Hoje discutimos um recurso que já faz parte do cotidiano dos clubes profissionais: os sistemas de rastreamento que convertem cada deslocamento, aceleração e gesto técnico em dados acionáveis. Um artigo recente no International Journal of Sports Medicine, liderado por Felipe Moura, revisa a evolução dessas tecnologias e mostra por que elas são centrais no planejamento de treinos, na prevenção de lesões e nas decisões de mercado.
Os sistemas baseados em vídeo foram pioneiros: câmeras elevadas registram toda a partida e algoritmos de visão computacional identificam campo, atletas e bola. Hoje, redes neurais como OpenPose já estimam articulações, permitindo análises biomecânicas, embora o processamento permaneça demorado, sobretudo em cenas com muitos jogadores sobrepostos. Entre os wearables, destacam-se duas famílias. O GPS/GNSS, dominante em esportes ao ar livre, entrega dados quase em tempo real, mas perde precisão em mudanças bruscas de direção e sob cobertura de satélites desfavorável; 10 Hz costuma ser o compromisso ideal entre acurácia e tamanho de arquivo. Já os LPS (Local Positioning Systems), com antenas distribuídas ao redor da quadra, rastreiam transponders nos coletes com erros abaixo de 25 cm — solução precisa para ginásios, porém cara e de instalação fixa.
Qualidade de dados requer atenção a taxa de amostragem, geometria de satélites, calibração de câmeras e validação contra métodos-padrão. GPS de 1–5 Hz subestimam distâncias de alta intensidade, enquanto modelos de 20 Hz podem superestimar acelerações; LPS bem calibrados mantêm precisão mesmo em 45 Hz. Para vídeo, é essencial relatar a fração rastreada automaticamente e o tempo de processamento —indicadores ainda ausentes em muitos estudos. A tendência atual é integrar métodos: câmeras para métricas táticas, GPS/GNSS para carga externa outdoor e LPS para ambientes indoor, além de fusão de dados via inteligência artificial e avanços em pose estimation para avaliação articular em jogo. Rastrear atletas deixou de ser luxo e tornou-se rotina de desempenho. Cada tecnologia apresenta vantagens e limitações; a escolha acertada combina velocidade de entrega, ambiente, orçamento e objetivo analítico. Crucial, porém, é garantir que o erro de medição seja menor que a mudança que se deseja monitorar. Como ressalta o artigo de Moura, validar, calibrar e reportar continuam sendo os pilares para transformar números em decisões que elevem o rendimento esportivo.
Ciência e Esporte
A coluna Ciência e Esporte, com o professor Bruno Bedo, vai ao ar toda sexta-feira às 10h00, na Rádio USP (São Paulo 93,7 FM; Ribeirão Preto 107,9 FM) e também no Youtube, com produção do Jornal da USP e TV USP.
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