Da ciência à sociedade: o papel dos ambientes de inovação

Por Marcelo Caldeira Pedroso, professor da Faculdade de Economia, Administração, Contabilidade e Atuária da USP

 23/06/2025 - Publicado há 9 meses

O Brasil investe cerca de 1,2% do PIB em pesquisa e desenvolvimento (P&D), segundo a OECD. Em 2023, o País publicou mais de 156 mil artigos, o que colocou o Brasil na décima posição entre os países com maior produção científica anual. Assim, investimos em P&D e realizamos publicações científicas. Nesse contexto, destaco uma reflexão: como esses esforços são convertidos em benefícios para a sociedade?

Uma das principais respostas está na inovação. Esta pode ser associada a um fluxo de geração de valor. Esse fluxo tem início em ideias, conhecimentos e tecnologias que são transformados em produtos, serviços e processos, e estes levados ao mercado.

Neste artigo, pretendo abordar especificamente o conhecimento científico. Assim, a inovação pode ser considerada como um elo final para converter ciência em produtos, serviços e processos que possibilitem resolver problemas relevantes da sociedade.

Nesse contexto, há um papel de destaque reservado aos ambientes promotores de inovação. Estes são locais projetados para atrair diferentes stakeholders associados à economia do conhecimento que atuam de forma colaborativa visando ao desenvolvimento econômico sustentável e à prosperidade da comunidade.

Formatos dos ambientes de inovação

Os ambientes de inovação podem apresentar diferentes formatos, a depender da configuração dos seus ativos de infraestrutura, institucionais, científicos, tecnológicos, educacionais e sociais, e da oferta de serviços de valor agregado.

Em particular, dois grupos de ambientes de inovação podem ser considerados: os ecossistemas de inovação; e os mecanismos promotores de empreendimentos inovadores.

Os ecossistemas de inovação se destacam pela infraestrutura e arranjos institucionais, além de outros ativos e serviços. Como exemplos, podemos citar os parques científicos e tecnológicos, distritos de inovação e polos tecnológicos.

Os mecanismos promotores de empreendimentos inovadores oferecem diferentes categorias de suporte para transformar ideias e tecnologias em empresas nascentes. Exemplos incluem as incubadoras de empresas, aceleradoras de negócios, venture builders, hubs de inovação, centros de inovação, espaços abertos de trabalho cooperativo (ou coworking) e diferentes formatos de laboratórios de inovação, tais como os living labs (espaços para prototipagem, teste e validação de soluções inovadoras).

Competências dos ambientes de inovação

Independentemente do enquadramento em uma determinada classificação ou nomenclatura, considero que um ambiente de inovação deve apresentar oito atributos:

• Base científica robusta, que considera as universidades, outras ICTs (Instituições Científicas, Tecnológicas e de Inovação) públicas e privadas, e hospitais universitários como âncoras ou principais parceiros.
• Infraestrutura adequada, que aborda espaços para incubação e diferentes laboratórios, tais como multiusuário e living lab.
• Capital intelectual disponível, que contempla acesso a pesquisadores, empreendedores e outras pessoas com formação altamente qualificada.
• Programas de inovação e empreendedorismo, tais como programas de criação de startups e de capacitação em inovação e empreendedorismo.
• Capital financeiro disponível ou acessível, que implica no oferecimento de capital no formato de investimentos e/ou fomento, e na facilidade de acesso às agências de fomento e investidores.
• Acesso ao mercado, que aborda a capacidade dos ambientes de inovação em conectar os pesquisadores e as empresas residentes às demandas e necessidades das empresas, das redes produtivas locais, do governo, dos consumidores finais e de outros ambientes de inovação.
• Oferta de serviços de valor agregado, que podem ser serviços tecnológicos (ex.: gestão de projetos de P&D; ensaios, análises técnicas e calibrações) e serviços de apoio (ex.: auxílio à captação de investimentos e à propriedade intelectual; serviços de contabilidade, jurídicos e de recrutamento).
• Rede efetiva de relacionamentos visando suprir ou complementar os sete atributos apresentados anteriormente.

Esses atributos podem ser desenvolvidos ao longo do tempo, conforme a evolução e vocação de determinado ambiente de inovação.

Contribuição para o desenvolvimento econômico e social

Um ambiente de inovação, com base nas competências acima, pode contribuir efetivamente para o desenvolvimento econômico e social de uma comunidade ou região. Isso pode ser consubstanciado pela criação de empregos e geração de renda, além de outros impactos socioambientais.

Uma forma efetiva de alinhar as contribuições de um ambiente de inovação à sociedade envolve a adoção da inovação orientada por missão. Esta considera as soluções de natureza tecnológica, social ou organizacional que visam responder a um ou vários desafios sociais (missões) e consequentemente criar valor para a sociedade. Exemplos desses desafios incluem a mitigação climática, oceanos limpos, crescimento econômico sustentável e bem-estar da população.

Assim, um ambiente de inovação com as competências adequadas, articulado com diferentes stakeholders (empresas, cadeias produtivas locais, universidades, ICTs públicas e privadas, hospitais universitários, diferentes esferas do governo, agências de fomento, investidores, organizações da sociedade civil e outros ambientes de inovação) e uma lógica de inovação orientada por missão, pode assumir um papel relevante para converter ciência em benefícios para a sociedade.

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