

No dia 13 de maio, a região central de São Paulo amanheceu sem um de seus cenários mais conhecidos: a concentração de usuários de drogas na chamada Cracolândia. A ação de dispersão da cena de uso localizada entre Santa Ifigênia e República, promovida pela Polícia Militar e agentes da Subprefeitura, deixou ruas vazias — mas não resolveu o problema. Para pesquisadores da USP, tratou-se de mais uma etapa no processo de desterritorialização e invisibilização da população em situação de rua na cidade.

Conforme Giordano Magri, pesquisador do Centro de Estudos da Metrópole (CEM) da USP, o Estado atua nesse território há décadas, combinando estratégias de cuidado e repressão. De um lado, oferece tratamento e internação; de outro, promove prisões e intervenções policiais. Mas, segundo ele, sempre existiu também uma terceira dimensão: a intenção de promover uma requalificação urbana na região. Para isso, seria necessário — do ponto de vista das políticas adotadas — substituir os grupos socialmente estigmatizados por outros públicos mais aceitos.
Repressão
Essa dinâmica, para Magri, revela um projeto de cidade que considera indesejável a presença das pessoas que vivem no fluxo. Ele aponta que, ao longo do tempo, o poder público aprimorou suas estratégias de dispersão: das bombas de gás dos anos 2010 à vigilância por reconhecimento facial e cercamentos nos anos recentes. Com isso, as ações policiais deixaram de provocar apenas episódios momentâneos de conflito e passaram a interferir diretamente nas condições de permanência e sobrevivência dessas pessoas no território.
O problema, destaca o pesquisador, é que a dispersão compromete rotinas já precárias de sobrevivência. Grande parte dos usuários trabalha com coleta de recicláveis e utiliza hotéis e pensões da região para ter acesso a banho e abrigo. Quando obrigadas a circular constantemente, essas pessoas perdem vínculos de proteção. “A vida coletiva na rua é uma forma de proteção. Quando elas estão em grupo, conseguem se ajudar, compartilhar cobertores, comida, estratégias para gerar renda. É isso que o Estado tem tentado minar”, diz.
Ineficiência

De acordo com Marcelo Nery, pesquisador do Núcleo de Estudos da Violência (NEV) da USP, as ações no local têm um efeito mais simbólico do que prático. Segundo ele, a dispersão não reduz o número de usuários nem resolve a questão do uso problemático de substâncias. O que se vê, na maioria dos casos, é uma pulverização dos fluxos em regiões próximas ou o retorno à área original assim que a presença policial diminui.
“Essas intervenções produzem apenas um deslocamento temporário”, afirma Nery. A lógica, segundo ele, repete-se há anos, sem avanços concretos na melhoria das condições de vida da população envolvida.
Além do impacto direto sobre os usuários, Magri alerta para um fenômeno mais recente: o ataque institucional às organizações que atuam no território. Ele observa que, ao fragilizar as redes de apoio e os serviços sociais presentes na região, o poder público aprofunda ainda mais a vulnerabilidade dessas pessoas. A atuação articulada entre polícia, concessionárias de serviços e Subprefeituras tem permitido contornar a necessidade de decisões judiciais em processos de remoção.

Esforço conjunto
Na avaliação de Thiago Calil, pesquisador da Faculdade de Saúde Pública (FSP) da USP, o problema da Cracolândia jamais será resolvido sem um esforço intersetorial e de longo prazo. Para ele, a saúde pública deve ser pensada em diálogo com outras dimensões da vida, como moradia, trabalho, cultura e lazer. “Tentar enfrentar a situação com base apenas na repressão ou na internação compulsória é um esforço em vão”, afirma.
Calil reforça que, ao tratar o problema como um caso exclusivamente de segurança ou saúde mental, o Estado ignora a complexidade do fenômeno. Ele lembra que a maior parte das pessoas que frequentam os fluxos está em situação de rua e que políticas públicas voltadas à habitação e à geração de renda são fundamentais para garantir autonomia e estabilidade a essa população.
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