Intelectuais e lideranças indígenas se encontram em evento que articula a psicanálise com o Bem Viver

Iniciativa acompanhará a defesa de mestrado da psicanalista Heloiza Abdalla com um encontro cultural na sexta e uma caminhada ritual pelo centro de São Paulo no domingo

 03/07/2025 - Publicado há 10 meses
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Muitas pessoas se sentam no chão gramado na frente de uma casa térrea de barro, a Casa de Culturas Indígenas do Instituto do Psicologia da USP. As pessoas assistem alguns músicos que tocam seus instrumentos enquanto sentam em cadeiras dobráveis de plástico.
Os encontros na Casa de Culturas Indígenas são abertos ao público, e a primeira concentração contará com a presença de lideranças indígenas e artistas – Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

Amanhã, sexta-feira (4), na Casa de Culturas Indígenas (CCI) da USP, intelectuais e lideranças indígenas participarão de um encontro que unirá expressão artística, saberes tradicionais e psicanálise. A concentração, que ocorrerá entre as 13 e 14 horas, faz parte do evento Partilha da Luta pela Terra, organizado pela mestranda Heloiza Abdalla, poeta e psicanalista ligada à CCI e ao Laboratório de Pesquisa e Intervenções em Psicanálise (psiA), do Instituto de Psicologia (IP) da USP. Às 14h30, Heloiza defenderá sua dissertação de mestrado homônima, intitulada Partilha da Luta pela Terra — Uma Psicanálise em Confluência com o Bem Viver, na qual explora como o contato com culturas indígenas afetou sua escuta clínica.

Contando com instrumentos musicais, ladainha e a declamação de um poema escrito por Heloiza, a chamada “concentração contracolonial” receberá o capoeirista Mestre Jahça, do Departamento de Artes Cênicas da Unicamp, que tocará berimbau. Além disso, lideranças indígenas terão fala no evento, com a presença do xeramõi Sebastião Tataendy e da xejaryi Iraci, ambos anciões Guarani, e de Casé Angatu, historiador Xukuru que também compõe a banca examinadora da mestranda.

Também participarão da banca os psicanalistas Daniel Kupermann, professor do IP e orientador da pesquisa, e Mariana Leal de Barros, que coordena o Instituto de Clínica e Pesquisa em Psicanálise (INCLIPP). Em sua dissertação, Heloiza articula o atendimento psicanalítico com a luta indígena e o conceito de Bem Viver.

Um retrato em preto e branco de uma mulher jovem, branca, com os cabelos escuros ondulados e bem cheios.
Heloiza Abdalla – Foto: CV Lattes

“O Bem Viver são essas dimensões de saúde, de modo de viver que são vários e habitam muitos povos indígenas e contracoloniais. Uma dimensão de saúde que tem noção de que a terra é um bem comum, que a terra de fato é composta por muitos, que, para haver o planeta Terra, a gente precisa de determinados princípios. É uma ética de que a natureza não é algo a ser explorado e nem é parte da gente. É uma outra relação com a natureza em que ela é sujeito vivo, pessoa. Essa dimensão de que o planeta Terra passa por essa partilha de muitos povos, muitas espécies”, explica a mestranda.

A Casa de Culturas Indígenas, que sediará o encontro, é uma Opy’i, uma casa de rezas tradicional Guarani Mbya que fica dentro do IP. Segundo Heloiza, casas de reza funcionam como o coração das aldeias Guarani, frequentadas pelos xeramõi e xejaryi (os anciões da aldeia), onde as comunidades se reúnem para rituais, cantos e danças. A estrutura localizada na USP é fruto de uma iniciativa da Rede de Atenção à Pessoa Indígena do IP, coordenada pelo professor Danilo Silva Guimarães. Tradicionalmente, de tempos em tempos, são feitos barreamentos da casa como forma de manutenção e prática espiritual.

No domingo, uma caminhada ritual

Também fará parte do evento uma caminhada ritual pelo centro de São Paulo conduzida por Casé Angatu, no domingo, dia 6. Casé Angatu é doutor pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo e de Design (FAU) da USP e professor da Universidade Estadual de Santa Cruz, em Ilhéus, na Bahia. O docente vive no território indígena Tupinambá de Olivença e, há 30 anos, realiza caminhadas rituais chamadas de Îe’engara Guatá. A concentração será no Pátio do Colégio, às 11 horas, e percorrerá o caminho até o Parque Rio-Bixiga, com destino à cesalpina – árvore plantada pela arquiteta Lina Bo Bardi como parte do projeto do Teatro Oficina Uzyna Uzona que, em fevereiro, tombou após um forte temporal. Hoje, a cesalpina está tomada por brotos em seu tronco. A previsão é de que o percurso da caminhada ritual se estenda até às 13 horas.

Ambos os dias do evento serão abertos ao público. A organização pede uma contribuição voluntária para apoiar a presença de Casé Angatu, pelo Pix 73 9 9184-3606 (Carlos José Ferreira dos Santos).

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Serviço:

Partilha da Luta pela Terra (Concentração contracolonial):
Quando: dia 4 de julho de 2025, das 13h às 14h
Onde: Casa de Culturas Indígenas, na Cidade Universitária-USP (Av. Professor Mello Moraes, 1.721, São Paulo, SP)
Aberta ao público

Defesa de mestrado:
Quando: dia 4 de julho de 2025, a partir das 14h30
Onde: Sala 13 do Bloco F do Instituto de Psicologia (IP) da USP (Av. Professor Mello Moraes, 1.721, São Paulo, SP)
Aberta ao público

Guatá Toré – Caminhada Ritual para Cesalpina:
Quando: dia 6 de julho de 2025, das 11h às 13h
Onde: Concentração no Largo Pátio do Colégio, 2 – Centro Histórico de São Paulo, São Paulo
Aberta ao público


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