaças de corte de verbas se intensificaram com o retorno de Donald Trump à Casa Branca.
“Como vamos combater [as ameaças]? Exatamente como temos lutado contra esse mundo de desinformação, informação falsa e fake news: com a verdade. É nos dedicando a uma apuração equilibrada para criar um ambiente em que todos possam expor suas opiniões e seus pontos de vista”, falou Sandoval-Palos em espanhol.
A declaração do editor público da PBS foi gravada semanas antes de o congresso dos Estados Unidos aprovar, em 18 de julho, uma solicitação de Trump que acaba com os repasses de verbas do orçamento federal para a Corporation for Public Broadcasting (CPB). O corte aprovado coloca em risco a sobrevivência de diversas emissoras públicas locais, especialmente em áreas rurais.
O diretor de redação da BBC Brasil em Londres, Caio Quero, argumentou que imparcialidade e equilíbrio são conceitos fundamentais que devem permear toda a informação publicada pelas organizações de serviço público.
“Imparcialidade também não é só o outro lado. É refletir os debates de modo honesto e mostrar também as limitações, o que eu sei e o que eu não sei, até onde eu fui e não fui. É levar para o público que é nosso patrão, digamos assim, a sociedade, onde a gente quer chegar, o nosso compromisso de estar refletindo de modo honesto e equilibrado os debates e as questões relevantes da sociedade e deixar isso claro. Deixar ser transparente”, pontuou Quero.
No Brasil, os esforços da Empresa Brasil de Comunicação (EBC) têm se concentrado na reconstrução dos instrumentos de comunicação pública e na restauração da participação social na gestão da empresa, afirmou o diretor-presidente Jean Lima. Ele também mencionou a expansão da Rede Nacional de Comunicação Pública (RNCP), que engloba emissoras de rádio e televisão de universidades públicas e institutos federais.
“[A expansão da RNCP] é uma sinalização de que a parceria com as universidades tende não só a ter mais alcance do ponto de vista do interior do país, mas também a sua relação com a educação, com a pesquisa, como uma forma de a gente estruturar um sistema que vincula a educação e a informação com a comunicação pública”, concluiu Jean Lima.
Para Eneas Carlos Pereira, então diretor de programação da TV Cultura, a distinção entre as programações de televisões públicas e redes comerciais está na oferta de conteúdo de educação e cultura, que se desvincula da lógica do mercado. “Nós estamos lidando com bem de espírito, com a formação de cidadãos. A gente não está lidando com bem de mercado”, enfatizou.
O 1º Congresso Internacional de Emissoras Públicas, que ocorreu na USP nos dias 21 e 22 de maio no campus do Butantã, foi realizado com o apoio da Rede de Rádios Universitárias do Brasil (Rubra) e da Fundação Padre Anchieta, mantenedora da Rádio e da TV Cultura de São Paulo.
Sugestão de vídeos e leituras sobre o tema:
1º Congresso Internacional de Emissoras Públicas.
Gravação do evento no site da USP
Jornal da USP
Cobertura especial sobre o congresso
Serviço Público de Radiodifusão: um estudo de direito comparado
Toby Mendel, Unesco, 2011
“Public broadcasting: why? how?”
Conseil Mondial de La Radiotélévision, Unesco, 2001
Universo das Emissoras Públicas
O Universo das Emissoras Públicas vai ao ar quinzenalmente às sextas-feiras, às 17h, pela Rádio USP FM 93,7Mhz (São Paulo) e Rádio USP FM 107,9 (Ribeirão Preto). As edições do programa estão disponibilizadas nos podcasts do Jornal da USP (jornal.usp.br) e nos agregadores de áudio como Spotify, iTunes e Deezer.
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