Hoje (23) vamos falar sobre um dos temas que mais geram discussões no futebol moderno: o impacto do árbitro de vídeo, o famoso VAR, no Campeonato Brasileiro. Desde que foi adotado oficialmente, em 2019, o VAR tem sido alvo de debates entre torcedores, jogadores, técnicos e até jornalistas. Afinal, será que ele mudou o jogo? Será que tornou as partidas mais longas, mais justas, ou simplesmente mais paradas?
Para tentar responder a essas perguntas, um estudo recente analisou nove temporadas do Campeonato Brasileiro de Futebol, comparando os quatro anos sem VAR, entre 2015 e 2018, com os cinco anos seguintes, de 2019 a 2023, já com o uso da tecnologia. Foram mais de 3.400 partidas avaliadas, o que torna esse levantamento o maior já feito sobre o tema no contexto do futebol brasileiro. E os resultados ajudam a esclarecer algumas percepções que, muitas vezes, acabam sendo construídas apenas pela nossa experiência como espectadores. De forma geral, o que os dados mostram é que o VAR não trouxe grandes mudanças em aspectos como o número de cartões, de pênaltis, de faltas ou até mesmo de gols. Esses números se mantiveram praticamente estáveis antes e depois da chegada da tecnologia. Isso, por si só, já desmonta um certo imaginário de que o jogo teria ficado mais rigoroso, com mais punições ou com mais pênaltis. Por outro lado, houve, sim, mudanças claras e bem consistentes. A primeira delas é na quantidade de impedimentos. O número de marcações de impedimento caiu de forma significativa, o que faz todo sentido, já que o VAR permite revisar lances muito ajustados, que antes dependiam exclusivamente do olhar do bandeirinha. Agora, em situações de dúvida, a recomendação é deixar o lance seguir e, se for o caso, corrigir depois com a análise de vídeo.
Outra mudança que também ficou bastante evidente é o aumento no tempo das partidas. As pausas necessárias para revisar os lances fazem com que os árbitros precisem compensar esse tempo, e, por consequência, o jogo ficou, em média, dois minutos e meio mais longo. E aqui surge uma pergunta que muita gente se faz: esse aumento significa mais tempo de futebol jogado ou simplesmente mais tempo parado esperando uma decisão? A resposta, pelo menos por enquanto, é que isso ainda não está claro. Esse estudo não avaliou o tempo efetivo de bola rolando, então ainda não dá para dizer se esses minutos a mais significam mais espetáculo ou mais interrupções. Na verdade, essa é uma das principais recomendações dos próprios autores para pesquisas futuras: entender como o VAR influencia não só o tempo total, mas o tempo em que, de fato, a bola está em jogo.
De todo modo, o que os dados deixam muito claro é que o VAR cumpre bem o papel para o qual foi criado, que é corrigir erros claros, principalmente nas marcações de impedimento, sem alterar muito as outras dinâmicas do jogo, e isso é algo que também vem sendo observado em outros campeonatos ao redor do mundo. O debate, é claro, continua. Afinal, enquanto alguns veem o VAR como uma ferramenta que trouxe mais justiça e mais precisão, outros o enxergam como um elemento que quebrou o ritmo e a espontaneidade do jogo. Mas se tem uma coisa que parece certa, é que o VAR veio para ficar, e, gostando ou não, entender o seu impacto com base em dados, e não apenas na emoção da arquibancada, é fundamental para qualificar essa discussão.
Ciência e Esporte
A coluna Ciência e Esporte, com o professor Bruno Bedo, vai ao ar toda sexta-feira às 10h00, na Rádio USP (São Paulo 93,7 FM; Ribeirão Preto 107,9 FM) e também no Youtube, com produção do Jornal da USP e TV USP.
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