Ações de repressão e dispersão na Cracolândia são ineficientes e não corrigem os problemas do local

Segundo especialistas, o uso da força contra os frequentadores do fluxo atrapalha suas rotinas e prejudica o senso de coletividade dos usuários

 10/07/2025 - Publicado há 10 meses     Atualizado: 16/07/2025 às 14:11
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Sempre existiu uma intenção do governo de promover uma requalificação urbana na região – Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil
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No dia 13 de maio, a região central de São Paulo amanheceu sem um de seus cenários mais conhecidos: a concentração de usuários de drogas na chamada Cracolândia. A ação de dispersão da cena de uso localizada entre Santa Ifigênia e República, promovida pela Polícia Militar e agentes da Subprefeitura, deixou ruas vazias — mas não resolveu o problema. Para pesquisadores da USP, tratou-se de mais uma etapa no processo de desterritorialização e invisibilização da população em situação de rua na cidade.

Giordano Magri – Foto: ResearchGate

Conforme Giordano Magri, pesquisador do Centro de Estudos da Metrópole (CEM) da USP, o Estado atua nesse território há décadas, combinando estratégias de cuidado e repressão. De um lado, oferece tratamento e internação; de outro, promove prisões e intervenções policiais. Mas, segundo ele, sempre existiu também uma terceira dimensão: a intenção de promover uma requalificação urbana na região. Para isso, seria necessário — do ponto de vista das políticas adotadas — substituir os grupos socialmente estigmatizados por outros públicos mais aceitos.

Repressão

Essa dinâmica, para Magri, revela um projeto de cidade que considera indesejável a presença das pessoas que vivem no fluxo. Ele aponta que, ao longo do tempo, o poder público aprimorou suas estratégias de dispersão: das bombas de gás dos anos 2010 à vigilância por reconhecimento facial e cercamentos nos anos recentes. Com isso, as ações policiais deixaram de provocar apenas episódios momentâneos de conflito e passaram a interferir diretamente nas condições de permanência e sobrevivência dessas pessoas no território.

O problema, destaca o pesquisador, é que a dispersão compromete rotinas já precárias de sobrevivência. Grande parte dos usuários trabalha com coleta de recicláveis e utiliza hotéis e pensões da região para ter acesso a banho e abrigo. Quando obrigadas a circular constantemente, essas pessoas perdem vínculos de proteção. “A vida coletiva na rua é uma forma de proteção. Quando elas estão em grupo, conseguem se ajudar, compartilhar cobertores, comida, estratégias para gerar renda. É isso que o Estado tem tentado minar”, diz.

Ineficiência

Marcelo Batista Nery – Foto: IEA-USP

De acordo com Marcelo Nery, pesquisador do Núcleo de Estudos da Violência (NEV) da USP, as ações no local têm um efeito mais simbólico do que prático. Segundo ele, a dispersão não reduz o número de usuários nem resolve a questão do uso problemático de substâncias. O que se vê, na maioria dos casos, é uma pulverização dos fluxos em regiões próximas ou o retorno à área original assim que a presença policial diminui.

“Essas intervenções produzem apenas um deslocamento temporário”, afirma Nery. A lógica, segundo ele, repete-se há anos, sem avanços concretos na melhoria das condições de vida da população envolvida.

Além do impacto direto sobre os usuários, Magri alerta para um fenômeno mais recente: o ataque institucional às organizações que atuam no território. Ele observa que, ao fragilizar as redes de apoio e os serviços sociais presentes na região, o poder público aprofunda ainda mais a vulnerabilidade dessas pessoas. A atuação articulada entre polícia, concessionárias de serviços e Subprefeituras tem permitido contornar a necessidade de decisões judiciais em processos de remoção.

Thiago G. Calil – Foto: Arquivo Pessoal

Esforço conjunto

Na avaliação de Thiago Calil, pesquisador da Faculdade de Saúde Pública (FSP) da USP, o problema da Cracolândia jamais será resolvido sem um esforço intersetorial e de longo prazo. Para ele, a saúde pública deve ser pensada em diálogo com outras dimensões da vida, como moradia, trabalho, cultura e lazer. “Tentar enfrentar a situação com base apenas na repressão ou na internação compulsória é um esforço em vão”, afirma.

Calil reforça que, ao tratar o problema como um caso exclusivamente de segurança ou saúde mental, o Estado ignora a complexidade do fenômeno. Ele lembra que a maior parte das pessoas que frequentam os fluxos está em situação de rua e que políticas públicas voltadas à habitação e à geração de renda são fundamentais para garantir autonomia e estabilidade a essa população.


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