Mulheres se unem nas redes sociais para relatar casos de agressão

Apesar de ser considerada uma forma perversa de violência, especialistas recomendam que as mulheres busquem orientação legal, façam denúncia formal e tenham cautela nesses desabafos 

Foto: Kat Jayne/Pexels

Segundo o Ministério da Saúde, a cada quatro minutos uma mulher é agredida no Brasil. Seja violência sexual, física, psicológica ou até as três em conjunto, a situação deixa marcas na vítima que, em 25% dos casos, é agredida pelo marido ou namorado. Nos últimos meses, os exposeds (termo em inglês para exposição) tomaram conta das redes sociais. Eles servem como um espaço de desabafo para as vítimas que relatam as agressões sofridas ao longo da vida e que, na maioria dos casos, foram escondidas por anos.

Professora Maria Paula Panúncio Pinto – Foto: Arquivo Pessoal

A professora e presidente da Comissão de Direitos Humanos da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da USP, Maria Paula Panúncio, destaca que a violência contra a mulher é “histórica, ideológica e naturalizada”, por isso acaba sendo “uma forma muito perversa de violência”. Além disso, traumatiza as vítimas, principalmente quando cometida por pessoas próximas. “Em alguns casos, o agressor é alguém conhecido da vítima, que ela confiava. Isso vai afetar a saúde global dessa mulher, sua autoestima, autoconfiança e saúde mental.”

Maria Paula ressalta que esconder a agressão “aumenta o impacto dessa situação na saúde da mulher”. Além disso, destaca que a banalização da violência contra mulheres “dificulta até mesmo para que as próprias vítimas reconheçam que estão sofrendo algum tipo de violência”.

Já a professora Cíntia Rosa, da Faculdade de Direito de Ribeirão Preto (FDRP) da USP, alerta que as mulheres precisam tomar cuidados na hora de relatar as agressões nas redes sociais, “senão esse desabafo pode virar contra a própria vítima, como uma ação de calúnia, por exemplo”. Além disso, Cíntia não considera que o desabafo feito na internet traga benefícios, já que “as redes sociais não dão o suporte que a vítima precisa”. Para ela, o ideal é procurar órgãos competentes, como “instituições de atendimento à mulher e de direitos humanos, que são preparadas para receber essas denúncias e dar toda assistência para a vítima”.

Professora Cíntia Rosa Pereira – Foto: Arquivo pessoal/USP

Apesar de considerar uma denúncia formal como procedimento correto, Cíntia diz que o processo pode ser demorado e bastante burocrático. “A investigação criminal é fundamental nesses casos, para que nenhuma prova se perca”, ressalta. No caso de uma denúncia aos órgãos responsáveis, a vítima precisa passar por procedimentos como fazer boletim de ocorrência e exames médicos. “Se a vítima não for bem orientada, ela pode perder provas e informações e comprometer a investigação”, alerta.

Para a professora Maria Paula, esse é um dos motivos pelos quais as vítimas não fazem uma denúncia formal das agressões sofridas, já que“não se sentem seguras de que serão protegidas”. Outro motivo, segundo a professora, é o medo de serem julgadas. “Existe um pensamento muito forte de que a mulher se torna vítima de violência por conta de sua própria conduta”, explica. Maria Paula afirma que a violência contra as mulheres pode ser considerada uma “pandemia”, mas ressalta que “as mulheres têm o direito de viver uma vida livre de violências”.

Ouça no player acima a entrevista na íntegra das professoras Maria Paula Panúncio, da Faculdade de Medicina, e Cíntia Rosa, da Faculdade de Direito, ambas da USP de Ribeirão Preto, ao Jornal da USP no Ar, Edição Regional.

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