Jules Verne e Brasil: “un lieu commun entre nos Pays”

Por Paulo José do Amaral Sobral, professor da Faculdade de Zootecnia e Engenharia de Alimentos (FZEA) da USP

 02/07/2025 - Publicado há 10 meses
Paulo José do Amaral Sobral – Foto: Arquivo pessoal

 

Defendi minha tese de doutorado em fim de fevereiro de 1992, em Nancy, na França. Na sequência, trabalhei nas correções sugeridas pelo júri, fiz as impressões e providenciei as encadernações, conforme as normas do então Institut Nationale Polytechnique de Lorraine (INPL), e fiz o devido depósito. Assim, retornamos ao Brasil, eu e Rafael, meu filho nascido em Nancy, em março daquele ano.

Antes, porém, fui no Labo (“labô”) me despedir dos amigos e colegas. E meu orientador, professor Michel A. Roques (tive o privilégio e a felicidade de estar com ele celebrando seus 84 anos em maio do ano passado, em Hossegor, sudoeste da França), me ofereceu uma lembrança: um livro. Na primeira folha do livro, ele escreveu: “un lieu commun entre nos Pays“. Se tratava do livro La jangada, escrito por Jules Verne (1828-1905). Cópia da primeira edição. Capa dura. Simplesmente lindo!

Li o livro de uma sentada, ainda na França. Depois, uma amiga brasileira, que morava no mesmo prédio que eu, me pediu emprestado para ler, e nunca mais o vi. Perdi contato com ela e perdi o livro para sempre. Mas, meu filho Emanuel, então estudante de Engenharia Aeronáutica da Escola de Engenharia de São Carlos da USP, fez intercâmbio na França, com bolsa Brafitec da Capes, e, sabendo dessa história, encontrou um exemplar de um livro de bolso num bouquinista e o trouxe para mim, agora recentemente, em 2023.

Sim, o autor de obras fantásticas, como Viagem ao centro da Terra (publicado em 1864), 20 mil léguas submarinas (em 1869) e A volta ao mundo em 80 dias (em 1872), entre outros, também escreveu um livro de ficção cuja história se passa no Brasil, mais precisamente no Amazonas, sem nunca ter posto os pés nestas paragens. Esse livro, publicado em 1880, está disponível em português e pode ser encontrado das principais lojas virtuais.

Nesse livro, o autor conta a história da viagem de uma família de um fazendeiro rico, de Iquitos, no Peru, até Belém, no Pará, em uma enorme jangada construída com troncos de árvores derrubadas de meia milha quadrada de floresta, se deslocando pela força do rio. Essa jangada era tão grande, que construíram uma pequena vila nela. Claro, a casa maior e mais bonita era a do fazendeiro.

A jangada transportava a família do fazendeiro, mais 40 índios e 40 negros, além de um capataz e do piloto. Se o motor da jangada era a correnteza do rio, a direção de movimento era garantida pelos 160 braços manuseando remos, logo, mantendo a jangada longe das margens. Ela também transportava mercadorias, como sete mil arrobas de borracha, produzida da seiva de uma árvore, a seringueira ou hevea (Hevea brasiliensis), que, na época, devia valer uma pequena fortuna.

Para a alimentação do pessoal durante a viagem, eles transportavam vários produtos alimentícios, além da perspectiva de caçar e pescar durante a viagem. Claro, ele descreve coisas reais, mas descreve também coisas fantásticas. Dentre as reais, descreve que poderiam pescar o pirarucu, descrito corretamente como um peixe enorme, ou o tambaqui, segundo ele, o melhor dos peixes. E nem tanto real, como uma bebida, um certo vinho violeta escuro à base de açaí, o que é pouco provável, uma vez que o açaí é pobre em açúcares fermentescíveis. Ele deve ter confundido com a polpa do açaí, produto só conhecido pela maioria dos brasileiros (e do mundo) mais recentemente, embora de amplo consumo no Pará. Isso parece mesmo ser fruto da imaginação dele, pois eles estavam inicialmente em Iquitos, lado oeste do Rio Amazonas, enquanto o açaí é encontrado no lado leste, mais precisamente no Pará.

