Obra de Lancaster ainda é referência na era digital

Por Leonardo Adriano Ragacini, mestrando na Escola de Comunicações e Artes da USP

 26/06/2025 - Publicado há 11 meses
Leonardo Adriano Ragacini – Foto: Arquivo pessoal

 

Frederick Wilfrid Lancaster, nascido em Durham, Inglaterra, em 4 de setembro de 1933, foi uma figura central no desenvolvimento da Ciência da Informação e da Biblioteconomia moderna. Sua trajetória profissional e acadêmica é marcada por contribuições inovadoras que transformaram a maneira como organizamos, recuperamos e acessamos a informação. Formado em Biblioteconomia, Lancaster iniciou sua carreira em 1955 na cidade de Newcastle, Inglaterra, e, após passagens pelos Estados Unidos e pela Inglaterra, consolidou-se como um dos nomes mais influentes da área.

Em 1964, Lancaster retornou aos Estados Unidos para participar de um projeto revolucionário: o desenvolvimento do Medlars (Medical Literature Analysis and Retrieval System), um sistema pioneiro de recuperação de informações bibliográficas, na Biblioteca Nacional de Medicina dos Estados Unidos. O Medlars foi o precursor do Medline, uma das bases de dados médicas mais importantes do mundo, ainda amplamente utilizada por pesquisadores e profissionais da saúde. A partir de 1970, Lancaster consolidou sua carreira acadêmica como professor na Universidade de Illinois, onde lecionou por mais de duas décadas até sua aposentadoria em 1992. Durante esse período, ele se tornou uma voz influente no campo da Ciência da Informação, publicando numerosos artigos e livros que se tornaram referências obrigatórias na área.

Sua obra mais conhecida, Indexação e Resumos: Teoria e Prática, publicada pela primeira vez em 1991, completará 34 anos em 2025 e continua surpreendentemente atual, mantendo-se como referência obrigatória nos cursos de Biblioteconomia e Ciência da Informação. O livro aborda desde os princípios básicos da indexação até questões complexas como a classificação de conteúdo multimídia e o equilíbrio entre revocação e precisão na recuperação de dados — conceitos que hoje são cruciais para algoritmos de IA e sistemas de recomendação.

Lancaster foi um visionário ao discutir temas como a automação da indexação, a importância dos metadados e os desafios da recuperação de informação em ambientes digitais. Ele antecipou desafios que ainda enfrentamos hoje, como a indexação de imagens e áudios, um problema enfrentado por museus e bibliotecas digitais na categorização de vastos acervos históricos. Sem descrição padronizada e metadados adequados, muitas dessas obras acabam se tornando inacessíveis, mesmo digitalizadas.

Um dos pontos mais visionários de Lancaster foi sua defesa da intervenção humana na indexação, mesmo em meio ao avanço da automação. Ele questionava se a tecnologia conseguirá, sozinha, garantir a relevância e a qualidade da informação organizada. Essa dúvida persiste, especialmente em um momento em que a inteligência artificial assume um papel crescente na classificação da informação. Lancaster argumentava que, embora a automação pudesse facilitar processos, o olhar crítico e interpretativo de um profissional seria sempre necessário para garantir a qualidade e a relevância da informação.

Frederick Wilfrid Lancaster faleceu em 25 de agosto de 2013, em Urbana, Illinois, deixando um legado que continua a influenciar gerações de bibliotecários, cientistas da informação e pesquisadores. Sua capacidade de antecipar os desafios da era digital e sua dedicação à organização do conhecimento fazem dele uma das figuras mais importantes do século 20 no campo da informação.

Em um futuro dominado pela IA, a pergunta que fica é: a indexação continuará a depender de nós, ou será completamente entregue às máquinas?

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