Outra imprecisão é sobre a mandioca (Manihot esculenta Crantz). Ele considera que, diferentemente da mandioca africana, a encontrada no Amazonas era venenosa (talvez ele não soubesse que a mandioca tem origem na Amazônia). De fato, existem duas variedades de mandioca, conhecidas como mandioca-brava, que é venenosa, e mandioca-mansa, conhecida em algumas regiões como macaxeira ou aipim, entre outros nomes, mas que também pode ser encontrada em todo o Brasil. A mandioca-brava contém um composto químico, a linamarina, que, no estômago, em contato com o ácido clorídrico, gera o cianeto (HCN), que é letal.

Mas esse composto químico pode ser eliminado. Ele descreve que é eliminado pela prensagem da pasta de mandioca, ou seja, ele considera que a linamarina é eliminada no liquido prensado. De fato, o processamento da farinha de mandioca consiste em ralar a raiz e prensar a pasta assim obtida, para eliminar a água livre, ou seja, aquele excesso de água que não está absorvida na matriz sólida do produto. Mas a quantidade de linamarina que resta na massa prensada ainda pode ser letal. O que elimina ela mesmo é o tratamento térmico intenso. Em escala artesanal, a pasta úmida é desidratada e torrada sobre placas metálicas aquecida em fogo vivo. Assim, a linamarina é degradada, e seus resíduos são volatilizados. Ou seja, a maioria absoluta da farinha de mandioca consumida no Brasil é produzida com a mandioca-brava, sem nenhuma intercorrência de problema de saúde pública. Mas atenção, o cozimento em água fervente não é suficiente para degradar a linamarina. Por isso, somente a mandioca-mansa é comestível por simples cozimento. A maniçoba, um prato à base de folha de mandioca, que é altamente venenosa, é cozida durante sete dias, justamente para eliminar a linamarina. Ou seja, um cozimento em água fervente por alguns minutos não seria suficiente para eliminar a linamarina da mandioca-brava.

Sem nada conhecer pessoalmente, ele descreve o Rio Amazonas e sua região com bastante detalhes: explica seus três nomes, seus afluentes e cita que ele tem 560 ilhas no seu leito (a conferir). Mas uma curiosidade é sua comparação com dois outros grandes rios, o Nilo, na África, e o Mississipi, nos Estados Unidos da América. Descreve ele que o primeiro corre de Sul a Norte, enquanto o segundo, de Norte a Sul. E, isso, segundo ele, faz com que esses rios sofram influência de diferentes climas, enquanto que o Rio Amazonas, que corre de Oeste a Leste, tem apenas uma condição climática lhe influenciando. E, continua, ele é varrido por um vento de Oeste a Leste proporcionando um clima agradável e delicioso sobre o Amazonas. Neste particular, posso discordar dele. Eu viajei de Manaus para Belém de barco de passageiros, com meu filho Emanuel, em julho de 2017, e posso confessar que a coisa mais acertada que fiz foi comprar passagem de cabine com ar condicionado. O problema não é o calor, nem a umidade. É o calor úmido, quase insuportável para quem não está habituado. Impressionante. Os passageiros que viajam em redes (as redes não são da embarcação, são dos passageiros – cada um leva a sua) sabem disso e se “viram” para conseguir um lugar na frente (proa) para aproveitarem a brisa.

Bem, como não tenho a intenção de dar spoiler, termino informando o quanto ele deve ter ficado impressionado com o macaco-de-rabo-longo, que ele diz ser uma verdadeira pata, ou seja, a quinta pata, pois eles são capazes de se pendurar em galhos com ela, e isso é fato, mas também ele descreve jacarés gigantes, que tem papel importante na história, mas que são frutos de fantasia.

Termino. Não sou crítico literário. Minha intenção foi apenas provocar curiosidades e informar. Espero ter conseguido. Se sim, boa leitura!

PS: Com dados obtidos no posfácio do livro: Jules Verne nasceu em Nantes e foi para Paris estudar Direito quando descobriu suas habilidades literária. Ele escreveu 80 livros, além de peças de teatro, folhetins etc. Aos 24 anos, escreveu seus primeiros livros, Les premièrs navires mexicaine; Um voyage em balon, e Martin Paz, mas antes escreveu várias peças de teatro. Teve catarata em 1902, e faleceu em sua casa, em Amiens, em 24 de março de 1905.

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